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9/01/2009

Alegria de tocar para sua gente

Jornal do Estado/ Bem Paraná

O chorão Altamiro Carrilho faz o lançamento de 4 DVDs e diz que ainda tem muito show para fazer (foto: Divulgação)

Altamirro Carrilho renova seu prazer em tocar flauta e festeja os brasileiros

Adriane Perin

Oitenta e quatro anos, 70 de carreira musical. Cem discos gravados e perto de 200 composições assinadas. Estes são alguns dos numeros em torno daquele que é considerado o último dos mestres chorões que pode dividir com a gente sua experiência e prosa. Altamiro Carrilho está em Curitiba para o lançamento do projeto A Fala da Flauta, composto por 4 Dvds e um livro, organizados por Andreas Pavel, que traz os DVDs “Primeira e Segunda Noite em Niterói”, “Uma Vida na Flauta” e “Esse Sou Eu”, filme de Ana Suttor, com o making of das gravações.

Inicialmente estava cá com meus botões ansiosa sobre possíveis perguntas. Ele atrasou um tantinho a entrevista, mas chegou ao telefone acalmando minha intranquilidade e tomando as rédeas da conversa. Logo foi dizendo que gosta de tocar em Curitiba porque é um povo muito musical. “Fiz no Guairão um concerto musical popular e clássico”. Para ele, aliás, não tem essa história de música erudita ou popular. Tem é música boa. A convite do Sesi Paraná ele se apresenta ao lado de Pedro Bastos (violão 7 cordas) Mauricio Verde (cavaquinho), Éber de Freitas (bateria e percussão) e Luis Américo (violão). Carrilho contará também com as participações de Sérgio Albach (Clarinete) e Trio Catuaba Brasil, ambos residentes em Curitiba.
A seguir trechos da conversa, sob o pulso firme desse alegre senhor.

Música erudita e o choro
O indivíduo que gosta de música erudita forçosamente vai gostar de choro, porque ele é todo baseado nas sonatas de Bach, nos concertos de Tchaikovsky , Bethoven. Tudo da mais alta qualidade. Bethoven era chorão, “Pour Elise” é um choro, basta colocar pandeiro, cavaquinho, instrumentos que o choro incorporou. Até já gravei em ritmo de choro e dá a impressão que foi sempre assim. E, agora os jovens estão descobrindo o choro como opção para tocar boa música sem precisar estudar 10, 12 anos. Porque pra tocar concertos tem que ter essa experiência, o domínio de pelo menos 8 anos do instrumento.

Ritmos populares
Pouca gente tem esse dom, chamo de dom, de assimilar bem ritmos populares. Quase que 90% da nossa música se deve à dita África e foi uma mistura fantástica essa. Uns especialistas em percussão e outros especializados em harmonia e melodias bonitas. Outra coisa que interessa a todo instrumentista é saber improvisar. Quem sabe sair de um tema sem perder a linha a harmônica leva muita vantagem e o público também agradece não ser repetitivo.

Jazz e outros gêneros
Gosto de tudo, só existe um tipo de música: a música boa, de quaquer gênero. Não podemos classificar de ruim a música que não gostamos, mas milhares de pessoas gostam. Mas, também tem muito barulho com nome de música no mundo inteiro. E existem adeptos. Então, como diria o outro: o que seria do amarelo se não houvesse o mal gosto (risos).

Bom humor
Eu tento passar isso para o público nos títulos jocosos, por exemplo. No show, ninguém quer sofrer. E tenho uma convivência muito boa com quem toca comigo. Mas, para ser músico bom tem que ter boa cabeça, além de talento. Acima de tudo tem que ser um indivíduo intelectual, mesmo que não tenha cursado faculdade. A música obriga isso.

66 anos de música?
Não, são 70 anos de música, comecei aos 14 anos; e já era profissional. Dentro da minha biografia gravei com Moreira da Silva quando menino ainda e ele teve que conseguir autorização da polícia. E dali fui ficando mais conhecido, com meus discos e acompanhando os grandes mestres; os melhores cantores, Orlando Silva, Francisco Alves, Vicente Celestino, Carlos Galahardo, Isausinha, Jorge Veiga, Trio de Ouro, Dalva de Oliveira. .... é muita gente.... Elizete Cardoso, Elis, ela era um espetáculo. A meu ver a melhor de todas, porque almoçava, jantava e lanchava música.

Bom de conversa
Eu falo bastante e fui aprendendo muito com as viagens pelo exterior. Fiz quase os cinco continentes. Até em Israel eu toquei. Recebi um papel em hebraico e me disseram o som que teria em português. Levei uma semana pra decorar, mas fiz a saudação. Só que , depois de uma certa idade, a idade do condor, tive que aceitar o conselho médico e diminuir minhas travessuras. Naturalmente, hoje já não tenho tanta resistência. Na execução da flauta tenho ligeiras limitações nas músicas mais puxadas na respiração. Porém, nunca parei de estudar e exercitar.

A Fala da Flauta
São seis horas de concertos, documentário, entrevistas antigas, apresentações especais, gravações de estúdio. O público vai saber como é uma gravação lá bem junto da gente, ouvindo até as bobagens que a gente fala. Só mandei tirar um palavrão, porque plateia não tem que ouvir palavrão. Eu não parei. Só quando papai do céu chamar. Fico tão feliz quando entro no palco que parece que tô recebendo um presente. Mas, agora priorizo tocar no Brasil. Sou o contrário, gosto mais de tocar para minha minha gente. Pros gringos toco pelos dolares (risos).

