7/02/2015

Rock de Inverno - 15 anos



É muito legal voltar a ouvir uma canção e reviver tudo – ou o que a memória permite! Não raras vezes essas canções cantam também os pedaços da vida de quem a ouve. Comigo é assim, quase sempre. Uma canção antiga é capaz de trazer cenas, lembranças, pessoas, pendengas, empreitadas boas, amigos, amigas, amores...

Por isso, mais uma vez bastou ouvir os primeiros acordes de Filme, do Cores d Flores para que meu ser inteirinho reagisse. Quando entrou “De Inverno”, d’OAEOZ, me toquei que estava ouvindo a coletânea Rock de Inverno – Mostra da Nova Música Independente de Curitiba. OAEOZ do tempo do Igor... aquele menino que um dia o Daniel levou lá em casa e que se transformou no parceiro musical primeiro do Ivan, que o apresentou ao Rubens... enfim. (eu avisei que é só ouvir que as histórias vão voltando).

Há 15 anos, nos dias 8, 9 e 10 de junho de 2000, no Circus Bar, acontecia a primeira edição do nosso primeiro grande desafio, o  Rock de Inverno – Mostra da Nova Música Independente de Curitiba , com os shows começando “impreterivelmente às 23h”.  rsrsrs. uma ‘briga’ nossa desde sempre esse negócio de horário de shows!







No palco,  Faus (banda do Coelio), Plêiade (‘retornando’), Zigurate, Loaded, OAEOZ (que acabou tocando na sexta), Cores d Flores, Madeixas, Quisto (depois Loxoscelle) e Zeitgeist co. Na plateia, muita gente, entre os quais, Carlota Cafieiro, jornalista do Correio do Povo, de Campinas, repórter do Alexandre Matias; e ele, o figuraça, uma atração à parte, o  músico e, na época, jornalista da Bizz, que acabou escrevendo sobre o festival para o Estadão: Minho K!






Na produção eu e Ivan, com  Mackoy ajudando no som, Marcelo Borges nas imagens e meus pais recebendo os jornalistas convidados, levando os dois para almoçar, enfim, fazendo as honras da casa enquanto eu e Ivan estamos nos respectivos jornais em que trabalhávamos (Gazeta do Povo e Jornal do Estado).  Lembro bem da ansiedade!!








A De Inverno nascia ali, antes mesmo de ter ciência disso. Nossa vontade era muito simples: mostrar para o Brasil essa nova geração da música curitibana, pós “Seattle brasileira”,  nascida em meados dos anos 90 em diante com canções em bom português. Mais ou menos na mesma época o Ivan preparou um kit sobre essas e muitas outras bandas da época e enviamos para jornalistas-chave. A gente não tinha dúvida da qualidade dessa nova safra e sabia que, se queríamos que o resto do mundo soubesse, alguém tinha que fazer alguma coisa. Uma das ações – além de organizar um festival bacana, com estrutura bacana, pensando nos artistas e na qualidade do equipamento de som – foi convidar jornalistas de veículos importantes para virem cobrir - leia-se bancar todos os custos da viagem e estadia.  Outra estratégia era ter bandas de outras cidades, também das novas cenas, para assim completar nossa proposta de “inserir essa nova geração curitibana na nova cena nacional”, o que fizemos a partir da terceira edição.

Material gráfico bonito assinado pelo Camarão e Alexandre Striq e um press kit que, além dos tradicionais releases e fotos, também tinha uma coletânea com uma música de cada banda, uma marca do Rock de Inverno, que deu início ao acervo do Selo.

Lá fui eu toda confiante como projeto na mão caprichado bater na porta de algumas empresas. Lembro muito da Cini, acho que foi para quem mais liguei.  Em uma tarde, lembro até o telefone público  (hoje inexistente, claro) do qual falei com o Ivan, à beira das lágrimas porque não me conformava: “como as pessoas podem não querer apoiar um projeto legal como este?”. É, eu achava tão improvável isso na época. Sonhadora, iludida! Hahahaha. Enfim, não rolou apoio e fizemos com nossos salários mesmo!  Pois é, vale sim ser sonhadora e iludida, às vezes!

A casa cheia nas três noites foi algo incrível.  Ao tentar voltar pra frente do palco no show da Plêiade uns engraçadinhos quiseram não me deixar passar... tá bom! Claro que eu ri e disse que era para ele me agradecer ao invés de me barrar e fui para o meu lugar preferido!

De outras cenas que não esqueço Minho K é a estrela.  Ele e seu indefectível chapéu. Lá pelas tantas, em algum dia, estava o jornalista estirado no chão, curtindo o som. Completamente tomado pelos sons das bandas que tanto curtíamos também!  Foi sem palavras, porque além de jornalista ele tocara em uma banda que eu e Ivan curtíamos há anos, embora pouco conhecida. Um disco que eu lembro do instante em que peguei nas mãos, com sua capa de vinil linda e suas canções incríveis. No final, eu e Ivan cantávamos canções do 3 Hombres, cada um de um lado do Minho K. E ele lá, sem acreditar naqueles dois doidos chorando de alegria e não acreditando ainda no que tínhamos feito.

Vendo hoje,  ainda que tivéssemos feito uma única edição do Rock de Inverno, aqueles três dias já teriam tornado tudo mais especial. Mas, não paramos. Veio o segundo, terceiro ( no 92, com 22 jornalistas convidados, entre os quais MTV, Folha, Estadão, Alto Falante), quarto, quinto (com a atração internacional, Transcargo), sexto e o sétimo (que trouxe Fellini e fez nossos amigos, marmanjos chorarem por aquele momento).

Entre erros e acertos, gosto da nossa história, tenho orgulho dela e ela me dá muito alegria ainda hoje.

