1/17/2009

a menina nem piscava




A menina nem piscava, olhos arregalados brilhando, diante do senhor de, poucos, cabelos brancos, que contava a história tantas vezes ouvidas, de como (não) estudou, com a irmã mais velha, de quem fugia junto com o irmão gêmeo, das aulas. E Catarina ainda conseguia ficar assim, diante da ainda imponente figura que viu por uma vida inteira como um guia e mentor, quase 40 anos depois. De volta à sua cidade empoeirada, a pegou dormindo, rodoviária nova, vazia. Só o motorista do ônibus - que teve de acordá-la, já que ela não identificou que havia chegado em seu ponto de parada; e um outro rapaz madrugueiro no trabalho, junto com um taxista que se escondia do ar gélido que não foi impedido pelo cimento de entrar no amplo ambiente.
Cachecol colorido, cabelos desgrenhados, pegou a única bagagem e perguntou por um taxi.
- Em que parte da cidade eu estou?
- “ No Parque do Bosque”, respondeu o rapaz.
Ainda perdida, pensou que estava mais pros lados do cemitério da cidade, tentou se situar e só conseguiu quando avistou a longa avenida que dava na velha casa, agora de portas fechadas. As obras deixavam o antigo barro vermelho espalhado, seco, pelo paralelepípedo, não da calçada, mas da avenida com nome de governador.
Aos poucos, foi acordando, identificando a cada quadra os poucos lugares conhecidos, quase todos com novos estabelecimentos. A loja Zortea, de materiais de construção, o antigo mercado Centauro, onde o avô sempre fazia sua paradinha pra uma longa conversa com algum conhecido; o posto de gasolina... Depois, a antiga borracharia do outro avô e, à frente, o morro que lhe rendeu alguns pesadelos, cuja subida de carro a fazia se encolher no banco de trás por medo que ele não vencesse a subida. Invariavelmente, fechava os olhos e enfiava o rosto, apavorada, no banco.
Um riso nostálgico escapa enquanto o taxista vai contando a boa nova, a instalação do de um campi da Universidade Federal, que vai valorizar muito o lugar. O taxi segue adiante, passa em frente a casa dos Sonda; o antigo Poeira, como era chamada a zona (de putas mesmo) vizinha e chegamos ao trecho que era de terra, lama que sujava os calçados rumo a escola. E logo ali, a casa da Ju, Dina (que lhe mostrou os únicos pontos de crochê e tricô que ela sabe ainda hoje e que fazia um dos mais deliciosos pães caseiros que ela já provou, ao lado do da tia e da vó paterna), Julio e do Aldo Pereira, o também açougueiro, o primeiro que a ensinou a empunhar um violão (não que ela tenha aprendido...).Lembra o violão 12 cordas que ele tinha, parecia tão gigante pra ela, na época.
Logo em frente, a casa da tia, seu novo destino, pouco antes da casa onde aprendeu a ficar em pé na vida. A casa que foi construída quando Catarina ainda morava lá e hoje abriga algumas das pessoas que mais ama. A outra, soube ontem, já abriga outras existências... os móveis foram vendidos.
Silêncio. Até os cachorros dormindo. São 4 da matina. Catarina acordou alguém e sem muito alarde, depois de beijos e abraços, se esticou pra terminar o sono entorpecido. Catarina está de volta e as próximas 24 horas, ela sabe, serão de andar lento e muitos silêncios, mesmo no meio das conversas e fotografias, diante daquele senhor de incríveis olhos azuis e mãos grandes... ela nunca vai cansar de ouvir as histórias, mesmo as que já conhece. e diante dele seus olhos sempre estarão atentos, querendo a cumplicidade de tantos, e sempre tão intensos, sentimentos, mesmo sabendo que, talvez, isso já não seja mais possível.

Um comentário:

Ivan disse...

bonito.