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5/29/2009

Cada vez mais genuinamente Júpiter Maçã

Jornal do Estado/ Bem Paraná

O músico Flávio Basso, o Júpiter Maça, faz show hoje no Era Só o Que Faltava (foto: Divulgação/Cisco Vasques)


O gaúcho Flávio Basso apresenta sua nova banda a Curitiba, com repertório que passa por todos os discos e inéditas

Adriane Perin

Quando um músico constroi uma história que conquista pessoas, seu repertório acaba por ganhar uma interferência externa, digamos assim. Algumas músicas não podem faltar nos shows. É o caso de Flavio Basso. Ou Jupiter Apple. Ou Júpiter Maçã. O gaúcho, que começou a fazer história lá nos anos 80 nas irreverentes TNT e Cascavelletes, é um desses casos. E, para nossa sorte, não importa de qual disco ou época é sua música, porque o bom gosto musical é a regra em resultados que podem ter uma cara mais experimental ou mais pop, dependendo do que ele sente. A cada novo trabalho, esse cara engrossa sua lista de boas canções e o momento atual não parece diferente, como se pode conferir no single que acaba de lançar em sua página no my space (www.myspace.com.br/jupiterapple). Gregorian Fish tem um clima David Bowie, me lembrou Roxy Music. Outro trunfo de Júpiter Maçã são as sacadas regionais em referências a lugares, que aparecem em suas músicas sem que jamais as façam soar datadas, ao contrário, promovem aproximação. Golpe de mestre.
Hoje ele apresenta à Curitiba, na terceira edição do I_CWB, no Era Só o Que Faltava, sua nova banda, que tem as “estrelas” Thunderbird (aquele mesmo ex-VJ e vocalista do escrachado Devotos de Nossa Senhora Aparecida) no baixo, e Astonauta Pinguim no piano e órgão, com a responsa de dar aquele toque retrô que falta a um show do Júpiter. Ele também apresenta uma performance solo. A banda se completa com Dustan Galas (guitarra) e Felipe Maia (bateria). “A combinação está sendo bem boa e traduz o que quero passar no momento”, disse Basso, em uma animada conversa por telefone. Entre as músicas que não podem faltar no repertório – que terá também músicas inéditas - ele cita “Gregórian Fish” e “Um Lugar do Caralho”. Oba, essa é um clássico. Mas, e: “Eu e minha ex”, Miss Lexotan 6mg Garota .., “As Tortas e as Cucas”... ishi... essa lista é grande!

Jornal do Estado — Você está trabalhando em novo disco. O que podemos esperar desta vez?

Júpiter — O single já tá lançado virtualmente porque a música que abre tá no meu My Space. As gravações do álbum ainda tô no processo de criação. Na sequência virá o vinil, um compacto, ainda para este ano. Gosto dessa prova física, especialmente para o formato de single gosto de usar o compacto, que faço pela Monstro Discos.

JE — Você já fez discos pop, experimental; cantou em português em inglês; quando se esperava um tipo de som, você vio com outro... esse trabalho que está nascendo?
Júpiter — Acho que cada vez mais venho completando e sintetizando o disco anterior. A Tarde na Fruteira, o mais recente, já sintetiza os três anteriores. Na verdade, essa coisa de correr contra o que se esperava se deu mais nos meus primeiros discos. E aconteceu mesmo. São coisas que eu tenho que descobrir a meu respeito – e isso é saudável. Claro, que sempre coloco um plus, algo fresco à carga do que já estava no trabalho anterior. Me sinto cada vez mais completo e pleno como compositor.

JE — Legal essa postura longe da falsa modéstia de dizer que “é um trabalho despretencioso”.
Júpiter — Mas é a verdade. Me sinto assim. Tenho um estilo que já era definido e tende a afunilar, cada vez mais genuinamente Jupiter Maçã. Você ouve e sabe que se trata do meu disco, mesmo que sejam trabalhos com várias sonoridades diferentes, atitudes atípicas ou coisas que não tinha feito anteriormente.

JE — Desde aquele começo com TNT e Cascavelletes até agora...
Júpiter — O que disse não quer dizer que fosse inseguro ou imatudo na fase inicial. Nunca fui inseguro em relação ao que lancei. Essa segurança é que me move e abre para o exercício da continuidade. Mas, percebo, olhando pra trás que cada vez mais tem uma assinatura, que era de fato aquilo lá mesmo, desde o começo.

