11/25/2009

a sua benção, meu Vô Ino



Não lembro exatamente quando o conheci, mas sei que cresci na casa que ele construiu – pelo menos foi assim com um pedaço dela, que lembro, pois em algumas manhãs frias, pra abrir o bar, a gente tinha que passar por dentro de um pedaço da casa sem chão, em construção. Sempre soube, mas com o tempo isso ganha ainda mais força, que foi perto dele, sob sua sombra acolhedora que eu me fiz gente. Ele foi minha maior referência de vida e continua sendo. Sua alegria, sua força, sua sabedoria são sentimentos que vou carregar comigo pra sempre. E é nele que penso, e é com ele que quero conversar(e com minha mãe também, cada vez mais, sua filha guerreira) quando me sinto triste.

E hoje, meu amado Vô Ino está fazendo 80 anos. Meu, 80 anos, 8 décadas fazem desde que esse bebê aí de cima, batizado Aquaelino Perin, veio a mundo para fazer dessa nossa vida algo melhor, mais cheia dos valores que fazem a existência valer a pena, junto com seu irmão gêmeo, Avelino, que não conheci, mas muitas vezes o ouvi falando dele. Meu avô é um contador de causos, cresci ouvindo suas histórias, algumas fantásticas, de um mundo que a gente, temo, não vai ter mais. Histórias de um senhor que ficou de luto, com roupas pretas e uma barba gigante, por meses, se não engano, quando o pai dele morreu. Ele bem que tentou me levar para conhece-lo, acho que na minha primeira viagem longa. Lembro de minha avó me dando banho pra viagem e eu reclamando, a chatinha, e que passei mal na viagem (sempre tive problema de enjôo ao andar de carro). Não lembro da chegada lá, mas sei que meu bisa morreu antes de me conhecer. Tive um sonho quando era muito criança, com um senhor imponente, montado eu seu cavalo com uma daquelas capas que cobria cavalo e cavaleiro num lugar alto e plano ( meio zorro, assim, sei lá), como se olhasse a tudo de cima, atento e cuidadoso... acordei sentindo que tinha sonhado com meu bisa, que era também um pouco o meu avô, de um jeito que não cheguei a ver.

Quando eu nasci, filha de mãe solteira em pleno ano de 1970, foi ele, Vô Ino, que ficou ao lado da minha mãe e que diante da sugestão do médico de que me dessem pra ele, nem quis conversa, conta minha mãe. Ele me levou e a ela de volta a Curitibanos (nasci no meio de uma viagem da minha mãe pra fazer um concurso do Banco do Brasil, em Joaçaba, cidade que não conheço, porque 'minha cidade' é Curitibanos). Foi lá que nasci pro mundo, foi pra lá que ele se mudou, antes, para que os filhos pudessem estudar. Essa foi uma das primeiras grandes lições que cresci ouvindo. E foi de lá, que eles partiram gente feita, trazendo até madeira pra construir suas casas na Curitiba (em Colombo, acho), a cidade que primeiro acolheu meus tios e meus pais, e depois ao meu irmão, minhas primas, a mim, e onde nasceram minha irmã e meus sobrinhos lindos, Gabriel e Gica. Onde fiz minha vida ao lado do meu companheiro especial.

Conversei com ele agora, por telefone. E sua voz pareceu mais forte do que nunca, dizendo que sua parte ele fez, que está pronto pra partir, com a mesma tranqüilidade com que me fez ter forças pra deixar a primeira parte da minha história e vir embora, naquele dezembro de 1984. “Saiba de uma coisa”, disse-me, naquele começo de tarde quando fui ao bar dizer tchau, fraquejando, já cheia de dúvidas se era mesmo a decisão mais acertada: “Só estou deixando você ir porque é o melhor pra você. Senão, você não iria”. Nunca esqueci isso, e muitas vezes lembro,quando sinto as perdas se dobrando. Minha vozinha, a Vô Ina, foi sua companheira de uma vida inteira, que já partiu e espera por ele em algum lugar que não sei onde é, mas acredito de alguma forma que existe esse lugar mágico, onde os espíritos iluminados se encontram pra continuar dando forças pra gente aqui desse lado; ela, naquele dia não quis nem se despedir de mim. Lembro dela com com seu vestido florido e seu avental, com uma toalhinha secando as lágrimas... mas ela não foi ver o carro partindo.

Puxa, já se passou tanto tempo e aquele dia continua queimando em mim, como se fosse ontem.... não lembro de outro dia tão difícil como aquele. Lembro de dor parecida, mas não como aquele dia.

Ele tava certo, como sempre. Eu tinha que vir fazer a minha história aqui.

