8/22/2007

acordando...

A guria acordou cedo, mais cedo que de costume. Abriu bem pouquinho a cortina do quarto e viu o movimento das folhas verdes denunciando que um arzinho gelado acordou outra manhã. Teria de mudar a roupa planejada para o dia, a saia, mesmo com meia-calça, não vai rolar. A noite vai ser mais gelada ainda. No bairro, o frio é denunciado horas antes, quando à noitinha o amarelo das lâmpadas da iluminação pública já estão envoltos em uma leve neblina. E foi o que viu ontem, quando voltava. No banheiro, se esticando em cima da tampa da privada, a gatinha diz bom dia. Pouco depois, a outra, a gatona, deixa o seu resmungo matinal, também. É a rotina diária de despertar, dizer oi pros bichos, se preparar pro trabalho.


a hora dos cachorros

Água fria no rosto – é bom pra acordar a pele e ela já não sente gelar até os ossos como sentia quando criança e se recusava a tal absurdo. Dentes escovados, creme no rosto, roupa de trabalho: preta: calça, blusa, casado, cachecol. Bota!. Agora, a hora dos cachorros, no quintal, botarem seus focinhos gelados pra ganhar carinho. A guria empurra a porta que dá pra lavandeira e o peso do outro lado, indica que o pastor dormiu grudado na porta. A baixinha, não sai de seu ninho quentinho, espera que a guria vá até ela e faça um chamego. É sempre assim: tá frio, ela nem espera que sua cachorrinha saia do ninho atrás da porta. Ela é friorenta e mal humorada, prefere ficar na cama em dias cinzas, chuvosos.
Lixo pra fora de casa e duas, duas bolsas pra carregar todo o dia. A guria repete mais uma vez pra si mesma que precisa diminuir a quantidade de bugiganas que carrega todo dia nas bolsas, mas, outra vez, não consegue esvaziar nenhuma e sabe que também por isso, os braços já começam a doer novamente. Dali a pouco, eles também enfrentam o ônibus sem um lugarzinho sequer pra sentar. E a porcaria da prefeitura da cidade insiste em diminuir os veículos. Motorista simpático, mas sempre atrasado que nas manobras empurra a gente pra lá e pra cá, pendurada no braço dolorido. Burburinho no coletivo, mas estranhamente, a sensação é de silêncio.

pela janela do ônibus
No caminho pro trabalho, a mesma paisagem de sempre faz os pensamentos voarem alto. O som, sem pilha, não é companhia hoje. A guria repassa o que tem que fazer, mas não lembra de tudo. Pensa como seria bom não ter nada pra fazer a não ser ficar em casa, arrumando a casa nova – mas pra isso queria mais grana. Começando uma psicodélica horta, com plantinhas que não conhecia mas se tornarão muito amigas. Puts, e não é que ela esqueceu novamente de ligar pra seu avô? Há mais de duas semanas tá nessa.
Ai, dá um tempo, meu, o dia tá só começando. Nem sabe se já começou mesmo, afinal esse trajeto de ônibus é tão sonolento que deixa dúvidas. Passa o parque, passa o colégio, passa... passa... as horas passam... e a fazem lembrar de gianoukas papoulas, a banda paulistana que tocou uma única vez em Curitiba. Por alguma razão ela também lembra de cecília gianetti, que agora escreve na folha e deixou o casino de lado. Pensa no livro que ela ainda não escreveu (a guria, não a cecília, que esta não perde tempo e escreve mesmo – e bem) e nas conversas com seu amor. Solidão, vontades, saudades, alegrias, dúvidas....música! Muita coisa pra primeira hora acordada do dia.


sessão da tarde ou cinema?

Mas, é sempre assim. No ponto depois do correio, ela desce. Não sabe o que quer de café. Tá meio sem vontade. Até pensou em ir pra casa assistir sessão da tarde hoje... mas talvez queira pegar um cineminha, antes da aula de inglês. Quatro quadras depois, o computador. Quando a luz acende e os emails começam a baixar é hora de parar de divagar. Agora sim, mais um dia começou. Um pouco da vida fica em stand by! Mas, só um pouco, porque a guria, reconhece ela mais uma vez, gosta do seu trabalho, apesar de tudo - e não tem tanto problema em acordar cedo.

2 comentários:

Cristina L. disse...

Acho lindo que vc escreve "seu amor", "meu amor". *suspiro*

adri disse...

ô, cristina, vou te contar um segredo: não gosto muito de termos como "meu marido", "meu namorado', "minha namorada", "minha mulher", sabe como. soa tão autoritário. no final de tudo, são "só" nossos amores,não é mesmo. nosso imprescindíveis amores...bjos.