5/10/2019

Histórias de Catarina: se perdendo por aí

Catarina não tem jeito: ela se perde!
se perde nela mesma, flanando em (e por) pensamentos.
ela se perde no outro - e nos outros!
Catarina se perde porque se entrega.
com ela não tem outro jeito de ser
Catarina se perde!
se perde por aí...
olhando a cidade, vendo a vida e ouvindo música
pedalando ou pela janela do ônibus
em dia de chuva
 e naqueles com sol
acordando com a cara enfiada em um livro - ou dois, ou mais.
essa menina, Catarina, é impossível!
se joga nos rios sem saber nada
dorme abraçada com a gatinha
corre pela casa fazendo bagunça com a cachorra
estica as pernas pra cima
planta bananeira
milho e abóbora.
Catarina se perde todo dia
depois, se acha.
no quintal
ou na garagem
Outro dia decidiu fazer pão.
Enquanto crescia, Catarina se perdeu de novo!
Notou as gotas de chuva na janela velha
lembrou de uma antiga canção
quieta, fez a volta
e sentou no chão!

12/12/2018

New Order em Curitiba foi inesquecível!




 E a primeira vez que esperei ansiosamente pelo final de 
de um show que gostei desde o começo


  
O dia 2 de dezembro de 2018 está gravado em mim.  Neste dia eu ouvi em um palco curitibano três músicas antológicas da banda Joy Division sendo tocadas por nada menos que metade da banda original: Bernard Summer (vocais, guitarra e sintetizadores) e Stephen Morris (bateria, bateria eletrônica e sintetizadores). Faltou Peter Hook (baixo e sintetizadores). Não faltou Ian Curtis, vocalista e compositor, porque ele sempre estará entre nós, a despeito de sua escolha trágica naquele solitário e desolador 18 de maio de 1980. Completam a formação atual do New Order os músicos Gilian Gilbert, Tom Chapman e Phil Cunningham.
Ainda agora, ouvir os trechos que consegui gravar da performance desta que é uma das influentes da história da música e um dos elos entre o rock e a música eletrônica, nascida dos escombros do Joy Division, me provocam lágrimas. Como disse um amigo de redes sociais: eu ainda estou neste show!






Na verdade, eu praticamente ainda não acredito que ouvi e vi isso ao vivo... parece quase um sonho que se mistura com as imagens da minha vida, com as de uma gravação em VHS que não lembro como o Ivan conseguiu, mas lembro muito bem que assistimos aquela fita incontáveis vezes, sempre quase em silêncio, ‘de cara’ com a intensidade daquela performance. Era a gravação de um show, se sei onde foi não lembro, com pouquíssima luz, quase não se via nada em vários momentos, ‘só’ aquele som hipnótico, uns vultos se mexendo, com aquela banda nos conduzindo por um labirinto de sensações e emoções da flor da idade que se abriam diante dos nossos não mais que vinte anos.  Foi ali que conhecemos o jeito de Ian Curtis dançar, foi ali que sentimos a força da banda além dos discos. É uma memória muito, muito forte que está cravada em mim, por inúmeras razões que se misturaram às entranhas e me alimentam até hoje. Porque não existiu uma única vez que eu tenha ouvido Joy Division sem ficar absolutamente mexida com a audição. Com o passar do tempo, biografias e histórias vieram somar informações sobre a construção de um mito de verdade, com suas incongruências e dicotomias, inseguranças e incertezas e escolhas, tão humano, frágil e forte, capaz de criar e de destruir (-se, inclusive), trazendo uma sensação ainda mais forte de um tipo de cumplicidade que às vezes se constrói com alguém que se admira à distância. È muito complexo tudo que envolve o Joy Division, que é uma daquelas bandas super influentes da música mundial que teve um fim prematuro e trágico.


Eu ainda não acredito que vi e ouvi isso.

Em 1988, quando o New Order tocou no Brasil a primeira vez eu não conhecia a banda. Jamais tinha ouvido falar em Joy Division. Tudo mudaria um ou dois anos depois,  já na faculdade, um dos ‘marco zero’ da minha vida! Eu já tinha iniciado minha própria descoberta musical, mas a partir dali ganhei alguns dos aliados mais importantes na minha vida, musical inclusive, amigos com ouvidos pra lá de especiais, corações atentos e mentes cheias de ideias e vontades a serem realizadas. Juntos passamos por algumas descobertas. E foi assim que cheguei a Joy Division, por tabela!

Na noite daquele domingo de dezembro de 2018 foi impossível não lembrar de tudo – e aquele filminho que passa na cabeça da gente quando nos deparamos com uma cena que provoca a memória, tumultuou tudo. O coração se dividiu entre ‘só’ aproveitar o momento e a vontade forte de também registrar algo mais, para além de nós. Todo o show foi incrível.  Show de luzes, de som, de público absolutamente encantando e a distância do palco foi um detalhe (quase) irrelevante. A presença de uma banda real para fazer um som eletrônico continua fazendo a diferença e é uma das razões que mantêm New Order no topo até hoje, como dona de uma das grandes performances nas quais o peso de sua história não atrapalha o agora. Ao contrário, ajuda. Muito da visceralidade (tranquila) da banda vem dessa combinação de músicos de verdade fazendo o som  junto com as bases pré-gravadas. Fez a diferença (já no Joy, pioneiro no uso de elementos eletrônicos) quando o trio remanescente teve que continuar a caminhada iniciada ao lado de Ian Curtis e continuou fazendo ao longo da trajetória do New Order que deu continuidade ao legado do Joy.