JE— Você - e alguns outros músicos da sua geração oitentista do Rio Grande do Sul – é um cara que influenciou muita gente e está entre os que deram os primeiros passos do que hoje chamamos de cena independente brasileira. Você se sente uma referência? Como é isso de ser pioneiro?

Júpiter — Independente eu sou. Mas, o independente cresceu e não é mais independente. Tomou vida própria em tamanho e dimensão. Se você pensar em termos de mainstream, acabei sendo um “main” que foi formado, que emergiu das profundezasa do indie, do underground, mas tomou proporções tais, que, agora, a essência, seja indie ou underground o termo que se aplique, já tem uma notoriedade outra. E lido com isso, no momento, como período transitório, porque sinto que venho de uma espécie de transição para que um número maior de pessoas tenha acesso. Isso tá acontecendo com meu trabalho.

JE — Por falar nos gaúchos já viu o Tenente Cascavel, formação que une ex-Cascavelletes e ex TNTs? Você chegou a ser convidado?
Júpiter — Fui convidado a assistir e fui comunicado com alegria do que acontecia, mas não tive a chance de ver ainda. Acho interessante um trabalho de resgate como este, mas eu não faria. Porque a mim incomoda viver do passado e, assim, não to dizendo que eles estão vivendo no passado, mas estão apegados por demais. Estão recriando uma sonoridade que eu já vivi intensamente. Seria difícil vivê-la como se fosse meu dia-a-dia. Mas, eles estão indo muito bem.

JE — Como ouvinte qual é sua relação com a música. Você gosta ouvir o que tá rolando agora?
Júpiter — Gosto sim, mas aconteceu de neste período estar completamente rodeado pelas minhas ideias, porque estou tentando organiza-las. Não que esteja desorganizado, mas estou dando nomes, encarando facetas de cada um dos elementos meus. E isso dá um trabalho. Algumas mudam, outras ficam mais em evidência em algum momento; outras que estavam esquecidas mostram sua importância.

JE — Tem algo que você citaria desta nova cena?
Júpiter— Diria que toda a cena está legal. Essa neo-mod que tem surgido é forte e gosto dos Faichecleres, por exemplo. Eles fazem várias alusões a Sétima Efervescência.

JE — Teus discos são bem resolvidos, acho que por isso você às vezes dá um intervalo maior para lançá-los – e por isso também aquela segurança que falou antes. Cada disco tem o tempo que precisa.

Júpiter — Só foram lançados albuns meus nos quais cheguei ao fim. Realmente é uma prova que me coloco, um dogma. Um disco só vem à tona se traduzir exatamente o que to querendo. Senão seria um desconforto muito grande e dificil de lidar artisticamente. E é o que você falou mesmo: cada um teve o tempo que precisava. Vejo que você conhece bem meu trabalho. Às vezes pode parecer que foi tempo demais, mas acaba saindo, uma vez que eu esteja completamente satisfeito.

JE — E sua relação com a crítica? Não tens muito que reclamar, você é “bem criticado”, né?
Júpiter — É sempre uma surpresa o que vão achar. Eu procuro ficar tranquilo porque é como disse: tem que passar por mim. Uma vez aprovado por mim tudo que tenho que fazer e ficar à vontade, porque afinal de contas fiz o que quis fazer.

JE — Uma Tarde na Fruteira foi lançado no exterior. Como vai a carreira internacional?
Júpiter— É, pela Elephant Records, gravadora espanhola com abrangência em outros países europeus. A crítica tem sido bastante generosa, meus discos estão sendo festejados, o que é lisonjeante. Infelizmente não estou acompanhando de perto, por isso os planos de fazer uma turnê. Mas por hora é planejamento. Issos ainda é recente de certa forma, dois anos de lançamento no exterior. Fiz uma vez um show em Londres, que foi muito legal. Com muitos ingleses e toquei “Marchinha Psicótica do Dr Soup”, que é toda em portuguuês e a letra é o forte, com longas estrofes, sem refrão. E eles realmente deliraram. Acho que é o formato de marchinha, a sonoridade.

JE — E sua postura com internet gravadoras e esses assuntos todos que vivem em voga?
Júpiter — A internet ajuda, mas também atrapalha em alguns pontos. Moeda com seus dois lados. Eu particularmente tenho lavado minhas mãos. Tenho todo um processo criativo, um trabalho que envolve muitos sentimentos, toda fase de composição até chegar a hora de expor o trabalho finalizado. E, aí, já não cabe mais a mim decidir ou ter certeza do que vai ser feito com isso pelo público. É assim que tenho encarado.