E aqui, pra relembrar e reviver, o link com a coletânea Rock de Inverno - Mostra da Nova Mùsica Independente de Curitiba.

http://deinvernorecords.bandcamp.com/album/rock-de-inverno-2000




6/16/2015

"Triste dos que procuram dentro de si respostas porque lá só há espera"


Semana passada, depois de muito tempo, andei bastante de ônibus e o melhor de não estar dirigindo, além de olhar a vida passando na janela, é conseguir ouvir música de verdade. O velho mp3 de guerra estava ao alcance com algumas antigas canções. Não pretendia ouvir apenas uma banda, mas não consegui tirar Blanched Toca Angelopoulos, um disco que continua, dez anos depois, me remexendo de um jeito muito impressionante. Escrevi em vários momentos sobre o quinteto de Novo Hamburgo (RGS),  formado por Marcelo Koch (bateria), Priscila Wachs (flauta transversa), Leonardo Fleck (guitarra/voz/baixo), Douglas Dickel (guitarra/acordeon/baixo/voz) e Daniel Galera (baixo/guitarra), em jornal e no blog. Relendo agora, é evidente o impacto da banda em mim.

A banda acabou já faz um tempo, mas, já sabemos, as boas canções não acabam e sempre podemos voltar a elas e encontrar novas sensações ao lado daquelas que ficaram por ali. Coloquei o disco no começo de novo, e de novo. e de novo. 
"Triste dos que procuram dentro de si respostas porque lá só há espera". A frase não sai de perto. Seus significados ficam inquietando. E, claro, com ela as lembranças do momentos legais e dos não tão legais, também. Eles foram convidados da programação do Rock de Inverno, mas acabaram tocando mesmo na cidade, depois, em um evento da FCC, numa época em que vivíamos de novo (ou acreditamos que vivíamos) a efervescência do início dos anos 90, com vários festivais e eventos focados na música autoral independente acontecendo, com apoio público direto - não atráves das Leis.

Me dei conta de que este disco completou uma década ano passado. E me dei conta, outra vez, que este é um dos discos que mais gosto, mas ouvi-lo, não é para qualquer dia.
Alguns links bons para ouvir e para ler sobre a Blanched, uma banda especial, que me marcou pra sempre.

http://casablanched.blogspot.com.br/
http://www.lastfm.com.br/music/Blanched


"Não é fácil 'resenhar' um disco como o novo EP da gaúcha Blanched. Suas qualidades são do tipo muito pessoais, passionais mesmo, cujo resultado é capaz de despertar sentimentos nunca intermediários: ou se gosta muito, ou se detesta. O quinteto, de Novo Hamburgo, vem trilhando um caminho absolutamente avesso ao que se conhece como rock gaúcho. Climas instrumentais pesados e uso mínimo de palavras cada vez mais tomam conta do som da banda, transformando sentimentos intensos em tramas instrumentais. No disco anterior, as dores de uma história começaram a ser tratadas. Em Blanched Toca Angelopoulos, as feridas não fecharam. Tem a ver com isso a sinceridade e a verdade, torturantes até, das cinco faixas cheias de uma delicada e dolorida beleza, expostas em arranjos minimalistas que se agarram ao máximo nas mais simples notas. O trabalho abre com 'Tristes dos que procuram dentro de si respostas porque lá só há espera', uma porretada cheia de climas quebrados, guitarras limpas e 'noiadas' que parecem escavar fundo nas mais incômodas, contraditórias e doídas sensações humanas. Aqui não existe paz, a missão é remexer. 'Cada um' soa mais suave, com sua flauta serena e a torrente de palavras no fundo, que provocam um efeito de entorpecimento para depois estourar em novo noise. 'Hoje eu tou melhor', 'Um palhaço no campo de concentração' e 'Casa de descanso' completam o disco, mantendo a mistura de delicadeza, dor e beleza. Mas, como é um disco do Blanched, só podia acabar assim: numa catarse de barulho bom que provoca o entorpecimento da embriaguez, um transe que faz a cabeça girar e o ouvinte engolir em seco o silêncio que fica reverberando o barulho quando a música acaba." (Adriane Perin, jornal Gazeta do Povo, PR)


"A Thiane comentou que ficou arrasada com o CD da Blanched e me deu vontade de dizer mais uma coisa sobre este disco e sobre outros sons nessa linha. As pessoas comentam que é triste, e é. Mas o que provocam em mim não é de jeito nenhum a tristeza da depressão, a tristeza que dá vontade de se trancar num buraco e não olhar mais o dia. Eu não sei explicar direito o que Blanched provoca em mim, mas, com certeza, não é puxar para baixo, nunca. Me alimentam, estes sons. Me dão vontade de fazer mais e mais coisas legais. Me dão vontade viver de um jeito muito vivo. Me mostram que se eu não fizer, vai ficar sem fazer. Não me empurram para a imobilidade nostálgica de uma saudade de algo que não tenho. Ao contrário. Parece que me trazem forças para encarar outro dia, de trabalho, de existência, para correr atrás de patrocínio para o Rock De Inverno, de fazer um jornalismo minimamente decente. Porque é, também, para essas pessoas que eu faço jornalismo, o Rock De Inverno, a De Inverno. Me parece que tem alguma relação com o que sinto com o frio. Estava pensando nisso hoje, indo, caminhando às 8 da manhã para o trabalho, ouvindo Blanched e OAEOZ, no fone. O frio, que todos ao meu redor detestam, me faz sentir mais viva. Quando ele bate no meu rosto, cortando, gelado, de alguma maneira me desperta, me alerta que não tem outro jeito de viver o dia, senão com muita, muita intensidade. Como se não tivesse mais nenhuma alternativa, mesmo. E não há, para mim, não há. Eu sinto coisas gritando tão alto dentro de mim." (Adriane Perin, jornalista e produtora, PR)