A única coisa estranha é que foi a primeira vez que esperei ansiosamente pela parte final de um show – e, por favor, isso não é demérito algum ao New Order, é só  o sinal de um coração encantado se dando ao direito de ser livre. Dancei, dancei, dancei e dancei! Não é a toa que a banda é referência. New Order é desses grupos que você não precisa conhecer uma música sequer para curtir.  Entre as faixas mais conhecidas e as que eu não conhecia nenhuma distância existiu –  a não ser, claro, os suspiros e exclamações.

Eu ainda não acredito que vi e ouvi isso.




Atmosphere
Walk in silence/ Don't walk away, in silence/ See the danger/ Always danger


Então, é só eu colocar os pedaços estilhaçados das gravações que tentei fazer, enquanto estava mais ocupada em viver. Mas, não é um 'basta' fácil, porque colocar uma música do Joy pra tocar não é assim tão simples. Pra mim não é! Imagine então ver isso, com esses olhos me olhando, misturados as tais imagens do show escuro que estão cravadas na minha memória... tudo contribui para que minha mente se liberte e até se iluda, por alguns instantes: eu vi um pedaço de Joy Division bem pertinho de mim, tocando pra nós, naquela noite inesquecível que aconteceu ali do outro lado de Curitiba.

decades
Here are the young men, a weight on their shoulders
Here are the young men, well, where have they been?
We knocked on doors of hell's darker chambers
Pushed to the limits, we dragged ourselves in

Watched from the wings as the scenes were replaying
We saw ourselves now as we never had seen
Portrayal of the traumas and degeneration
The sorrows we suffered and never were freed







Em tempo e atualizando informações: O VHS que a gente tinha era uma cópia do VHS lançado oficialmente pela Factory com o título "Here are the young man", com trechos de shows do Joy Division, lançado em 1982!

12/06/2018

CriÂnsia!


Entre a criança e o adulto, o que sobrou de nós?




fotos de Karla Vizone

 A brincadeira começa fora do teatro. É bichinho de pelúcia pra todo canto, gritos, correria... somos crianças brincando no pátio da escola, se quisermos nos permitir, e o astral é de algazarra. Dentro, o clima também pode ficar tenso, embora comece com um convite para continuar brincando! Em “CriÂnsia”, peça que a Processo Multiartes remontou depois de 15 anos e apresenta em temporada gratuita no Teatro Experimental da UFPR, o TEUNI,  a plateia é convidada a participar de brincadeiras e a lembrar um pouco dos bons momentos da infância. De forma tranquila - e quem preferir não participar terá os lugares para sentar-se.

Eu topei, claro, afinal brincar é sempre bom! Em cima de um imenso quebra-cabeças que é o palco, pequenos grupos se formam, a convite dos atores, para compartilhar diferentes brincadeiras. Até que toca o sinal e logo a gente lembra  do 'nosso tempo' de escola ao mesmo tempo em que se dá conta que os tempos são outros. Mulheres e crianças atrás dos homens e uma série de ordens da diretora, ao som de um hino, começam a por tudo no lugar (ou seria fora do lugar?). Fila, dar distância, pare de brincar,  comporte-se, dá esse brinquedo aqui! Acabou a brincadeira!

Não vou estragar as surpresas para quem quer assistir ao espetáculo que segue em cartaz até dia 16 de dezembro – e que mexeu muito comigo, talvez por ver ali encenadas algumas situações que, infelizmente, espelham o momento intolerante em que vivemos. Adriano Esturilho se mostra cada vez mais fera em criar uns climas cênicos reais e conta com aliados importantíssimos para atingir seus objetivos. Cenário, figurino, intervenções, movimentações, elenco e equipe de apoio, um conjunto harmônico, e que me pareceu impecável, brinca com ironia e graça em meio a algumas desgraças. E o lugar escolhido se mostra perfeito!

O som ao vivo, desta feita com tambores que criam um clima meio ritualístico, em alguns momentos, é peça-chave. Entre o esboço que vi em ensaio até a apresentação da semana passada, um espetáculo (hummm, não, essa palavra não tá caindo bem para o que vi) que se constrói com referências dos anos 80 e 90 para falar de agora, quando estão vivendo os adultos que ‘fomos’ adolescentes lá. 




Tem programa de auditório e letras de músicas infantis inacreditáveis (e o pior é saber que a bizarrice nem é sempre exagerada), tem ‘nave espacial’, tem referências atuais diretas, tem texto e cenas que doem na gente – e o que pega mesmo é o que expõe sobre as pessoas, entregando o que elas pensam. É aí, que Criânsia nos põe no chão – ou foi aí que Criânsia me pôs no chão!
Em uma cena, a turminha oprime violentamente um colega; na outra é o coleguinha que dá o troco... me vi pensando no mundo lá fora, no que estamos nos transformando, no que as pessoas desejam para o outro e o que pode acontecer com elas, já que não se dão conta de estão caminhando para um abismo moral...