Nunca me cansei de ouvi-lo repetir as mesmas histórias de sua vida. E o que vivemos naquele bar.... minha escola de vida, ta grudado em mim como uma casca que protege. Ele não mora mais naquela casa, ela ficou grande demais depois que a Vó Iná se foi, pra todos nós. Aliás, foi só depois disso que vi nos olhos do meu avô uma sombra, um silêncio que não eram comuns nele. Ele nunca conseguiu ficar muito tempo longe dela. E quando ela se foi ( em 2001, se não me engano... prefiro não lembrar, embora isso seja impossível) eu temia era por ele, que ele não viveria sem ela porque é um amor tão lindo. “É UM AMOR TÃO LINDO”. Porque continua nos alimentando e servindo como luz no fim do tunel. Nunca convivi com outro casal como eles – que foram meus pais sem nunca, jamais, esquecer de deixar muito claro que eu tinha pai e mãe, sim. Eles sempre foram meus avós. Hoje eu sei que perdi muito do que minha vozinha podia ter me dado, me apeguei ao meu avô sem me dar conta, e deixei um pouco do que a Vó Ina benzedeira, cozinheira, companheira imprescindível na vida de um homem, podia me dar. Por conta do bar, vivi mais perto dele, mas o tempo passou e fui me dando conta, lembrando de detalhes de como é verdade que só parecia que o homem naquele tempo era quem comandava tudo. Mas, na verdade, elas, ELA, é que estava sempre ali por perto dando a força que eu tanto admirava nele. Por isso, pra mim, hoje, eles são um só. Catarina Daros Perin e Aquaelino Perin se tornaram um, do jeito mais lindo que duas pessoas podem conseguir isso. É muito difícil imaginar a vida sem os olhos azuis e as mãos grandes e abençoadas (sim, ele é a única pessoa para quem peço a benção, quase do mesmo jeito de quando era criança – quase porque gente fica besta quando cresce!) do meu avô e agora eu sei que ela ta ali junto, me dando sua benção. E enquanto ele se prepara para sua grande viagem, como sempre fala, como que me preparando para mais essa despedida, só sinto cada vez mais a presença dela nele.

Só vejo cada vez mais como o amor é a coisa mais linda e valiosa desse mundo e como é bom sentir que aprendi as coisas mais importantes que eles me ensinaram, que pode ser resumida em uma palavra: amor. É como eu disse para ele a pouco, batendo na porta dos 40: eu continuo querendo ser como ele quando crescer. Meu Vô Ino querido, queria e devia estar ai pra te dar um abraço hoje, mas até isso você entende e sempre diz quando eu ligo: “Olha, você não esqueceu a gente!”. Até parece, né, vozinho, que isso é possível. Você(s) está (ao) dentro de mim pra sempre. Eu te amo muito, muito muito muito muito... eu nunca vou conseguir dizer ou escrever direito o que sinto... então vou lembrar de uma cena linda do dia do meu aniversário de 39 anos, 24 de outubro de 2009, na pracinha ao lado da minha casa, que tem cara de casa de vó: seus olhinhos brilhando feliz vendo nossa roda de capoeira. Obrigada, mil vezes obrigada por tudo, pela minha vida. (Adri perin)

Meu avô é esse bebê à direita, o mais parrudinho.

5 comentários:

Ana disse...

Adri. Não é possível não se emocionar com a sua história e a de seu avô Ino. Acredito que a benção só devemos pedir para quem nos mostra os primeiros passos do que é realmente o amor. Os poucos, que o conhecem, merecem sim todo o nosso respeito, consideração e admiração.

lurdes disse...

Drica, minha jornalista querida,fico tão feliz e emocionada com teus textos. O Vô certamente ficará tão o mais feliz que eu qdo lê-lo.
Filha, te amo muito e agradeço as Divindades que cultuam em voce o dom da comunicação escrita. È maravilhoso poder e saber escrever,eu sei que não é para todos, eu mesmo, não consigo.
Obrigada filhota, por amar tanto o meu BOANERGES, assim sei que eis feliz na familia que viestes(vc nos escolheu)
Beijos
Mami

Panda disse...

Querida Adri... que vc é oááátima e tem o poder de tocar o coração das pessoas vc já sabe, né? Obrigada por nos brindar com parte de sua história... fiquei realmente emocionada!!! Beijos mil, petit...

Ivan disse...

lindo texto. linda história. parabéns ao seu Aquá.

adri disse...

é ele, o "seu Aqua", é essa família linda, são esses amigos especiais... é isso que dá a base pra gente e esses 80 anos do meu avô realmente mexeram comigo.