"Ouvi ontem à noite o novo EP da Blanched, Blanched Toca Angelopoulos. Estou meio zonza até agora, quando começo a ouvi-lo novamente, pela segunda vez, de manhã, 9 horas, para começar mais um dia de trabalho. Fui dormir pensando nas melodias. Acordei pensando em ouvir o disco novamente. É gostar de uma banda de um jeito que não é só o mero gostar, por gostar. É ser pego de jeito por sons que desmontam mesmo. E aí, depois, do primeiro disco que derrubou, vem o outro. Quando ouvi a primeira faixa, ontem à noite, não lembrei dela do show que vi no Motorrad. Quando ouvi hoje, lembrei claramente que, mesmo não entendendo direito as palavras, naquela noite de um final de semana tão longo e cheio de alegrias especiais e extremamente doloridas. A canção me acertou em cheio. E agora, pela manhã, voltou todo o impacto entorpecente daquela primeira audição. Me vejo de boca aberta, balançando o corpo, olhos fechados naquela escuridão de fumaça. Eu estou até meio que sem saber o que dizer sobre este disco, lindo, triste, carregado, minimalista que deixou quase totalmente de lado as palavras, que é algo que sempre me pega. Na segunda música, 'Cada Um', aquela flauta me lembrou logo de cara Mercury Rev. E a voz que fica no fundo falando e falando. É um disco que exige silêncio, para o levar por um escuro do quarto, mas que traz sensaçães tão boas, também vontades tão boas, tão quentes, de abraçar, de beijar, de chorar, de dizer coisas que estavam para serem ditas fazia tempo. As melhores coisas são ditas no silêncio. No silêncio de um quarto, sem uma palavra, quando as respiraçôes ficam ansiosas. No silêncio de um walkman que leva para longe o que não se quer ouvir e deixa só o que escolhemos para uma manhã nublada - mas não tão fria quanto se pensou que seria. Os climas. O que mais dizer da Blanched? Os climas que eles criam esticando as notas ao máximo e que, parece, nos esticam junto. Essa guitarra que parece colocar uma furadeira dentro da minha cabeça. Outra rasteira. O olhar perdido em algum ponto que ninguém sabe onde está. Eu continuo não sabendo direito o que dizer. Mas sou impulsionada a ouvi-lo e ouvi-lo, como que para conseguir sacar algo que está lá e não consegui pegar ainda. Mas, que está me olhando... E parece que sempre tem mais lá de onde veio isso. Até onde Leonardo, Marcelo, Douglas, Priscila e Daniel irão? Porque eu quero ir junto. Agora não tem mais volta: saiu o novo disco do Blanched. E são estranhas as sensações que ele provoca. Ou não. Na verdade não são nada estranhas. Elas só nos remexem as entranhas. E deixam a gente assim. Aquietadas e exultantes ao mesmo tempo. Hoje eu to melhor, pode saber. E, aí, vem a última faixa. Com palavras, várias palavras. Tão afiadas quanto os climas instrumentais. Só o violão do começo já valeria a música, mas tem mais, muito mais. Depois de cantar 'calma, que essa dor logo passa, essa dor...', eles voltam com seus pensamentos. 'Quando eu voltar, espero deixar mais longe, tão longe, a dor que não me deixa esquecer que este cansaço é sem alívio. Quando eu voltar espero aceitar a tristeza, na crueza da certeza de que os melhores momentos são em silêncio. Quando eu voltar, espero encontrar-te mais forte, mais livre, consciente de que o amor morreu doente.' Difícil continuar aqui depois disso. É isso, são essas sensações, que fazem valer tudo." (Adriane Perin, jornalista e produtora, PR)


Muito legal também foi conhecer os caras e constatar que as afinidades eram tantas. Encontrar, anos depois, as filipetas em cujo verso eles deixaram seu carinho impresso também é muito legal. Nós conhecemos a banda pessoalmente por conta do disco anterior, Ter Estado Aqui,  repertório pelo qual os convidamos para tocar no Rock de Inverno  4, em 2003. O show deles não rolou como gostaríamos, mas a passagem por Curitiba abriu outras portas e, com alegria, os vimos tocar no Memorial de Curitiba.  


6/09/2015

Unknown Pleasures: tocando a distância



Se tem um adjetivo que jamais pensei em relacionar ao nome Ian Curtis foi o de mentiroso. Não, claro que não acho que ele foi um mentiroso. Mas lendo as duas biografias que falam dele, a de Deborah Curtis, "Ian Curtis & Joy Division - Tocando a distância" e a do Joy Division, assinada por Peter Hook, "Unknown Pleasures", me vi diante dessa constatação. O companheiro de banda deixa claro que Ian Curtis escondeu a gravidade de sua doença. Ian também escondeu de sua vida ‘artística’ a mulher, a gravidez e até o nascimento da filha, e tentou esconder sua amante Annik, da mulher e da vida familiar. Mentiu em alguns momentos; e não falou tudo na maioria das vezes. Atormentou-se entre tantos “Ians” todo o tempo, dividido entre as vidas nas quais foi amarrando sua existência. Pra que a banda não parasse por conta da epilepsia, amenizou a gravidade de sua doença, e quando voltava pra casa tinha a esposa Deborah pra tentar recolocar as coisas no eixo. Agora, o que dizer de um rapaz talentoso como ele, no auge da juventude, que tem uma postura machista em casa e que jamais “consuma o ato” com a amante? Peter Hook é claríssimo sobre o assunto em pelo menos duas passagens das 298 páginas lidas até agora. Por conta dos remédios, o sexo, ao que tudo indica, na época em que ele conheceu a belga Annik Honoré e conviveu com ela, não era algo possível. Annik cuidava dele nas viagens e shows. Os ‘muitos Ians’ que ele tinha que administrar eram um tormento que só se dissipava quando estava livre, leve e solto com a banda, em especial no palco.