JE — Mas você tem um contato direto com os fãs pela internet?
Júpiter — Não tenho. Mas sou muito acessado e tenho consciência que sou um sucesso de internet. Coloco tudo e acabam sendo coisas bastante acessadas?

JE — Não está na hora de um DVD?
Júpiter — Existem planos, mas nada de fato agendado. Mas, concordo que um DVD seria bem vindo.

Serviço
3ª edição do I_CWB – Júpiter Maça, Astronauta Pinguin, Djs Our Gang, Banzai, Delta Cokers e intervenções de rasputines.
Dia 29 R$15.
ESOQF (Av. Rep. Argentina, 1334)
Informações: 41 33420826.

1/26/2009

“Um, dois, três, quatro: isso é a nossa vida”

Jornal do Estado/ Bem Paraná

Divulgação/Guilherme Freitag e Ricardo Jaeger

Este é a Tenente Cascavel, a mais nova banda independente brasileira

Ex-integrantes das bandas gaúchas Cascavelletes e TNT comentam o novo projeto que une músicos das duas formações oitentistas, o Tenente Cascavel

Adriane Perin

O deboche, a adrenalina e as temáticas impertinentes de duas bandas que ajudaram a cunhar o termo "rock gaúcho" estão de volta aos palcos - e com o sabor que só o tempero do tempo confere. Cascavelletes e TNT, grupos que romperam os limites do Sul e arrastaram boa parte do Brasil para dentro de uma sonoridade de sotaque muito próprio e tão forte que, anos depois, já serviu também pejorativamente. Mas aí, eles já estavam em outras esferas sonoras, tratando de construir outras histórias bem rock’n’roll. Márcio Petracco e Luis Henrique "Tchê" Gomes no TNT (guitarras), Luciano Albo (baixo, violão, guitarra), Alexandre Barea (bateria) e Frank Jorge (teclado, baixo, guitarra) n’Os Cascavelletes, fizeram parte disso. Agora embarcam no Tenente Cascavel, que teve sua semente plantada há tempos, como contam Jorge e Petracco.

"Uns dez anos atrás, mas morreu na casca", lembra Petracco, para quem o TNT podia ter continuado na ativa até hoje. Mas, sabe como é, com o tempo, as diferenças afloram e um ou outro acha que tem mais direitos. Hora de ir cada um prum lado. Só pra tumultuar, bem agora que ele engrenou outro projeto, Os Locomotores, vem o Tenente C ascavel e, inesperadamente, acontece. Já está acontecendo sim, porque apenas com dois shows, lotados, na bagagem, o novo quinteto do pedaço já está compondo. "Se vai mexer no passado tem que segurar a onda, não dá pra chegar lá e fazer a mesma coisa. Vivi uma história triste, em 2003 quando nos reunimos pra gravar um ao vivo. Foi exigido que ensaiassemos tudo até perder a graça e rock tem que ter improviso, tem que deixar rolar. Se confio em você, deixo você tocar. Me deu uma deprê... Rock tem que ser: um, dois, três, quatro: isso é nossa vida", desabafa. Agora é diferente, e o tom empolgado enquanto comenta sobre as novas composições não deixa margem alguma pra dúvida.

Esse pessoal se conhecia desde antes das duas bandas existirem, conta Frank Jorge. "Depois cada um teve uma trajetória própria. Nos conhecemos desde o fim da adolescência, época em que descobrimos a música juntos em shows em Porto Alegre", completa o "cascavellete", que também passou por outra banda lendária a Graforréia Xilarmônica e está no terceiro disco solo.

"A idéia de reunir essa turma para tocar esse repertório foi se impondo.E em 2007 fizemos um show com Os Cascavelletes originais que gerou uma comoção e o astral trouxe uma certa vontade e abriu perspectiva para uma continuidade. Daí, acabou vingando o encontro das duas formações, para mostrar esse repertório a um público que só as conhece da internet", observa Jorge. "Sou fã de cada um desses caras. E cada um assumiu o que sabe fazer melhor; até um troço perigoso, que é fazer música nova, tá rolando", emenda Petracco. "Perigoso porque o pessoal vai querer comparar com clássicos, mas tudo bem porque a galera aqui é muito bem resolvida e tem café no bulé para fazer algo à altura. E tem também a estrada, que nos coloca juntos. Se fosse marcar um churrasco sempre um ia faltar, e tocando junto todos se encontram", ri o TNT bom de papo.