Pra mim, que não passo de alguém da plateia que quer experimentar o que a obra propõe,  esta remontagem de Criânsia é um dos grandes trabalhos do teatro brasileiro de 2018. Usa de forma bela a simplicidade, nos coloca dentro de um clima lúdico e lá dentro estraçalha e convida quem tá na plateia a a dividir suas histórias e confidências, também, se quiser. Sempre se quiser! A equipe conta que ouviu depoimentos de chorar, mesmo. Tem momentos de gargalhadas que cedem a um riso nervoso, a postura fica incômoda. E tem momentos em que o silêncio é tão a única coisa que nos resta que, sim, dá um imensa vontade de chorar! E tem o momentos em que o lúdico toma conta da gente, como a grande ciranda que se forma, com direito a quem quiser puxar uma cantoria! 
Vá ver e quem sabe conversamos mais sobre isso tudo que está por aí, depois.

A temporada segue até 16 de dezembro, de quinta a sábado às 20h30 e ao domingos às 19h30. O TEUNI  fica na Praça Santos Andrade, s/n – Prédio Histórico da UFPR. E é preciso chegar uma hora antes para retirar a senha do ingresso.  A classificação é 16 anos.

Ficha técnica:
Texto e Direção: Adriano Esturilho
Elenco: Cleydson Nascimento, Debora Vecchi, Mariana Barros, Allan Brasileiro, Jossane Ferraz, Paulo Kabuto
Músico e Sonoplasta: Eugênio Texeira Fim
Preparador Corporal: Andrew Knoll 
Cenografia : Guenia Lemos 
Cenotécnico: Willian Batista 
Figurinos:  Eduardo Giacommini      
Aderecista: Katia Horn          
Iluminação: Lucas Amado    
Técnico Responsavel  : Julio machado
Produtora Executiva Judy Fiorese
Diretora de Produção Bella Souza
Assistente de Produção Nathalie Rocha
Contrarregra Paulo Silva
Assessoria de Imprensa De Inverno Comunicação
Assessoria de Comunicação Kadije Akl
Designer Gráfico e Fotógrafa Karla Vizone
Realização: Processo MultiArtes



12/05/2018

A menina e o Pink Floyd: três décadas depois

A primeira banda louca que entortou minha percepção sonora!*


Há 33 anos, no dia 15 de março de 1985, entrei no Estádio Couto Pereira, em Curitiba, aos 14 anos, para ver o show que lembro como o meu primeiro, do grupo porto-riquenho Menudo. Em Curitiba há apenas três meses vinda do interior de Santa Catarina, trazia comigo as boas lembranças de infância e andava tristonha de saudades.  A boy band latina, considerada o maior fenômeno infanto-juvenil da década de 80 foi a primeira banda que segui como fã: cantava, fazia coreografias e, se a memória não me trai, foi a única vez que tive um pôster na parede, do Robby. Porém, não tive o disco – era o tempo das rádios AM e da fita cassete. 



Não vou enrolar: a verdade é que pouco ficou na minha memória daquele tal primeiro show, cuja permissão para ir só tive porque a irmã do melhor amigo do meu irmão ia e as famílias se conheciam. Mal sabia a menina que tudo estava prestes a virar pelo avesso. Cerca de um ano depois tudo começaria a mudar – e começou pela música, isso é bem claro agora!

Em algum ponto daquele longínquo 1985 percebi um rapaz diferente na sala de aula. Roupas pretas, cabelos meio compridos; tinha olheiras evidentes emoldurando um olhar que, pra mim, era triste. Ficava sempre no fundão (eu ainda era menina das primeiras fileiras, rsrsrs) e cheguei a ouvir que ele não era boa companhia, que o esquisitão fumava maconha, coisas do tipo. Não me fiei nas avaliações, mas fiquei na minha. No início do segundo ano, ao entrar na sala de aula e perceber que estávamos na mesma turma, mudei de lugar! E puxei a conversa que evoluiu para uma das mais belas amizades que já tive, com direito a troca de cartas e longas horas de conversas ao telefone. Assim conheci a banda preferida dele, o Pink Floyd.

Meu amigo falava muito do “Wish You Were Here”; eu já curtia mais rock nacional, o dial mudara para as sintonias das Frequências Moduladas, as FMs, e comprara alguns discos. O fato importante é que ali começaram as trocas musicais que fariam a diferença na minha vida (pessoal e profissional) anos depois. “The Final Cut" foi o primeiro disco que me ‘arrasou’. Para desespero de meus pais, eu me trancava no quarto a tarde toda, com um tecido escuro cobrindo a janela: quando não estava estudando estava deitada no chão, com a cabeça entre as duas caixas do meu amado 3 em 1 Gradiente, presente de 15 anos. Não tinha ideia que a banda estava implodindo, não tinha ideia de nada da história deles. Mas, traduzi cada palavra daquele disco mais de uma vez e cheguei num ponto de conhecer cada pausa e respiração. E foi assim que o ‘Pink Floyd do Roger Waters’ mudou a percepção musical da menina.