Nas linhas de Deborah, o tom é sério, pesado, triste e, mais ainda do que magoada, ela demonstra não conseguir entender as razões de Ian. Em Peter, o clima é leve na maior parte do tempo, ácido, cínico, bem humorado e, portanto, muito divertido, engraçado mesmo em algumas passagens. Tem sinceridade nos dois, é evidente, porque é muito diferente ler o livro feito por um biógrafo que esmiúça a vida de alguém e outro escrito por quem viveu, sentiu tudo que conta. Peter fala do talento de Ian, de como a química entre eles e o produtor Martin Hannet levou a discos clássicos. Reconhece erros e faz confissões, xinga uns fdp de bandas, conta as sacanagens – algumas adolescentes e perigosas –, ‘entrega’ os colegas e se entrega também.

Deborah conta sobre o Ian adolescente, garoto certinho, ciumento e possessivo no limite, e incapaz de tomar decisões importantes pra sua vida, em especial as que poderiam ‘manchar’ sua imagem diante da família dela. Tanto que as famílias não tinham ideia da vida complicada que a deles juntos foi se tornando. Me parece que pra mulher de Ian houve a necessidade de contar ao mundo sobre um lado doce, meigo, carinhoso e gentil da história deles. E também o lado agressivo e a relação tempestuosa. (No livro dela e no filme Control tem uma cena que acho muito foda, quando ele confirma, singelamente, que não a ama mais, quando ela tenta outra vez saber o que se passava).
Peter procura ser justo com as duas mulheres e Ian, e reconhece que eles não tinham ideia de muito do que acontecia na vida privada de Ian.

Grosseiramente falando, Deborah mostra o Ian ‘dentro de casa’, e Peter o Ian ‘fora de casa’. E juntos mostram como ao longo de poucos anos ‘esses caras’ vão se transmutando na persona Ian Curtis que se tornou o mito.

Enfim, cenas de uma vida, de pessoas que não são perfeitas, que se atropelam entre erros e acertos e que são atropeladas também pelos acontecimentos e sentimentos. No centro de tudo, a música, que no final foi o que ficou e o que mais importa.

Saio dessas duas leituras com uma imagem um pouco mais completa sobre Ian Curtis. Com histórias de uma turma que virou a música mundial, sobre como alguns caras acreditaram e seguiram em frente. Histórias de como o produtor adorava o fato dos Joys não discutirem com ele, porque “não sabiam absolutamente nada”. As várias tentativas para achar “o” baterista.
Histórias saborosas como de onde Hook ‘tirou’ o som do baixo – desde o instrumento desafinado que soava melhor nas notas altas ou de quando surgiu o afinador, libertando o baixista do mico de ver seu guitarrista tendo que afinar o instrumento no meio de shows, inclusive. Momentos tensos – que agora soam divertidos – como Steve e Peter terem sido suspeitos de ser o estripador de Yorkshire, por conta do roteiro de shows que passou pelos lugares dos assassinatos na época em que aconteceram. “Tocamos nesses lugares porque é nesses lugares que bandas punk costumam tocar”, explicou o baixista. Ou a gravação de um disco de 12 polegadas em um de 7’ e o mico de ter que vender ‘aquilo’ do mesmo jeito porque precisavam de dinheiro.


Mais uma vez, é a história de uma turma de garotos que meio sem saber, meio sabendo, sem querer mas querendo muito, seguiu apostando tudo. Encontrando prazeres desconhecidos e vivendo seus dias juntos, que seriam curtos.

6/03/2015

Cláudio Pimentel e os Misantropos, Plêiade e "a monotonia dos dias sem surpresa"



Conheci o Claudio Pimentel primeiro como vocalista, letrista da Plêiade, depois como vendedor da 801 Discos e na sequência  como dono e balconista do Korova.

Com a Plêiade, ele lançou um dos melhores e mais bem acabados registros do rock feito em Curitiba - "A Descoberta", de 1998 - que tinha na banda também o piano de Marcelo Torrone em uma das mais belas canções já feitas por uma banda curitibana, na minha modesta opinão - "Orações".

Conhecemos a Plêiade antes disso, no início dos anos 90, e logo chamou a atenção o fato de que junto com Relespública e Acrilírico - era das poucas bandas da época que arriscava cantar no idioma pátrio - em uma cena em que a maioria das bandas havia adotado o inglês. E a banda já se destacava pelas letras de Claudião - claramente inspiradas em literatura beat, poesia, cinema - e pela interpretação rasgada dele no palco, em contraste com a atitude ensimesmada do shoegaze-grunge que predominava no underground de então.

A 801 é um capítulo a parte nessa história. mais do que uma loja de discos, se tornou um verdadeiro ponto de encontro do underground curitibano da época e de certa forma um "centro cultural". Lá por exemplo, acompanhei a gravação dos primeiros "Ciclojans" - que começou como segmento do programa Caleidoscópio na rádio Educativa e depois migrou para a televisão pelas mãos de Cyro Ridal. Lembro especialmente da gravação com o pessoal do The Charts (SP), com quem a gente ainda fez uma jam histórica no apto em que moravamos no edifício Tijucas, centrão de Curitiba.

Na 801 era muito legal a relação da gente com os "vendedores" - além do Claudião, o Torrone e o Horácio. Cansei de comprar discos lá no escuro, sem ter a mínima ideia do que tava levando confiando nas dicas, na sensibilidade e no bom gosto dos caras, porque parecia que eles interpretavam o que a gente ia gostar, e quase que invariavelmente acertavam na mosca. foi lá que comprei meus primeiros discos do Tindersticks, Morphine, Mojave 3 e uma pá de coisa que ouço e está nos meus preferidos desde então até hoje e pra sempre.

E ele ainda teve o Korova, saudoso bar lendário do underground curitibano do final dos anos 90, começo dos 2000, onde toquei muito com o OAEOZ, fiz e vi muitos shows memoráveis, como  a Íris.

E agora o Claudião está de volta com Cláudio Pimentel e os Misantropos - "Psiconáutica". E o cara já começa o disco com um direto no fígado: "estou ficando antigo/apegado ao farrapo/agarrado ao obsoleto/acomodado ao usual" (Névoa).



E depois emenda com um cruzado no queixo: "é que hoje você só me faz lembrar a monotonia dos dias sem surpresa/enquanto sentamos mudos lado a lado".



