1/04/2007

O antiprofeta













Para começar o ano, outro texto do Emil Cioran. Esse inclusive me inspirou a fazer uma música adaptando parte do texto. Essa música fazia parte do repertório do OAEOZ bem no começo da banda, mas nunca chegou a ser gravada oficialmente. Qualquer dia desses gravo ela no violão e coloco no my space, sei lá. Foda que agora tô sem internet em casa, e as coisas se complicaram. Maldita infra-estrutura brasileira que num bairro há quinze minutos do centro de Curitiba não disponibiliza banda larga. enfan...

Na adaptação que eu fiz, a letra ficou assim:

O amor — o encontro de duas salivas...
Todos os sentimentos extraem seu absoluto da miséria das glândulas.
Não há nobreza senão na negação da existência,
em um sorriso que domina paisagens aniquiladas.
(Outrora tive um "eu"; agora sou apenas um objeto...
Empanturro-me de todas as drogas da solidão;
as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo.
Tendo matado o profeta em mim,
como terei ainda um lugar entre os homens?)
Livre do fim, de todos os fins, de meus desejos
minhas frustrações
só conservo as fórmulas.
Tendo resistido à tentação de concluir,
venci o espírito,
como venci a vida pelo horror,
a buscar-lhe uma solução
Tendo matado o profeta em mim,
como terei ainda um lugar entre os homens?

Abaixo, o texto na íntegra, retirado do site www.niilista.com.br

O Antiprofeta
por Émile Michel Cioran


Em todo homem dorme um profeta, e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo... A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro não ser surdos nem mudos...
Dos esfarrapados aos esnobes, todos gastam sua generosidade criminosa, todos distribuem receitas de felicidade, todos querem dirigir os passos de todos: a vida em comum torna-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda: quando não se intervém nos assuntos dos outros, se está tão inquieto com os próprios que se converte o "eu" em religião ou, apóstolo às avessas, se o nega: somos vítimas do jogo universal...
A abundância de soluções para os aspectos da existência só é igualada por sua futilidade. A História: manufatura de ideais..., mitologia lunática, frenesi de hordas e de solitários..., recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções...
A fonte de nossos atos reside em uma propensão inconsciente a nos considerar o centro, a razão e o resultado do tempo. Nossos reflexos e nosso orgulho transformam em planeta a parcela de carne e de consciência que somos. Se tivéssemos o justo sentido de nossa posição no mundo, se comparar fosse inseparável de viver, a revelação de nossa ínfima presença nos esmagaria. Mas viver é estar cego em relação às suas próprias dimensões...
Se todos os nossos atos — desde a respiração até a fundação de impérios ou de sistemas metafísicos — derivam de uma ilusão sobre nossa importância, com maior razão ainda o instinto profético. Quem, com a visão exata de sua nulidade, tentaria ser eficaz e erigir-se em salvador?
Nostalgia de um mundo sem "ideal", de uma agonia sem doutrina, de uma eternidade sem vida... O Paraíso... Mas não poderíamos existir um instante sem enganar-nos: o profeta em cada um de nós é o grão de loucura que nos faz prosperar em nosso vazio.
O homem idealmente lúcido, logo idealmente normal, não deveria ter nenhum recurso além do nada que está nele... Parece que o ouço: "Livre do fim, de todos os fins, de meus desejos e de minhas amarguras só conservo as fórmulas. Tendo resistido à tentação de concluir, venci o espírito, como venci a vida pelo horror, a buscar-lhe uma solução. O espetáculo do homem — que vomitivo! O amor — um encontro de duas salivas... Todos os sentimentos extraem seu absoluto da miséria das glândulas. Não há nobreza senão na negação da existência, em um sorriso que domina paisagens aniquiladas.
(Outrora tive um "eu"; agora sou apenas um objeto... Empanturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens?)

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o que mais me chamou a atenção no Cioran quando conheci o trabalho dele foi o fato de que mesmo quem como eu, não entende patavina de filosofia, ainda mais de filosofia contemporânea, que é extremamente hermética e exige um conhecimento profundo de todas as referências filosóficas clássicas e modernas, pode se interessar pelo trabalho do cara. Em alguns momentos, o texto dele parece mais um tipo de poesia em prosa do que filosofia no sentido técnico da coisa. E a força do texto é avassaladora, revelando coisas que só alguém que realmente mergulhou fundo na alma humana é capaz de enxergar e expressar. Coisas como:

"Empanturro-me de todas as drogas da solidão;
as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo"

ou

"Mas viver é estar cego em relação às suas próprias dimensões..."

Por mais radical e extremo que possa parecer o niilismo de Cioran, ou concordando ou não com ele, o fato é que ele toca o dedo em feridas que a gente na maioria das vezes procura esquecer, ou ignorar. Taí uma coisa que eu quero fazer esse ano, e encontrar outra cópia de "Breviário da Decomposição", já que a que eu ganhei sumiu. Se alguém vir esse livro por aí em algum sebo, me avise.

2 comentários:

afonso alves disse...

ótimo saite.

acediaa disse...

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Rodrigo