Us + Them
E eis que em um sábado, 27 de outubro, entrei pela segunda vez naquele mesmo estádio, e posso dizer com toda tranquilidade agora, para ‘ver’ as músicas da primeira banda louca que entortou a minha percepção sonora! Se posso dizer que algum disco mudou a minha vida, ele foi feito pelo Floyd, sob o comando de Waters. O mesmo cara que estava ali na minha frente, infelizmente enfrentando com a gente o ódio e a incompreensão da maioria presente no show da turnê Us + Them.  





A ideia era falar sobre a experiência musical, sobre as emoções despertadas e sobre o que a música é capaz de fazer com uma pessoa: em menos de um ano ir de um pop adolescente pasteurizado até uma das sonoridades mais complexas da música mundial. Sob o prisma de Waters, no entanto, não se pode ignorar a questão política, outro elo que une essas experiências distantes no espaço tempo.

Naqueles meados dos anos 80 o Brasil também respirava política, mas o entorno era libertário, o momento era de esperança com o primeiro presidente civil eleito, mesmo que indiretamente, depois de anos de ditadura. Um clima completamente diferente do que vivemos na véspera desta eleição tensa de 2018, marcada por mentiras, pelo desinteresse/desilusão de parte expressiva dos eleitores, ao lado da violência e preconceito de outra parte. A pimenta ficou ainda mais ardida pelo fato de o show ser em Curitiba, um dos epicentros da derrocada em que nos metemos.





Ao sentar-me diante do computador para escrever, primeiro empaquei; depois, entrei na viagem para em seguida desistir. Investiguei meus sentimentos novamente, parei de novo, coloquei o disco para rolar outra vez... Afinal, como começar, o que escrever sobre a minha experiência – tão desimportante – no meio desse clima que a gente tá vivendo?


Não se pode dizer que foi um show pacífico – embora nada de grave tenha acontecido. Roger Waters, que, claro, manteve sua postura política, foi vaiado – e muito. Horas depois, o que já estava claro se confirmou nas urnas.  O cantor inglês e sua produção seguem às voltas com uma demanda da Justiça (?) brasileira. Para mim, ficou um gosto amargo na boca, junto com os sons e imagens incríveis e com a certeza de que a maioria não entendeu nada. Eles entenderam menos que uma garotinha assustada de 15 anos, três décadas atrás!!! A garota também seguiu a vida e se transformou em uma produtora e jornalista cultural – e jamais se afastou da música.  

Ainda que eu tenha vivido para ver Roger Waters e as canções do Pink Floyd serem vaiadas do meu lado, me sinto mais forte do que nunca – e isso tem a ver com o show que vi e com as canções que continuo a ouvir e que continuam a dar a certeza de que escolhi certo os meus caminhos! Vou continuar colocando Pink Floyd para rodar no toca discos, vou conhecer as novas canções de Roger e David Gilmour, reencontrar velhos amigos. E sei que não sou a única – nem mesmo em Curitiba!


Ah, sim, meu amigo é guitarrista e vocalista de uma ótima banda cover do Pink Floyd!!

1. Breathe
2. One of These Days
3. Time
4. Breathe (Reprise)
5. The Great Gig in the Sky
6. Welcome to the Machine
7. Déjà Vu
8. The Last Refugee
9. Picture That
10. Wish You Were Here
11. The Happiest Days of Our Lives
12. Another Brick in the Wall Part 2
13. Another Brick in the Wall Part 3
14. Dogs
15. Pigs (Three Different Ones)
16. Money
17. Us and Them
18. Smell The Roses
19. Brain Damage
20. Eclipse
21. The Bravery of Being Out of Range
22. Comfortably Numb


* Texto publicado originalmente no Scream Yell!

11/27/2018

Um Começo Outra Vez


 Um som começa a rolar em casa e me pergunto: que som é esse? Até que entra a guitarra... Ah, é Imof!! Sim, é Imof, mas a música é nova, pode-se dizer

Terceiro single do projeto Santos Marti Amatuzzi & Castel, "O Começo Outra Vez" ganhou um novo olhar do Martinuci, especialmente, que recriou a obra iniciada por Ivan, com participação de Luigi Castel e Igor Amatuzzi, ambos parças das antigas da De Inverno - Igor mais das antigas ainda, de bem antes de sequer pensarmos em algo como a  De Inverno.  Além de um dos primeiros parceiros do Ivan, foi um dos fundadores d’OAEOZ e tem uma penca de outras belas canções na bagagem.



SMA&C é um projeto que envolve gente com estrada na música.  Todos os envolvidos já criaram grandes canções e seguem contribuindo para alimentar essa via  paralela ao mainstream.


A primeira versão era mais simples, direta e visceral. Agora, mudou tudo – tanto que inicialmente nem reconheci. O baixão abrindo o som e só depois liberando a entrada do guita em riff, ficou muito show! Deu um corpo diferente para canção – corpão violão? Hahahaha. O jeito e a intenção ao cantar, os detalhes de uma bateria que agora combina criações de Igor e do Luigi e, claro, as tramas em cordas colocaram a canção em outro patamar de sofisticação. Pra mim, que gosto de um som cru, tanto quanto daqueles que combinam bem algumas firulas que tenham a ver, as duas versões interessantes.