E ainda tem uma gravação de "A árvore" - música que ele tocou com a Plêiade no primeiro Rock De Inverno, em 2000, no Circus - em interpretação que está imortalizada no vídeo documentário do festival feito pelo Marcelo Borges.



Ouvindo esse disco eu me sinto feliz por ver um cara como o Claudião continuar produzindo música de tanta qualidade, independente de modinhas ou expectativas, do chororô e blá blá blá inútil de cena. Simplesmente fazendo o som dele - belas canções, bem feitas, com um texto de alto nível e bom gosto extremo em timbres e climas. Música de gente grande, que não deve nada pra ninguém e nem está em busca de aprovação ou hype. Simplesmente existe e é o que é. E pelo menos pra mim, é bom pra caramba! Porque é música de verdade feita por gente de verdade. Que faz a inexorável passagem do tempo na nossa vida parecer fazer mais sentido, mesmo que isso seja uma ilusão.

Parabéns Claudião - Você conseguiu de novo cara!

5/28/2015

Dez anos de “Às vezes céu” – OAEOZ



Há dez anos, o OAEOZ lançava “Às vezes céu”, terceiro disco da banda, formada na época por Ivan Santos (voz, violão, teclados, gaita), Rodrigo Montanari (baixo), Hamilton de Lócco (bateria), Carlos Zubek (guitarra) e André Ramiro (guitarra).

O disco foi gravado em oito sessões que totalizaram 25 horas, no estúdio Nico´s, entre os dias 29 de fevereiro e 10 de agosto de 2004. Ao todo foram gravadas treze faixas, sendo que doze delas acabaram no CD – nosso primeiro e único prensado em fábrica. A produção musical foi de Ivan Santos e Igor Ribeiro (que também ficou responsável pela mixagem). A produção executiva foi de Adriane Perin. Vinícius Augusto foi o técnico de gravação e Marco MacCoy (Cores D Flores) o assistente. 


Igor também tocou trumpete na faixa “3h30” – adaptação de um texto do dramaturgo Sam Sheppard. A canção “Dizem” - música minha com letra de Rubens K - contou com vocais de Edith de Camargo (Wandula) e o violoncelo de Samuel Pessati. O arranjo de cordas foi escrito por Rodrigo Lemos (Poléxia/Lemoskine). A Patrícia de Souza, mulher do Carlão, fez backing em “Dias tortos”. E o côro final de “Meia-volta” reuniu além do pessoal da banda, da Adri, e da Patrícia uma série de amigos – Rubens K, Mariele Loyola, Marco MacCoy, Luciana Raitani, e Ana Rica Clivati. Esse côro foi gravado na casa do Igor Ribeiro – que fez também a mixagem – e onde rolaram algumas gravações adicionais.


As gravações do disco têm alguns detalhes interessantes. Em “Mar dividido”, a Adri e a Patricía “tocaram” duas “healthy balls” presenteadas a nós pelo casal Thiane e Rafael Martins, da banda Deus e o Diabo (RS). São bolas de metal usadas pelos chineses pra exercícios de meditação e que quando movimentadas fazem um som como se fossem de sinos tocando. Rafael, aliás, escreveu um texto em forma de carta que foi incluído no press-kit do disco.

Já em “Horizontes”, na introdução a gente fez uma brincadeira que era simular o início da música como se alguém entrasse em um carro no meio da chuva e ligasse o rádio. Antes de tocar um trechinho da música, esse “personagem” passeia pelo dial, e entre outras coisas, ouve um trecho de uma gravação do escritor Charlie Bukowski lendo um poema dele.



A foto da capa é uma imagem do Pico Paraná feita pelo André Ramiro – nosso montanhista honorário.




O show de lançamento aconteceu no Teatro Paiol, no dia 28 de maio de 2005. E também teve uma série de participações mais do que especiais. Assim como no disco, a Edith cantou comigo “Dizem”, que contou com violino e violoncelo e o Igor tocou trumpete em “3h30”. E o “final apoteótico” com “Lembranças não valem nada” teve Adri, Lu Raitani e Marcos Linari (La Carne) nos backings. A Lu também cuidou da iluminação. E o Luigi Castel do som – ele me contou recentemente que foi a primeira vez que ele fez som no Paiol. Abaixo as incríveis fotos feitas por nossa amiga Iaskara Florenzano
























Enfim, escrevendo isso e lembrando de todos esses detalhes agora eu percebo como esse disco foi um trabalho coletivo, um “fotograma” musical de uma época e uma turma de amigos que fez tudo isso pelo simples prazer de fazer algo que gosta, sem qualquer outra pretensão. E por mais que isso não tenha importância pra mais ninguém, é muito importante pra mim, porque é o retrato de um pedaço da minha, e da nossa vida, que ficou marcado e que está impresso e gravado em “Às vezes céu”. 

São músicas que falam sobre sentimentos de inadequação e desajustamento. Uma certa vertigem de um mundo que gira e te tira o chão. Um não à idealização do passado – um tempo e um lugar que só existe na nossa cabeça. Um sim a viver a cada dia o seu dia e o futuro agora. Uma trilha musical para a autoconsciência. A dúvida como motor para a descoberta. O desafio de encarar a rotina, “o esmagamento contínuo dos sonhos”. “No future” - estamos vivos e isso é tudo. “Não sinto medo”.

Hoje, reunindo todo esse material e escrevendo esse texto, e percebendo quanta gente querida, amiga e talentosa estava envolvida na produção desse disco e desse show, percebo que ele já não é mais meu ou da banda, mas é de todos nós, que estávamos lá. Uma celebração da vida, da música, da generosidade e da amizade. Me sinto muito feliz por ter feito parte disso. 

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Aproveitando essa celebração, a gente disponibiliza alguns itens inéditos e ou raros ligados ao “Ás vezes céu”.

