11/09/2006

As histórias não são iguais


“Quem aqui pode me dizer o quanto se morre pra poder viver?
Pensa que você pode ver quanta mentira consegue te convencer? (...)
Quem aqui que pode se lembrar da última vez que teve medo de chorar?
Quem sabe como é que se faz pra uma vontade se curvar? (...)
Quem aqui pode me dizer o quanto se paga por não esquecer?”

Uma das coisas que considero mais importante pra gente que tá nessa de música, de produção cultural e tal é o registro daquilo que se produz e vive nesse caminho. Sim, porque, muitas vezes a gente tá tão envolvido na feitura da coisa que não se toca da importância de registrá-la. Ou até porque não se dá valor suficiente para achar que esse registro seja importante. E isso muitas vezes faz com que coisas extremamente importantes e de grande valor/relevância artística caiam no esquecimento ou se percam no tempo, sem que tivesse ficado um registro com o mínimo de qualidade para que outras pessoas depois pudessem tomar conhecimento daquilo. O problema é que no Brasil, um País tradicionalmente sem memória, e que sofre da síndrome de vira-lata, esse tipo de registro sempre foi precário, para não dizer, quase inexistente. Ainda mais quando se trata de música pop (ou rock) – um gênero bastardo por excelência e até hoje visto como algo “menor” em termos artísticos. E se é assim com coisas já consagradas, pelo menos pela crítica, imagine então o que acontece em relação a manifestações contemporâneas, como a cena rock independente de uma ou duas décadas atrás, da qual a gente, queira ou não, fez ou faz parte.
Por isso, trabalhos como o livro “La Carne: Desconhece o rumo mas se vai”, escrito pelo jornalista Fernando Lalli, ganham uma relevância tão grande e mostram que apesar de mesmo a gente não se tocar ou não botar fé, o fato é que a história não é um livro embolorado sobre figuras mortas. A história se faz aqui e agora, todo dia. E as nossas histórias não só valem a pena, como devem ser contadas, nem que for pra que a gente mesmo se reconheça e se descubra. Pra quem ainda não sabe, o livro foi escrito como trabalho de conclusão de curso pelo Lalli e conta a história da banda osasquense da qual a gente virou fã, irmão, parceiro desde que conhecemos e tivemos a oportunidade de dividir o palco e mesas de bar. Mas o mais legal é que o Lalli (mais conhecido como Boi) teve a competência e sensibilidade para fazer um livro reportagem que vai muito além do que simplesmente contar a história da banda. Com um texto fluente, claro e ao mesmo tempo emotivo, o Boi conseguiu fazer um livro que interessa mesmo para quem nunca ouviu falar ou não gosta do La Carne. Sim, porque o texto consegue ir à fundo em questões que vão desde o imaginário das populações que vivem nos subúrbios dos grandes centros urbanos brasileiros, a formação cultural dessa população, o choque entre gerações de jovens adolescentes nascidos crescidos ainda no período da abertura e da ética do trabalho de seus pais carregada de repressão e incompreensão. É muito legal, por exemplo, saber um pouco mais da história de Osasco, e de como o Linari, filho de pai alagoano, resistiu de todas as formas em aceitar os planos que a vida de filho de classe operária conformada tinha pra ele, representada pela escola do Senai, destino de quase todos os que estavam na mesma condição. E lembrar que eu mesmo saí de situação análoga, filho de cabelereira que planejava pra mim o destino de escriturário do Bradesco, uma casa do BNH na periferia de Paranavaí, e um fusquinha e uma mulher barriguda de preferência Testemunha de Jeová. Ou de quando o Linari pela primeira vez sentiu o gostinho do palco fazendo uma peça de teatro no colégio, e recebeu como reação a hojeriza da família, para quem ter um “artista” em casa era motivo de vergonha. Me lembrei da minha primeira “peça” na 5ª série em Jacarezinho, e de quando eu pedi um violão pra minha mãe mas ela disse que antes de comprá-lo eu teria que aprender a tocar (como aprender a tocar sem ter o instrumento é coisa que eu até hoje não entendi). Enfim, o mais legal de ler esse livro – além é claro da emocionante história desses caras – é poder perceber que a gente também tem muitas histórias pra contar. E que elas estão por aí, a espera de alguém que tenha sensibilidade para percebê-las, recolhe-las e trazê-las à tona. O problema é que a gente mesmo as vezes não percebe isso, porque não se dá valor, não acha que a nossa história seja relevante, tenha alguma importância. Que história mesmo é aquela coisa Pedro Alvares Cabral e tal ou de figuras já consagradas. E deixa essas histórias morrerem na penumbra do tempo, esquecidas.
Por isso desde que a gente começou a fazer o Rock de Inverno, colocou como prioridade registrar tudo em vídeo e de preferência também em áudio – o que depois acabou se transformando em três videos-documentários das três primeiras edições do festival, além de outros dois que a gente ainda pretende produzir e lançar assim que puder. E pra mim, particularmente, isso é tão ou mais importante do que o evento em si. Porque os festivais, os shows, é aquela coisa, que foi, tava lá viu, beleza. Agora o registro fica pra sempre e pode atingir muito mais gente que nem sabia que isso existia. E se no futuro, daqui sei lá 50/100 anos, alguém quiser saber algo sobre um pouco do que um grupo de malucos tava fazendo pra espantar a mediocridade nessa cidade, vai poder ter acesso esse material.
Voltando ao livro do Boi, me deixa muito orgulhoso também saber que a gente humildemente fez e faz parte da história dessa que não é só uma das melhores, ou a melhor banda de rock do Brasil, mas mais do que isso, um grupo de caras que faz a gente ainda ter esperança de que a humanidade não seja apenas um bando de cães brigando pela sobrevivência e querendo ver o oco dos outros, querendo se dar bem a qualquer custo, mesmo que isso signifique pisar nos outros. Foi muito bom ler os trechos em que ele fala do La Carne tocando aqui com a gente, e mesmo depois de todo o perrengue do Rock de Inverno 4, terem ficado ainda mais próximos justamente por saberem da sinceridade de tudo o que a gente sempre quis fazer:

“O festival Rock De Inverno 4, que aconteceria nos dias 30 e 31 de agosto em Curitiba, foi cancelado. Por falta de alvará de funcionamento, a casa onde aconteceria o festival não poderia abrigar os shows daquele fim-de-semana. Depois de uma viagem desgastante, de Osasco até a capital paranaense, com um congestionamento de 40 km devido a um acidente na Rodovia Régis Bittencourt, essa seria a pior recepção possível para o La Carne. No entanto, os organizadores Ivan Santos e sua mulher Adriane Perin conseguiram, no mesmo dia, mudar as apresentações para outro local, a casa Motorad. Eles tocariam no domingo, seriam a segunda banda da noite.
A despeito dos problemas inesperados com o festival, a solicitude e amabilidade com a qual o La Carne foi abraçado em Curitiba foi algo que marcou a banda – mesmo antes dela subir ao palco: na casa de Ivan, alternavam-se jam sessions ao violão e no estúdio, churrascos, bebidas e muitas histórias contadas por gente calejada pelos palcos da vida. E quando chegou a noite no Motorad, veio a recompensa em um show que a banda lembra como um de seus melhores.
E que Ivan também lembra com carinho:

– Foi uma catarse geral, porque por todos os problemas que aconteceram com o festival, o show deles acabou “lavando a alma” e nos aproximando ainda mais desses caras.

Mas restava um problema: Carlos e Sidney, que trabalhariam no dia seguinte, tinham passagens compradas para o ônibus das 23h20 – e o show terminara pouco antes das 23h. E a rodoviária estava do outro lado da cidade. Ambos jogaram seus instrumentos de qualquer jeito em seus bags, correram para a carona que os esperava do lado de fora do bar e partiram, cruzando sinais vermelhos e pervertendo todos os limites de velocidade das ruas de Curitiba. Os dois chegaram ao ônibus quando as três últimas pessoas da fila embarcavam. Sentaram em suas poltronas, encharcados de suor do palco e, ainda ofegantes, partiram para São Paulo. Seus respectivos empregos os esperavam a partir das 8h da manhã seguinte.”
(La Carne: Desconhece o rumo mas se vai - PARTE QUATRO: Contra a Corrente)

Ou dele falando do retorno triunfal da banda no Rock de Inverno 6 (a vingança):

“Mas, em um universo onde platéias em números de três dígitos são muito comemoradas, pode-se dizer que o La Carne é, sim, uma banda idolatrada em Curitiba. Idolatrada por um público que ansiava por bandas que não seguissem padrões da moda, que foi cultivado pelos festivais Rock De Inverno. Também teve importância nesse processo o próprio selo De Inverno, que apoiava inúmeras bandas de talento pouco reconhecido – incluindo a banda do “patrão” Ivan, OAEOZ, cujo disco Às Vezes Céu, lançado em 2005, foi unanimemente elogiado por sites na internet, e jornais e revistas locais. Era um foco onde a música verdadeiramente independente de convenções acontecia, onde o La Carne se sentia em casa.
Rubens K, o primeiro disseminador do som da banda entre seus amigos no Paraná, esteve a quase todos os shows que seus amigos fizeram em sua terra natal, e, assim como Leonardo, foi testemunha ocular da catarse que os shows produziam no público. – O que eu me lembro? Do barulho de todos no bar cantando. De todas as pessoas pulando e se abraçando. De uma mina comprando cerva e jogando na cabeça. Do Carlinho emocionado, porque deve ter achado que as coisas que ele faz não mexem com o coração dos outros, e via que estava enganado. Do amplificador pedindo “arrêgo”. Da voz do Linari sumindo, mas a gente continuou o refrão.”

Enfim, são essas coisas que fazem a vida valer a pena. Parabéns ao Fernando “Boi” Lalli por ter encarado essa tarefa e a desempenhado com louvor. E aos La Carnes, que foram capazes de superar muita coisa pra que essa história pudesse existir e ser tão bem contada. E que todos nós tenhamos a força pra continuar produzindo e quem sabe, em um futuro não tão longínquo, também colocarmos no papel (e em vídeo, e em fotos, e em áudio) as nossas próprias histórias, nem que for só pra mostrar pros filhos e netos.
Ivan

2 comentários:

ramiro disse...

que tesão!!!! porra!! esses caras merecem mais!

rkjazz disse...

nari nari nari, pau no cú do linari. lacarneanos estão intimados a descerem pro sul em busca de mais alcool. nari nari nari...