11/01/2007

Aos pés de Chan Marshall

Há exatamente uma semana, mais ou menos nessa hora (19h30) recebi no hall de entrada do auditório Ibirapuera, um ambiente de paredes brancas, criado por Oscar Niemeyer, que em nada combinava com meu estado de espírito, inquieto e ansioso, um envelope com um ingresso dentro. Abri e vi escrito Fila A, poltrona 12. Fiquei cismada e o fechei rapidamente: não, essa fila A, não deve ser a primeira, sei lá, deve ter um outro sistema aqui. Não deve ser lugar marcado, pensei comigo e continuei conversando. Só que fiquei com aquilo na cabeça. Tempos depois peguei o ingresso de novo, mas ainda era difícil acreditar. Era o meu lugar pra ver Cat Power na primeira noite do Tim Festival, em Sampa. E alguém da Tim fez a gentileza (e não acho que foi acaso) de me colocar diante da mulher que me tirou o prumo neste ano, que me fez chorar tantas vezes, só por ouvir uma música. Que eu já conhecia, mas não havia me despertado nada. Nada, até ouvir um tal disco The Greatest. Nada, até vê-la cantando daquele jeito, com aquela banda que é capaz de desnortear, com aquela boca torta, aquela movimentação meio desajeitada. Meu espírito pressentia o que estava por vir. Quando é que eu iria imaginar que alguém da Tim me pregaria a peça de me colocar, literalmente, aos pés de Chan Marshal. Quando procurei meu lugar, o segundo à direita, me perguntei como seria possível manter o controle e não me debulhar em lágrimas. NO intervalo de um show pra outro, nem saí do lugar.
Os jornalistas (afinal eu tava lá a trabalho, meu doce trabalho, nessas horas!) esperavam na lateral e eu, sentada, aguardava a entrada dela para também ir pro lado, fazer algum registro das primeiras músicas.
Foi quando vi uma guria entrando no palco, largando uma garrafa aos pés de onde Cat Power ficaria e um pensamento ficou pela metade: nossa, é UMA ROADIE!!!. Antes mesmo dele terminar, o bururu fez eu me tocar: ela entrou no palco como alguém que vai da sala pra cozinha da casa largar algo em algum lugar. Pulei pra lateral direita e foi muito, mas muito difícil manter a mão firme pra captar a música (que depois mais coloco aí no blog), enquanto ela era apresentada. Eu tremia quase incontrolavelmente. Que incrível, ela parecia uma amiga de infância, com o cabelo preso em um rabo de cavalo, jeans e a tal camisa branca amassada, um cinto azul claro, sapatos tênis branco.
Quando vi Mercury Rev chorei compulsivamente quase todo o show e depois não conseguia parar. Diante de Cat Power fiquei estatelada. Não chorei. Meu olhar acompanhava ela de um lado a outro do palco, eu paralisada, com medo de respirar até, porque vai que aquilo era mesmo um sonho, como parecia, e se eu me mexesse ia acordar e estragar tudo.
A hora seguinte foi uma das mais maravilhosas da minha vida. Não chorei, eu só conseguia ficar ali, cabeça erguida em direção a ela completamente hipnotizada, incapaz de fazer um movimento sequer a não ser mover os olhos para não perder nada, pra que tudo, cada dança que entrega ao mesmo tempo fragilidade e um certo desajustamento; pra que aquela linda boca torta, aquela voz, ah aquela voz, rouca, incomodada, nunca mais parasse de cantar ao meu ouvido.
A garganta arranhava tanto que a vi tossindo duas vezes e cheguei a pensar que um terceiro acesso a obrigaria parar a música, senti a tosse chegando outra vez e fiquei ansiosa junto com ela. Ela, no palco, ia de um lado a outro experimentando cada retorno e apontado qual estava bom e ruim. Ia pra esquerda falar algo pro técnico de som escondido e uma das vezes voltou com uma bebida branca, que parecia algo pra amainar o incomodo com a voz.
Para nós, diante do palco, tava tudo certo, mas ela achou que não merecia nossos aplausos. Eu sei que todo mundo que lê esse nosso blog já tá careca de saber como foi. E eu sei que não serei capaz de achar as palavras pra contaro que senti vendo aquela guria, com jeito de menina que bem podia ta sentada do meu lado na platéia, cantando ali. Porque é algo que ficou impregnado em mim; toda vez que ouvi-la agora, vou lembrar, como acontece com o MR, que eu vi o que vi; que eu dividi com ela alguns sentimentos mesmo que ela não saiba disso - mas ela sabe!
E ainda agora, quando lembro disso, ainda posso sentir tudo de novo. Quando aqui, sozinha em casa, nesse dia de tempestade me toquei que há exatamente uma semana eu tava, naquele instante, abrindo o tal envelope que me emudeceu.
Lembrei também da noite de ontem, último dia do Tim Festival, na Pedreira, que não chegou nem uma ponta da menor unha dos meus pés perto do que foi um único show desse festival: aquele em que Chan Marshal se entregou pra nós e para quem os músicos entregaram, saindo um a um, ao final do show, seus instrumentos. Como se entregassem a nós seus instrumentos e sua música em oferenda, como se dessem pra gente um pouco deles pra guardarmos... aí, sim, eu chorei, convulsivamente, quebrando o silêncio da casa e pensando, mais uma vez, que eu nunca, nunca, nunca vou esquecer o dia em que Chan Marshall cantou pra mim. E nem tente me convencer que não foi pra mim, porque foi bem assim: ela olhou nos meus olhos e cantou pra mim e o mundo inteiro sumiu só pra ela poder “cantar e dançar pra mim", um dia depois do meu aniversário de 37 anos. Eu estava, literalmente, aos pés de Cat Power.

2 comentários:

Gabee disse...

Ai que inveja de você Adri! Cat Power, sempre demais
aqui é a Gabi, da máquina fotográfica
bjo!

marcelo urânia disse...

belo texto, adri! emotivo, com o coração no teclado. gosto demais quando é assim.

chan marshall e lived in bars são alucinantes. chan, 'vem ni mim'! haha