Ele sabe que nada mais é o que parece

Se contenta com migalhas então esquece
Ele sabe que nada mais é o que parece
Se contenta com migalhas e então esquece
E no fim o começo outra vez te leva pro mesmo lugar
E fugir, se esconder não faz mal
Mas, também não vai adiantar
E no fim o começo outra vez
te leva pro mesmo lugar
E fugir, se esconder não faz mal
Mas também não vai te salvar.
Ele sonha com motivo pra ficar acordado
Se cansou de esperar o futuro
E viver do passado
E no fim... o começo outra vez te leva pro mesmo lugar
E fugir, se esconder é normal, mas também
Não vai te salvar

https://soundcloud.com/santosmartiamatuzzicastel/o-comeco-outra-vez


O SMA&C nasceu depois que o Imof terminou, mas não acabou nem com a vontade de fazer música. Martinuci é um perfeccionista. Se depender dele, a impressão que tenho, é que a música não acaba nunca. Isso tem um lado bom, quando a pessoa (como é o caso do Marti) tem um estofo e talento musical teórico também. A combinação do jeito do Ivan com o jeito do Martinuci deu bons frutos e estas três gravações lançadas até agora são o sinal mais bem acabado do potencial.  Os dois são compositores – imagino que isso dá uma cancha dos dois lados para entender certo melindres que poderiam acontecer quando alguém ‘mexe’ na música de outro alguém.  Observando daqui de perto, posso dizer que a química trouxe uma boa descoberta.  De um lado, tem a pegada visceral, espontânea  e de retratos instantâneos que o Ivan gosta de ‘captar’. Já o ouvi falando várias vezes sua teoria (que eu gosto) de que um disco é o registro de um momento: a banda era aquilo ali, com suas qualidades e defeitos. Por outro lado, trabalhar com Martinuci, pra mim é claro, trouxe um outro tipo de experiência musical para o Ivan. Outros tipos de experiências,  seria mais correto dizer. 
Longas, muitas vezes cansativas, tratativas sobre cada instrumento, gravações, mixagens, masterização que podem levar meses para finalizar uma única musica, com chances de provocar um cansaço natural com a vida, cobra um preço e, imagino, que surgem momentos de ‘não aguento mais ouvir isso. quero terminar”.  Por outro lado, tem o prazer, imagino também, de ver uma música sua ganhar outras nuances pelo olhar de alguém que viu outros caminhos possíveis. É muito legal essa troca e sei que o ele curte também. Ambos, curtem.  Outra coisa nessa experiência é dividir, efetivamente, a criação de todo o processo, algo que muitas vezes ficou nas mãos de uma pessoa só e agora se concretiza com mais trocas e compartilhamento de responsabilidades criativas...
É só ouvir as versões novas e notar nos detalhes das camadas instrumentais as diferenças, apreciar essa nova chance de ouvir uma canção que achei que já conhecia e que voltou a me surpreender. 



https://soundcloud.com/santosmartiamatuzzicastel/sem-acreditar

E, vamos falar de uma nova, mesmo, canção.  Essa eu só tinha ouvido com voz e violão.
Do Lado de Cá da Cidade é um texto incrível, e bastante antigo, do Mario Bortolotto. 



https://soundcloud.com/santosmartiamatuzzicastel/do-lado-de-ca-da-cidade

Nem sei quanto tempo faz que o Ivan vai e vem com essa canção.  Eu não via a hora dela, finalmente, ganhar vida diante de outros ouvidos. Faz muito tempo que ouço as tentativas no violão - e lembro muito bem das primeiras. Ele dedilhando e cantando baixinho, se batendo para encaixar o texto sem nenhuma mudança... e como parecia longo, texto e música, no começo.  Engraçado é que agora nem acho a música tão  longa assim... rsrs. Ela ficou simples e elegante. Eu curti esta sua primeira encarnação. Ainda quero ver em um show, mas isso já é outra história, porque o SMA&C nasceu como um projeto, sem intenção de ser uma banda com aquela rotina cansativa de produção.  É bem como diz o release: um grupo de amigos músicos que gosta de se encontrar para tocar e que sente, volta e meia, a necessidade de, também, registrar alguns momentos destes.  Estamos,  também na De Inverno, em outro momento da vida. Já não temos os mesmos objetivos, as mesmas vontades e tampouco a energia necessária para encarar as correrias de produções seguidas e de toda labuta que é pra uma banda estar no circuito. É apenas outra fase, com novas vontades.  O que o futuro reserva, só vivendo pra saber. Mas, de uma coisa estou certa: será um futuro com música e muitas divagações escritas!

10/10/2018

Dizem por aí

Dizem por aí que perdi meu tempo
e que é chegada a hora do acerto.
não me perco,
nem me entendo
continuo contando nos dedos, perambulando,
tentando esquecer que um dia fugi.
Dizem por aí que esgotei meu sonho
dormindo em cama erradas
que larguei, desmazelada, as mãos cortadas sobre coxas morenas
aberta, machucada, soltei um grito doído.
mas só no arrebentar do meu peito é que ele foi ouvido.



