4/19/2007

É sonhar ou morrer!

Jornal do Estado

No caso da banda curitibana Charme Chulo, as idéias não ficaram só num mundo idealizado, elas se concretizam como resultado de um trabalho competente

Adriane Perin

No dia em que assistiram ao filme Eterno Brilho de uma Mente Sem Lembranças os músicos Igor Filus e Leandro Delmonico saíram do cinema melancólicos: “Vamos em um bar gaúcho que a gente vai ter amores iguais aos do cinema cult”, conta Leandro, lembrando ainda o dia em que a letra de uma música de Zezé de Camargo e Luciano lhe caiu sobre a cabeça. “Como eu posso gostar deles? Eu gosto é de Belle & Sebastian!”, pensou. Histórias perfeitas para falar da banda dos dois, que tem o brilhante nome de Charme Chulo, que lança hoje seu primeiro disco, que tem a música “Amor de Boteco”, que nasceu no tal bar gaúcho. E agora não tem mais jeito, com Charme Chulo a moçadinha indie vai curtir também as influências caipiras e bregas tão naturais na música brasileira. “É um lado irônico e até meio vingativo nosso”, define Igor em tom de brincadeira. O álbum, homônimo da banda, registra muito bem o amadurecimento da sonoridade e dos músicos nesse caminho que começou em 2003.
Conversei com eles ontem no estúdio de ensaio, e casa de Igor, onde estava também Leandro. A dupla segue sendo o centro nervoso e emocional do quarteto, mas agora sente que tem a formação definitiva, com Peterson Rosário, no baixo e Rony Jimenez na bateria, com disposição para encarar o périplo que cabe às bandas independentes brasileiras.
O disco foi feito em Florianópolis com Eduardo Xuxu, da banda Pipodélica, e Alexei Leão, responsáveis pela sensação de limpidez e equilíbrio. Que o Charme Chulo é uma das melhores bandas locais e nacionais da atualidade já é notícia velha, que vem sendo repetida até pela Veja, que também se rendeu ao poder dos independentes. O disco, no entanto, é divisor de águas, no registro da maturidade que a banda atingiu. A viola, marca registrada, por exemplo, ao mesmo tempo que se destaca, está cada vez mais orgânica e se mistura naturalmente. “Sonho com o dia em que ela será vista como uma segunda guitarra”, confessa Leandro, que agora vive a expectativa do público. É a fase mais gostosa, comenta, esta de ver as pessoas descobrindo o álbum. Leandro diz que a banda saiu pronta da gravação. Antes, era o tempo das dúvidas. “Quem gostar legal; quem não gostar, tudo bem porque este é o Charme Chulo, este é nosso momento”, diz. Agora o grupo vai se dedicar ao clipe da música “Mazzaropi Incriminado”, mas não pensa desesperadamente em MTV, como acontecia há alguns anos.
Maturidade é isso: ter tranquilidade pra dar cada passo e degustar ao máximo os frutos quando madurarem. Mais importante é seguir adiante sem atropelos. “Estamos circulando, temos amizades com várias bandas e estamos em sampa direto. Se a MTV se interessar, ok, mas não vamos sair correndo atrás”, pontua o guitarrista violeiro, cujo grupo lançou pelo selo paulista Volume I. “Esse interesse é o símbolo do momento do rock nacional: tudo está se estreitando e a distância entre o independente e o mainstrean, diminuindo. Não tô dizendo que vamos estourar, mas qualquer desses grupos que a gente vê tocando em Curitiba pode virar mainstream – inclusive os curitibanos”, analisa. “Sinto uma progressividade nisso tudo. Ninguém sabe direito o que vai acontecer, é um momento crucial”, completa Igor.
A Charme Chulo toca em breve na terra natal da dupla, Maringá. E a expectativa é grande. “O interior é o melhor porque a carência faz com que as pessoas curtam. É uma sinceridade que não tem preço”, nota Igor, apontando, porém, um lado ruim. Os pedidos de cover, aos quais a Charme não cede. “É perigoso abrir precedente”. Em Curitiba analisa Leandro, existe uma mítica de que o problema é falta de espaço na mídia. “Mas se em em bar de músico não tem equipamento legal... Falta de estrutura, de mercado, é o problema”, pondera o guitarrista cuja banda comemora o fato de não mais pagar para tocar, nem tocar de graça.
Charme Chulo conseguiu o desafio maior dos dias de hoje: criar uma sonoridade própria. Para isso, se apropia de elementos que vem da música gauchesca, do sertanejo pop e, claro da caipira. Do mesmo jeito que se agarra a influência do pós-punk, do rock brasileiro oitentista e da produção dos 90’s. Consegue soar como qualquer dessas bandas hype, apegadas aos anos 80, só que melhor ainda, porque não se priva de sua brasilidade sulista. É este, justamente, o grande charme, que não tem nada de chulo, de Igor, Leandro, Peterson e Rony.

Serviço

Charme Chulo e Mordida. Dia 19. R$10.
Jokers (R; São Francisco, 164).

Um comentário:

andye disse...

Adriane e Ivan
fico feliz em ver q vcs seguem divulgando as bandas pelo De Inverno e nos jornais da vida. Força sempre!
se tiverem aquele mailing pra divulgar as paradas, me incluam aí pra eu ficar atualizado por aqui em Maringá:
supers2@hotmail.com

abs