Abaixo você pode conferir uma música gravada nas mesmas sessões que acabou não entrando no disco. Ela nem chegou a ser totalmente finalizada, e nem nome oficial tinha. Apelidei-a de “Você aqui assim”:



Aqui, a primeira gravação da faixa de abertura, “Lembranças não valem nada”, em registro feito provavelmente no final de 2003, no estúdio Tó, de e por Norberto Pie, que nunca chegou a ser lançada oficialmente:



Aqui, um vídeo feito por Marcelo Borges para a faixa de abertura. Como sempre, ele fez tudo sozinho, lá de Londres, por conta e risco, sem participação da banda. rs



Outra curiosidade que eu só descobri recentemente. "Às vezes céu" virou trilha de cinema. A canção "Vôo baixo" foi usada no filme "Curitiba Zero Grau", como pode ser conferido a partir de 34'46'' no vídeo abaixo:



Esse disco levou o OAEOZ a tocar em São Paulo – dois shows no mesmo dia 5 de abril de 2005, no Centro Cultural de SP e no club OUTS -; Porto Alegre, Londrina, União da Vitória.

Mesmo dez anos depois é difícil pra mim falar dele com distanciamento. Então prefiro deixar aqui algumas críticas que saíram na época, e que expressam melhor do eu poderia dizer.

“Às Vezes Céu, dito primeiro álbum do OAEOZ, é um desses casos raros de belas flores que nascem no asfalto, aumentando a fé e renovando a esperança em novas flores.”

“Afastada dos modismos, OAEOZ aposta em canções maduras e verdadeiras”

"Às vezes céu" é a estrada aberta ou o sinal do trem mudou. (...) Este discocedê é recomendado a quem gosta de desafios. Sua curiosa sonoridade contida que realça a voz me lembra que o jazz irrita ao ouvinte menos afeito justamente por costurar linhas tortas e não de canduras psicodélicas. Se eu sobreviver amanhã, arrumo coragem para ouvir o disco no escuro. Um fino solo de guitarra me devolve a alegria neste instante..." - Mário Pacheco – site dopropiobolso

“E é nessas falhas (como a voz oscilante de Ivan Santos), abertas entre rasgos musicais de almas lavadas e sentimentos contraditórios, que reside o poder arrebatador desse álbum. Um disco bonito demais, bonito como sua capa, bonito como os erros de quem acredita em alguma coisa além de si próprio mas não cai em respostas fanáticas fáceis." - Leonardo Vinhas – site Gordurama

Se na vida, no dia-a-dia, é bom buscar um caminho do meio, como nos ensinou Buda, este conselho, definitivamente, não é bom para a arte, que vive e avança quando se arrisca, quando transgride, enlouquece e nos mostra, inclusive, as imperfeições. Esse é um prêmio conquistado por OAEOZ com o sacrifício pessoal de seus integrantes e também de quem os auxiliou nesta empreitada. Eles fizeram arte fugindo da mediocridade. Se eu fosse Nick Hornby, já colocaria este trabalho na lista dos melhores discos do ano, independentes ou não e de qualquer região do planeta - Luiz Claudio Oliveira – site TudoParaná

"A beleza deste trabalho não se limita às melodias e composições, a parte gráfica feita em dig-pack com uma maravilhosa foto do pico do Paraná feita por André Ramiro dá o tema: contrastando o tom escuro das montanhas com o azul do céu e todo o material destinado a divulgação feito em azul remete à tranqüilidade da alma contrastada com a densidade montanhosa da vida!" - Wellington Dias – site Gramophone  

Aqui, Leonardo Vinhas escreve para o Scream Yell sobre o show no OUTS:

Leo Vinhas, aliás, jornalista de Taubaté que conheci primeiro lendo seus textos no Scream Yell e depois nos foi apresentado pessoalmente pelo parceiro Rubens K foi umas amizades que a gente acabou fazendo a partir da música. Foi ela que nos aproximou – no que eu sou muito grato, pois se trata de um cara com grande sensibilidade e talento. Por isso, não poderia ter pessoa melhor pra escrever sobre os dez anos de “Às vezes céu”, como você pode conferir no texto abaixo.

'“Às Vezes, Céu” me ajudou a ser quem eu sou hoje'


















Dez anos atrás, ouvi alguém me dizer, bem alto e na cara, que “lembranças não  valem nada”. Com um atraso de uns tantos bons anos, eu estava começando a sair da meninice para (tentar) virar adulto, e por uma série de acontecimentos espiralados demais para relatar aqui, acabei indo parar em Curitiba, onde tomei esse e outros tapas na cara. Era janeiro de 2005.

Agora é maio de 2015. Alguns planos daquela época deram certo, outros nem passaram perto disso, mas o disco continua ali. Música tem disso: você vai embora e ela fica, e no seu formato físico ela é praticamente uma fotografia: do artista que a gravou e da pessoa que você era quando a escutou.

Não dá para falar do que é “Às Vezes, Céu” hoje sem eu falar sobre o que sobrou de mim. Mas para isso, eu tenho que recolher algumas lembranças, e justamente essas, a canção de abertura do disco me ensinou, não valem nada. Mas fucemos no lixo mesmo assim.
Eu era um nostálgico crônico, enfermo da vontade de congelar o momento bom e, claro, não conseguindo, acabava por viver preso ao passado. Era mais medo do que vinha pela frente do que apreço pelo que já tinha passado.

Talvez por isso, passei muito tempo depois daquele janeiro pensando no que aquela canção significava. Os gritos do Ivan naquele que é provavelmente seu vocal mais sincero e a hipnose daquele trecho instrumental (é coisa do Ramiro aquilo?) me intimavam a levar aquela musica para dentro de mim e me questionar. E dentro de mim, desculpem a pretensão, estava o futuro, ou melhor, um presente que eu ainda não era capaz de viver, e que também estava anunciado no disco, em letras como “Dizem”, “Dias Tortos” e, mais que todas, “Horizontes”. Um presente de abandonar-se a mim mesmo e deixar que as veleidades convivessem mais em paz com as decisões racionais, que significasse ir para frente desde que eu pudesse, em algum momento, voltar para casa.