Agora eu vou tropeçar na vida
de cara jogada na grama
resvalar, cair na calçada brilhante de chuva



os laços ficam por um fio
fino fio de linha
pendurados
pesando esticados
os sentimentos somem na luz
da escuridão
lodo de sensações
controversias
chafurdam corações gelados
desesperados
despencados
em uma manha fria de inverno.



(você acha mesmo que gosto de ser assim?
sou assim porque não tem outro jeito
não consigo ser um outro, até nisso.
meus olhos chorarm quando querem
não me obedecem
 e alheios às minhas ordens
 transbordam quando bem entendem
se enchem de meus delírios
e escorrem
esparramam gotas salgadas que deixam marcas no canto das bochechas vermelhas.)

8/01/2018

Dez anos de "Falsas baladas e outras canções de estrada" - OAEOZ






Há dez anos o OAEOZ lançava seu “canto do cisne”, um box set com dois discos: “Falsas baladas e outras canções de estrada”, com oito faixas gravadas no estúdio do guitarrista Carlos Zubek; e o “Ao vivo na Grande Garagem que Grava”, com cinco músicas gravadas, como já diz o título, na Grande Garagem que Grava mantida pela Chefatura Records de Luiz Antonio Ferreira e Rodrigo Barros Del Rei, do Beijo AA Força.
“Falsas baladas” tinha Ivan Santos (violão, voz, teclados, guitarras), Carlos Zubek (violão, voz, guitarras), André Ramiro (guitarra), Rodrigo Montanari (baixo, voz) e Hamilton de Lócco (bateria). E assim como em outros discos, também incluía a participação de vários amigos e parceiros, como Igor Amatuzzi tocando trompete em “Negativa”, e Desiré Amarantes tocando violino em “Pra longe”. O design da capa foi feito por Giancarlo Rufatto a partir de ilustrações de Hamilton de Lócco.
As parcerias também estavam nas composições. “Distância” é uma música de Ivan Santos feita a partir da adaptação de textos de Adriane Perin e Rubens K. “Negativa” é um poema de José Fernando da Silva, musicado por Ivan.
“Falsas baladas...” foi lançado originalmente pelo selo Senhor F Virtual, do jornalista Fernando Rosa, que na época completava dez anos, atingindo 140 mil downloads. E na época, segundo o próprio selo, foi o segundo disco mais baixado. A versão física em CD teve apoio das Livrarias Curitiba e Tecnicópias.

Para comemorar, estamos disponibilizando o disco para ser ouvido/baixado no soundcloud. 

Abaixo, algumas impressões sobre o disco publicadas:


"Com 'Falsas Baladas...' o OAEOZ lança um disco que em nenhum momento parece fácil e gratuito, que para ser apreciado precisa ser tocado por vezes e mais vezes, mas que a partir do momento que você acredita nas canções, fica difícil não gostar."


"Com dez anos de estrada, o quinteto curitibano alcança a maturidade musical em um álbum que impressiona pela maneira que despe sentimentos, desejos e sonhos. "

Marcelo Costa, Scream Yell.


Folha de Londrina

Banda curitibana OAEOZ chega à maturidade sonora com novo álbum ‘Falsas Baladas e Outras Canções de Estrada’

Mesmo que em seus onze anos de existência a banda curitibana OAEOZ tenha zelado pela imagem de uma banda bastante adulta, é com o novo álbum ''Falsas Baladas e Outras Canções de Estrada'' que eles chegam, de fato, à maturidade sonora. Ao mesmo tempo em que as novas músicas estão mais ricas em arranjos, o grupo limou alguns excessos do passado, principalmente em relação aos vocais, que estão mais contidos (antes, quando o vocalista era mais expansivo, a melodia se perdia).
Nas oito canções do novo trabalho, o que se ouve é rock adulto, sofisticado, de músicas geralmente lentas, mas que também tem seus momentos agitados, com inspiração nos alternativos paulistas dos anos 80, como Ira! e Fellini. É música feita por gente normal, que você encontra pela rua diariamente, sem uma produção visual, seja no palco ou fora dele.
O confronto de músicas mostram uma banda versátil. Enquanto ''Ninguém Vai Dormir'' esbanja adrenalina rock'n'roll, ''Distância'' destaca-se como a mais introspectiva do disco. Em ''Negativa'' os arranjos são minimalistas, enquanto ''Impossibilidades'' é generosa em recursos e elementos. Esta última foi lançada como single no ano passado, assim como o folk rock auto-referente ''Uma canção Para OAEOZ''.
Este lançamento pode ser considerado de luxo, pois vem acompanhado de um outro CD, ''Ao Vivo Na Grande Garagem Que Grava'', acomodados em um elegante box de papel cartão. No disco ao vivo, a banda apresenta cinco faixas inéditas. E apesar da gravação ao vivo ser crua, em relação à de estúdio, as músicas mantêm uma alta dose de sofisticação.