Perfil — Petracco gosta de música "desde sempre". E por ela faz de tudo. "Já fiz instrumentos de sucata, trabalho com menor carente, sou tradutor de show gringo; faço o que me chamarem. Sou um operário da música, não um rock star. Costumo dizer que não preciso, mas se tiver que consertar instrumentos vou fazer com a mesma dignidade e prazer de estar fazendo música", garante. As músicas novas ainda não estão nos shows. "O grande negócio é que tem espaço para o improviso. O Tche toca nessa onda. Ele combina comigo: vamos fazer isso, mas não avisa os caras. Na hora, eles se viram"

Olhando para trás, ele avalia que "a gente foi desbravador. Uma banda hoje em dia com um sucesso parecido com o TNT ganha bem". "Era tudo mais complicado. A gente ia longe só pra ver uma Gibson, mentia que estava interessado para poder pegar na mão", diz lembrando o tempo de meninos, entre 14 e 16 anos. O TNT existiu entre 1984 e 1994, em meio a desentendimentos. Petracco acha que foram inocentes. "A gente tinha público no Sul. No Rio e Sampa tinha que fazer playback. Ficar longe de casa deu um nó e quis voltar para o meu lugar, fazer show de verdade e não ficar rebolando pras câmeras. Vendo hoje, talvez devessemos ter insistido. Mas, aí vieram as questões econômicas, pessoas inebriadas e a ressaca. Nessa, depois da coletânea Rock Grande do Sul (NR. com TNT, Garotos da Rua, De Falla, Replicantes e Engenheiros do Hawai), a gravadora investiu em quem, vendeu mais".


“Não queremos concorrer com as bandas de agora“

A Cascavelletes surgiu em 1986 quando Flávio Basso (também conhecido como Jupiter Apple e Jupiter Maçã, sob cujos nomes criou mais uma penca de deliciosos clássicos) e Nei Van Sória (guitarra) deixaram o TNT e se juntaram a Frank Jorge (baixo) e Alexandre "Lord" Barea (bateria) para lançar uma demo que já tinha alguns das canções que virariam seus hits. Em 1988, veio o primeiro LP e no ano seguinte, com um uma grande gravadora soltam Rock’a’ula, produzido por Dé (baixista do Barão Vermelho) e sem Frank Jorge, que foi para a Graforréia Xilarmônica. Neste disco, eles ultrapassaram a região Sul, com direito até a música em trilha de novela, "Nega Bom Bom", em Top Model. O último registro é de 1991, um compacto. O jeito de cantar meio dengoso, as letras hilárias e tratando de assuntos mais intimos , digamos assim, que mesmo hoje não aparecem em canções, como menstruação, ficaram como marca da irreverência dessa trupe que influenciou um monte de gente.

"Nos reunimos iniciamos a elaboração, relembramos o material das duas bandas e fizemos dois shows lotados. E agora, que conseguimos dar certo gás, começamos a trabalhar repértório. É certo que essa história vai ter continuidade, independente de termos outros trabalhos musicais. Temos um entrosamento calcado em uma sólida amizade e está sendo bem bacana, sem nenhum sacrificio"

O que muda tudo, acredita, Frank Jorge, é o amadurecimento das pessoas. "Altera o sentido de trabalhar. O pessoal tem feito uma crítica que considero positiva. Dizem que estamos tocando melhor. É que na época tinha determinada maneira de perfomance, uma energia juvenil. Só que os caras vão evoluindo e acontece uma depuração Mantemos uma pegada forte, mas deixamos a adrenalina dos 19 para chegar um pouco mais ao equilíbrio dos 40, uma mistura com apuro técnico e a energia vital motriz, que é o que faz tocar com convicção", situa ele, que via mais atrevimento na Cascavelletes, mas tem certeza de que as duas bandas se completam.

Sobre o que vem por aí? "Só gravando antes para ver. O que temos feito tá bacana, tem uma pegada rock and rol e estamos com um desafio: combinar simplicidade e elaboração. Mesmo os poucos acordes têm eficiência para transmitir a idéia", observa. Até agora, o assunto gravadora não apareceu. "Nada disso tá bem definido. Hoje em dia não tem como não colocar tudo no my space. Vamos passar por essas etapas todas, não temos pressa, nem regra. Sei que o tempo passa rápido e temos que tentar mostrar serviço, mas não há a ansiedade de gravar correndo. Não tenho a ânsia de concorrer com bandas que estão por aí. Seguimos tocando porque gostamos, todos aqui tem uma linguagem própria e não estão preocupados em eixo Rio-Sâo Paulo, vamos tocar em qualquer lugar, vamos tocar pelo astral", assegura.