A casa, desde aquele janeiro, era Curitiba, uma cidade onde só viria a residir anos depois, e não por mais que alguns meses. Mas já era meu lar, só estava à espera que eu reconhecesse isso. Se assim não fosse, como explicar eu andar pelo Centro encontrando o que eu queria e precisava sem jamais ter estado lá? Como justificar a familiaridade que eu sentia num passeio a pé pela Mariano Torres ou numa volta de carro pela Mateus Leme, das Mercês ao Abranches? Reconhecer-me na beleza que teimava em ser suja ali no Passeio Público, engolir a beleza da solidão num copo de chopp preto na XV ou celebrar o encontro não-planejado com um amigo no Largo da Ordem – essa era minha Curitiba. Minha casa.

E só ali podia ter nascido “Às Vezes, Céu” – aliás, título que descreve com exatidão a experiência musical d’OAEOZ ao vivo e a vida diária na capital das araucárias. Porque, descobri logo, OAEOZ era muito melhor ao vivo, mesmo ensaiando tão pouco. Porque o ouvido foi ficando mais exigente, e entendendo que a mixagem do disco não era boa (embora fosse, sim, a melhor possível). Porque Curitiba podia te dar alguns dias bem filhos-da-puta, indiferente ao amor que você tivesse por ela. Porque ia ter horas que aquela música ia mexer em coisas que iam doer. Então, estava claro que tudo aquilo – a cidade, as canções, a solidão – nem sempre seria o paraíso. Mas às vezes...

Essas vezes se tornaram mais frequentes, conforme fui criando mais meios de ir para aquela Curitiba física e também para aquele “dentro de mim” do qual eu falava lá atrás. A essas tantas, fui ouvindo menos o disco. Muita música veio depois dele, obviamente, inclusive feita pelos integrantes da banda em outros projetos, alguns dos quais tiveram seu impacto em mim.

Mas não é por isso que eu ouvia menos o começo disso tudo. É que eu fui me distanciando cada vez mais do eu que ouviu aquele disco em 2005 e a foto foi se tornando incômoda. Exatamente por isso, cada audição se tornou mais potente. E cada nova sessão era algo de parar e escutar. Jamais voltei a colocar aquele disco como “pano de fundo” para o que quer que fosse.

“Às Vezes, Céu” me ensinou a não olhar para o passado. De verdade. Aprende-se muito com um disco quando ele vem na hora certa. Ensinou-me sobre música também – não só o lado emocional de uma canção, mas composição, letra, arranjo. Pensei e conversei e pesquisei muito sobre esse disco (e não acho que o Ivan e o Carlão se lembrem de metade desses papos), porque eu precisava entendê-lo. Saber por que o álbum batia tanto, por que suas imperfeições eram mais atraentes que seus (muitos) acertos.

Não tenho uma resposta acadêmica para nada disso, não, mas tudo resultou numa resposta, que agora é parte indissociável do meu presente. Ou seja, um jeito enrolado de dizer que “Às Vezes, Céu” me ajudou a ser quem eu sou hoje. E olha, eu gosto, viu? Porque hoje “a vida é fácil” mesmo eu ainda sendo complicado, e já não me enrosco mais tanto em dias tortos (melhor, por vezes sou eu quem entorto os dias). E porque hoje “o peso que carrego nos ombros é só bagagem”.

É só bagagem, sim. E lá, entulhado entre umas camisetas de banda, camisas sociais, livros bacanas, fotos de gente querida e um ou outro objeto inominável, tem aquele exemplar meio amassado de “Às Vezes, Céu”.

Leonardo Vinhas

CARTA AO IVAN


Tive medo de ouvir “às vezes céu”.
Esse pedaço da tua vida, da vida de vocês, da minha vida, recebi com a carta de 19 de outubro de 2004. Escrevo só hoje, dia 13 de janeiro de 2005, às 23h37min. Se não me tivesse pego no telefonema daquela manhã seguinte de ressaca, talvez estivesse fugindo ainda. Pois escrevo então para me desculpar por não conseguir escrever. Não tenho distanciamento nenhum. E qualquer parâmetro só consigo traçar com minha megalomania. A primeira vez que ouvi o cd um tsunami de lembranças me lavou. E “lembranças não valem nada...”, tu disse. Mas meus olhos transbordaram de leve, orgulhoso. E consegui ver um pouco além mim. Pensar nas plantas que não cuido. Voltar a gostar de música. Me empolgar numa noite sem coca... aquele que “não compra tantas brigas, não sorri como sorria”, como disse eu... pelo menos riu sozinho em “um momento suspenso no tempo.. um olhar que escapa num segundo, esconde nossas histórias, a vontade e a coragem de se entregar”, como tu disse.
“Alguns dizem que tenho talento pra melancolia”, tu também disse. Mas saber-se diferente mas igual ao que se sabe que é o que se deve ser pra ser a si próprio é um alívio. E “às vezes céu” me deu esse abraço. “E sempre tem alguém te tentando te botar pra baixo... mas quando a gente fecha a porta e tudo fica lá fora: tudo parece simples, tudo parece certo”, tu disse. Nem um Don não tem dúvidas. Sabes por ti, acho. “Não acredito em quem diz não sentir medo”, tu disse.
Precisamos de algum contato. “Não somos só nós”, eu disse. E ouvir o disco me fez conectado com algo, me fez confirmar que a arte é vida, não é só um canal, um meio, um estilo, uma fuga ou um refúgio. Ter convivido um pouco contigo e depois ouvir o trabalho pronto me tirou qualquer dúvida sobre a teoria de que esses mundos que criamos é que são a expressão do que acontece por aí. Esses paraísos e infernos não-rebaixados, marginais... esses documentos que deixamos sob uma ótica não comprometida com a sobrevivência... são a história. Quem poderia contá-la por nós?
E “às vezes céu” é um livro, a biografia de um híbrido de alguém que se pareceria com nós todos, um pouco de cada... “a gente faz um mundo só pra gente”, tu disse. Só que “ao abrir os olhos de manhã meu mundo desapareceu”, tu disse também. E “às vezes céu” me fez perder algum tempo falando sozinho, preenchendo o que era o vazio aluguel entre meu abrir e fechar de olhos. E o dia não passou tão rápido... e tudo por não se sentir só. E aquele que achava não precisar de uma confirmação sobre si mesmo sorriu ao recebê-la de quem admira. Não numa encomenda, mas num símbolo __ construído antes e depois __ de uma vida de semelhantes sonhos reais. Onde se dá, a toda essa doação, valor. Diferente dos mergulhos ali, logo além da “distância que dura mais ou menos dois copos” onde “depois me solto e sou capaz de ir pra casa mais próxima, com quem quer que seja, em busca de um pouco mais”.
Gosto muito de “às vezes céu”, como gosto de ti. És um artista que respeito. És um dos únicos artistas brasileiros dos quais não tenho vergonha, pena ou desprezo. Daí espero que tenhas consideração por esse desabafo e esse pedido de desculpas por não mandar para ti uma resenha tradicional __ como, talvez, esperavas. “E agora sozinho, sou apenas mais um cara, o papel em branco, a caneta, um cigarro, um trago... não existe fim”, tu disse.
É isso? E minha cabeça está virada. Queremos ter um filho. “Já faz algum tempo que eu sai de casa”, tu disse. Mas, cara, que letras...
E parabéns pelo bom gosto de todos na tradução dessas poesias para as canções. Grandes simples arranjos. Deixo uma pra ti, feita nos dias depois de ouvir “às vezes céu”:

“Sobrenome
Meu sobrenome é talvez
é esquecimento
é nunca foi
é poderia ter sido
e eu aqui
nem lembro a idade que tenho
nada mais pra dizer
desapaixonado
mal-agradecido com o que é e onde está
sonhavas com menos, lembra?
e o que queríamos ontem
estava lá
mas já não era o suficiente, lembra?
rir
do que?
Embarco em outra viagem do ego
se não sou quem pensava que fosse
quem é?”

Um abraço pra ti, amigo Ivan, outro para a amiga Adri, e também para
os amigos Rodrigo, Carlão, Camarão e André. “A dor e a verdade num
riso contigo... a cumplicidade... um mar dividido...”, tu disse.
A minha verdade também não me ajuda. Mas isso é bênção, acho. Tu sabe.
E sei que me perdoas. Até.


Rafael Martinelli 
(texto incluído no press-kit de divulgação do CD "Às vezes céu", escrito pelo vocalista da banda Deus e o Diabo (RS), hoje atuando na banda EX)

5/26/2015

Algumas canções tem o poder de me transportar para mim mesma. A guria perdida no tempo e a que segue por perto, mas precisa de uns chacoalhões, de vez enquando. Não me peça pra explicar como ou o porquê . Não saberia dizer, na maioria dos casos. Em outros, lembro, sinto tudo de novo, tudo o que ela provocou, tudo que ela remexeu, tudo que ela me fez chorar e rir. Me vejo nas entrelinhas, e até no que não foi cantado. Acrescento a elas o que sou, também!

 E quando ergo o volume pra ouvir, outra vez, aquela canção que se tornou um pouco de mim, pois carrega alguns pedaços meus, me sinto renascer, me sinto revivendo. Me sinto viva de um jeito  estonteante, hipnótico que me suga as forças e obriga a parar e sentar um pouco. Tantas vezes me empurram, essas canções, para uma caneta e um pedaço de papel, me acordam no meio da noite ou mantém meus olhos abertos .

Algumas delas me fazem lembrar de mim, do que passou rápido demais, dos meus pedaços deixados pelos cantos, por vontade, ou por não me dar conta. ou pela pressa! Me reencontro e me perco nas palavras cantadas e me deixo embalar, enlevada pela conversa que me faz voar alto e acreditar que não foi em vão se entregar desse jeito. Tenho vontade de abraçar de novo, ao primeiro sinal do piano e do cielo; e viver, não o mesmo outra vez, mas o que está por vir com a mesma intensidade, apesar do tempo que passou. Não quero deixar o mundo lá fora, também não quero deixar entrar... a vida não é fácil, vejo agora, mas eu gosto dela. Ainda mais! E as canções são aquele morango vermelhinho em cima, os pedaços de amora tiradas do pé; o pão caseiro amassado pelas minhas mãos trêmulas e até mesmo o prato que queimou por um descuido - não raras vezes provocado por elas, as canções!  Não tem mais os sulcos dos discos, não tem mais os lados pra virar, mas tem as marcas do mesmo jeito. E mais fortes ainda, porque parte delas foi erguida com aquele violão do canto da sala; aquele que sempre que soa faz meu coração bater muito mais forte.  Meus pedaços e de meus amigos, meus amores, rasgados no meio das cobertas e de dias que não voltam, mas nunca saíram de perto, vejo claramente. É só assoprar a poeira. É só colocar o disco pra rodar, grande ou pequeno, e este turbilhão volta como um tornado avassalador em dias de céu azul ou cinzas como hoje. Eu gosto de todos. Eu sinto falta de mim quando ouço algumas canções. E isso me assusta. Mas também me acorda!  

12/03/2014

Já estamos na etapa final da reforma.  fiquei muito impressionada com as imagens do telhado. Creio que depois disso, não teremos mais chuva dentro de casa. A lua cheia também ficou muito linda sob o esqueleto da nova casa.


esquecimento

Não posso imaginar te esquecer
 peço então que me esqueças você, primeiro
Pra que entre brumas densas
possa eu deixar de existir
serena e fria
 aquietar, então, da vida
sob a sombra fresca da memória
que já me deixou sozinha.