Rodrigo Juste Duarte

“Guardadas as devidas proporções e diferenças musicais, as letras lembram uma outra banda de Curitiba, que também tem trabalho novo à mostra, falo da OAEOZ (www.myspace.com/oaeoz), mais veterana, com dez anos de estrada e cinco discos. As duas mostram esse “deslocamento”, essa falta de lugar em um mundo que atropela quem pára para pensar ou sentir. Esse ser é torto, tímido, “gauche”, como definiu Drummond. Vou dar um só exemplo, mas não quero que pensem que as bandas são parecidas, apenas coincidentes em certas palavras: “O fim que chega toda manhã/ quando você fica na cama dormindo sozinho”, diz a letra de “Distância”, de OAEOZ. “Todas as noites quase morro/ Para renascer cada manhã” é o início da música “Heróis”, da banda Nuvens”

Gazeta do Povo – Acordes Locais – Luiz Cláudio Oliveira


O ÁLBUM BRANCO D'OAEOZ

Dúvida! Não sei se a vida inspira os phatos ou é arte?
Teu disco me recorda a resenha do último disco da Legião que li na
Bizz, o disco era "Tempestade" e o crítico foi muito feliz no
prognóstico - acho que o papel da resenha é levar a ouvir o disco
Sonoramente teu ao vivo pega gancho no Banquete dos Mendigos no
próprio AEOZ e Pink Floyd. Melâncolico ou mórbido? Mas o título é
dúbio falsas baladas e outras canções de estrada - se vc trocar os
discos de capinha tanto faz...
Rock Adulto? Entonação oitentista (Zero) Ballet Bauhaus Novo Cinema
Alemão Rock Teatral e a maior homenagem a Nei Lisboa, o disco que ele fez com outro nome - Disco da noite/dia luz/ - o tema do sol é lindo como uma banda que me esqueço o nome agora - ramo do Bauhaus mas tem aquele outro cantor australiano que morou em São Paulo vivendo o filme das tuas palavras. "Meg & John" de Rubens K. é a minha história com outros nomes - incrível nunca tive tanta saudade dos anos 80. alguns
acordes do ao vivo também me fizeram imaginar como os "headbangers" podem ignorar teu disco, ou por quê nós somos privados da oportunidade de assistir a este show? Mas esta é a máxima da arte guardar p/
descobrir a esquizofrênia em "deserto" e é certo que o AEOZ trabalha
arduamente em suas músicas e linguagens e discos.
Dois lados um ao vivo e outro de estúdio, sabiamente via dowload - boa - bootleg ao inverso - fiquei meio desapontado quando vi que o
primeiro cd era queimado e o segundo ao vivo oficalmente presnado sem contato c/ o ar - e ouvindo entendi que era um disco de downloads coisa de fã - peguei o espírito!

(...)

tô curtindo muito o disco elétrico - conhecendo os ensaios e os
outtakes do álbum branco a gente enxerga uma similaridade até nas
coisas mais cruas - Mariana é uma música muito bonita e este
desprendimento dos arranjos da duração das faixas e ecos com Joy
division - Renato Russo - ainda não analisei o lado lírico - mas eu
gosto como vc dá as notas no vocal e o arranjo vai atrás - o
convencimento da forma - a guitarra é muito bem tocada, muito bem
dosado - minimal - os arranjos são mais sofisticados tem um piano
bonito - uma introdução diferente - parece produção da gravadora
Stilleto - por isso eu ACHO oitentista - pega o Varsóvia - pega as
nossas releituras de Rimbaud

INTRAUTERINO CAFONA SENTIMENTAL OTIMISTA ESPERANÇOSO APAIXONADO -
SOLITÁRIO - NOSTÁLGICO mas NUNCA OMISSO QUANTO ÀS RELAÇÕES É O TIPO DE
DISCO QUE A GENTE PROCURA OUVIR
Vc sabe, que eu não conheço muito de Você e o disco leva a essa
procura em saber quem é vc- então o disco é perfeito
a expresão do it yourself - explica tudinho era isso que eu queria
ouvir - apesar de eu usar bootleg com o mesmo significado.
Receber este disco já velu a pena recolocar o site no ar e é o que
estamos fazendo divulgando a música doprópriobolso.

Mário Pacheco

O texto de apresentação do jornalista Leonardo Vinhas:

Eu tinha 15 anos e sonhava em ser jornalista musical – depois que algumas aulas de contrabaixo me mostraram que eu teria “dificuldades técnicas” em seguir carreira até mesmo num “Ramones cover”. Era o começo dos anos 90, e cada descrição de um show na gringa ou mesmo na “longínqua” São Paulo (para quem morava no interior e só ia ao litoral com os pais...) valia para mim como a descrição de um épico, para dentro do qual eu era transposto graças à palavras que davam a dimensão do que eu havia perdido.
Acreditava, naquele momento, que o ofício de jornalista musical tinha a ver com saber dar aos leitores a medida exata do que eles haviam perdido, ou perdiam, não estando em determinado show, ou não escutando certo disco. E acreditava no poder transformador/catalisador/entorpecedor da música.
Hoje eu tenho o dobro dessa idade e, sendo justo comigo mesmo, continuo acreditando nesse poder da música. Mas não no jornalismo (e nem apenas no caso do musical). Cumpri meu objetivo, estive em shows, ouvi discos que ganhava de graça para resenhá-los, viajei e achei tudo isso muito frustrante e aborrecido. Conhecer os músicos era um comportamento típico da minha idealização adolescente, mas depois de certo tempo, achei melhor nem conhecer quem compunha uma canção que mexia comigo, da mesma maneira que é interessante que um fiel não conheça a vida íntima do pregador de sua fé. Os pequenos detalhes ganham demasiada importância e arruínam qualquer sonho.
A esse processo de transformação pessoal – que até aqui está restrito à música – soma-se o cinismo que parece ganhar força e tomar espaço, insidiosamente, conforme você vai abandonando a faixa dos vinte. Talvez seja uma característica de nossos tempos e nossa sociedade: começamos a trabalhar muito cedo, a dar a cara à tapa muito jovens, e a crise de meia-idade vem quando nos aproximamos do nosso suposto auge, que é a faixa dos 30 (pergunte ao seu médico, caso você já esteja freqüentando um). O fato é que quanto mais velhos, mais cínicos, e tudo parece tornar-se mais chato e menos empolgante, inclusive (e principalmente) os relacionamentos e a música. Minha geração está se sentindo velha e desesperançosa aos meros 30 anos, isso numa época em que a expectativa de vida supera os 70. Ou seja, não chegamos nem à metade de nossa existência, e já estamos rabugentos e entediados.
Aí calha que por uma série absurda de coincidências, por um ato de molecagem que parece inapropriado à sua “idade”, você faz uma viagem inesperada, cai numa cidade onde ninguém lhe conhece e você sai de lá com várias histórias para contar e até com alguns amigos. Levando ainda alguns discos debaixo do braço, passados pelos mesmos amigos.
Aí, de volta à sua casa, você escuta uma voz saindo de algum desses discos que confessa: “dizem que tenho talento para melancolia, qualquer tipo de fobia, que tenho pena de mim...” Como é que é? Eu acho que reconheço esse sentimento! Não passa muito, uma outra canção confessa que “a vida é fácil, eu é que sou complicado, sempre acabo me enroscando nesses dias tortos. A gente sempre quis ter uma vida simples, mas tudo é tão difícil quando se tenta fazer o que se quer”. Parece que todas as suas contradições adolescentes que ficaram disfarçadas sob camadas de cinismo adulto estão reveladas ali, na sua cara, prontas para ficarem reverberando até você não querer pensar mais nisso, simplesmente porque não consegue se encarar. Porém, esse mesmo disco traz uma canção sobre a estrada que, além de lhe lembrar que você nunca terá viajado o suficiente, lhe propõe que “o peso que carrego nos ombros é só bagagem”.
Foda.
Os anos passam, você passa a viajar para acompanhar aquela banda e vai vendo que, mesmo com a passagem do tempo e muitos meses de estrada, você continua cínico. Puxa, será que a música não te transformou? Será que aquilo que parecida redivivo em você foi só uma última fagulha de um brilho jovem que vai ficar permanentemente soterrado sobre essa carcaça de velho que você criou para si próprio? Live fast, die young, diziam anos atrás. Você não morreu jovem. E agora?
E agora chegam não um, mas dois discos novos dessa banda. Você nem estava esperando, mas eles chegam numa tarde rotineira, vento quente arrastando o tempo. Você tem que ir trabalhar, então coloca os discos no som do carro e nem percebe que, pela primeira vez em muito tempo, as idéias de “cinismo” e “idade” nem passam pela sua cabeça. Algumas palavras vêm lembrar que você não é mais um garoto mesmo, e daí? A esperança nunca foi privativa da juventude e, ademais, todos aqueles escritores de quem você gosta tanto, que ocupam a maior parte da sua surrada biblioteca, começaram a escrever suas melhores obras só depois dos 40. Quem é que estava preocupado com a data de nascimento mesmo?
Mas a queda do cinismo é que é mais interessante. Porque essa banda pode escrever canções a partir de uma conversa entre amigos na laje – uma canção sobre a conversa, aliás. Essa banda escreve uma canção sobre ela mesma, e a relação (não necessariamente idílica) entre seus integrantes. Caramba, essa banda escreve uma canção sobre a vontade que dá de parar com tudo e não se fazer mais o que se quer, talvez começar a fazer o que se “deve”, para evitar tantos aborrecimentos. Mas quem é que consegue viver assim? Com certeza, ninguém para quem a música importa algo conseguiria fazê-lo.
Você começa a andar com os discos na mochila (trinta e poucos anos, e ainda sai de mochila por aí?) e começa a ouvi-los quando dá tempo. Ninguém – seus “colegas” de trabalho, conhecidos, parentes – entende porque você escuta essas canções sem refrão, sem distorções óbvias ou ganchinhos saltitantes. Mas tudo bem. Eles passam suas noites de seu modo ordinário, enquanto o disco lhe recorda que “ninguém vai dormir” enquanto tivermos vontade de fazer algo mais substancial. Mesmo que estejamos de olhos fechados.
É quando você abre os olhos e vê que você mesmo está sorrindo. Sem cinismo.

Leonardo Vinhas