SERVIÇO
Altamiro Carrilho. Dia 01 às 20h30. R$20 e R$10. Cietep ( Av. Comendador Franco, 1.341).

10/16/2008

“Nasci para tocar flauta, e acabou!”

Jornal do Estado

Divulgação

Altamiro Carrilho: fama com a boa música, simpatia e bom humor para conversar

Adriane Perin

Altamiro Carrilho, que faz hoje show no Teatro Guaíra com a OSP, bateu um papo muito bacana sobre sua carreira e a música

Aos 84 anos de idade, Altamiro Carrilho construiu uma carreira que o coloca no topo quando o assunto é música. Não foi só isso. É quase certo que esta convivência iniciada antes de ter cinco anos de idade seja também o seu elixir, pois até em uma conversa por telefone, é inevitável se supreender com o vigor do falante flautista, também muito bem humorado até quando faz críticas - e nenhuma rusga para conversar pela enésima vez sobre sua trajetória. Um dos nomes máximos da flauta transversa, e um mestre do choro, ele está em Curitiba, a convite do Sesi-Pr e Teatro Guaíra, em cujo palco faz hoje o show A Fala da Flauta. Na performance, junto com a Orquestra Sinfônica do Paraná, ele faz também o lançamento da caixa com 3 Cds, Poesia do Sopro, que traz o registro de um concerto feito por Altamiro e convidados em agosto de 2006 e uma antologia de gravações históricas realizadas entre 1949 e 1955. Ele adianta que está fazendo um DVD, com “ depoimentos em forma de música abrangendo minha trajetória, contando causos pitorescos, com gente de alta categoria, como Tárik de Souza, Julio Medaglia. Sou muito exigente”.

Com 112 discos gravados Altamiro diz que no Brasil não lhe falta fazer nada. “Talvez viajar para alguns países. Esses discos, metade fiz como solistas e outra com os grandes cantores desde os anos 40”, diz e vai desfilando os nomes que começam com Moreira da Silva, Francisco Alvez, Vicente Celestino, Dalva de Oliveira, Angela Maria, Elizete Cardoso, “gente do mais alto grau”, alguns ainda vivos, como Roberto Carlos e Chico Buarque, emenda.

Boas lembranças — Nem cinco anos ele tinha ainda, quando vidrou naquele instrumento que fazia fiu-fiu , de um amiguinho que não tirava melodia nenhuma. O Natal se aproximava e seu presente tava escolhido. “Fiquei intrigado, peguei e descobri que cada buraco daqueles que eu destampava, dava nota diferente. Quando ganhei a minha nem almoçei, fiquei agarrado com minha flautinha”, lembra ele, que teve no lado materno da família o estímulo musical. Uma tarde em uma reunião famíliar, sem avisar, tocou uma marchinha de carnaval, e causou espanto. “Comecei a ser tratado de outra forma”. A partir daí sua convivência com a música ficou ainda mais próxima, participando dos ensaios da banda dos tios - cada vez mais entusiasmado. “Era muito pequenininho, nem aguentava os instrumentos que ficavam em um suporte”, lembra ele que travou contato com vários instrumentos de percussão. Até que um vizinho o convidou pra ouvir um disco de flauta, “gravada no tempo do gramofone”. Nesse meio tempo, já com 12 anos e a família morando em Niterói, conheceu um carteiro flautista que ao ouvi-lo pensou ser um disco e se ofereceu para dar aulas de graça. “Passei também a fazer minha flauta com bambu e fui pra todo programa de calouro que existia”. Aos 14 anos, apareceu Moreira da Silva e o levou para um estúdio de gravação.

Serviço
Altamiro Carrilho. Dia 16 às 21h. R$20 e R$10. Guaira (Pça Santos Andrade, s/n). Informações: (41) 3304-7982.


Músico bom tem, mas é tudo mecânico

Altamiro gosta muito de ouvir música, mas com cuidado. “Sem ruído que interfira, para poder ouvir os detalhes, que dizem muito”. O brasileiro é bom de improviso, observa, e se sai melhor quando investe nisso. “Quem tem criatividade não deve negá-la. Gosto muito de colar notas que não estão na melodia”, diz. “O que tem aparecido não merece muito minha atenção. Preferem música fácil de assimilar, sem melodia é muita letra embolada”, diz, confessando que não gosta de rap. “De rock até tem coisas muito boas, mas a bossa nova, esta sim trouxe coisa boa. O brasileiro faz tudo melhor quando improvisa, seja na política, nas artes ou no jornalismo”. As décadas vividas não foram suficientes para amainar sua inquietação musical nem o deixaram mais condescendente. “Me nego a me acostumar. O problema é que gosto de melodia, harmonia”. Nem as novas gerações de músicos populares escapam de sua veia crítica. “Até estão revivendo o choro, não falta músicos bons, mas é tudo mecânico. Falta criação. Tem que fazer algo novo e não ficar remoendo o que foi”, alerta. E sobra também para quem divulga. “O pessoal não alcança a qualidade da pureza das coisas boas. Preferem tocar as mais fáceis, chamadas ‘comerciais’, porque acham mais fácil vender”.

Vaidade — No final, pede que a repórter “corte a metade” do que falou. “Não é bom ser vaidoso e peço a Deus que não me deixe influenciar, pois ela atrapalha e você só quer fazer aquilo que te agrada. Então, corta quando parecer que to sendo muito vaidoso”.