6/09/2015

Unknown Pleasures: tocando a distância



Se tem um adjetivo que jamais pensei em relacionar ao nome Ian Curtis foi o de mentiroso. Não, claro que não acho que ele foi um mentiroso. Mas lendo as duas biografias que falam dele, a de Deborah Curtis, "Ian Curtis & Joy Division - Tocando a distância" e a do Joy Division, assinada por Peter Hook, "Unknown Pleasures", me vi diante dessa constatação. O companheiro de banda deixa claro que Ian Curtis escondeu a gravidade de sua doença. Ian também escondeu de sua vida ‘artística’ a mulher, a gravidez e até o nascimento da filha, e tentou esconder sua amante Annik, da mulher e da vida familiar. Mentiu em alguns momentos; e não falou tudo na maioria das vezes. Atormentou-se entre tantos “Ians” todo o tempo, dividido entre as vidas nas quais foi amarrando sua existência. Pra que a banda não parasse por conta da epilepsia, amenizou a gravidade de sua doença, e quando voltava pra casa tinha a esposa Deborah pra tentar recolocar as coisas no eixo. Agora, o que dizer de um rapaz talentoso como ele, no auge da juventude, que tem uma postura machista em casa e que jamais “consuma o ato” com a amante? Peter Hook é claríssimo sobre o assunto em pelo menos duas passagens das 298 páginas lidas até agora. Por conta dos remédios, o sexo, ao que tudo indica, na época em que ele conheceu a belga Annik Honoré e conviveu com ela, não era algo possível. Annik cuidava dele nas viagens e shows. Os ‘muitos Ians’ que ele tinha que administrar eram um tormento que só se dissipava quando estava livre, leve e solto com a banda, em especial no palco.

Nas linhas de Deborah, o tom é sério, pesado, triste e, mais ainda do que magoada, ela demonstra não conseguir entender as razões de Ian. Em Peter, o clima é leve na maior parte do tempo, ácido, cínico, bem humorado e, portanto, muito divertido, engraçado mesmo em algumas passagens. Tem sinceridade nos dois, é evidente, porque é muito diferente ler o livro feito por um biógrafo que esmiúça a vida de alguém e outro escrito por quem viveu, sentiu tudo que conta. Peter fala do talento de Ian, de como a química entre eles e o produtor Martin Hannet levou a discos clássicos. Reconhece erros e faz confissões, xinga uns fdp de bandas, conta as sacanagens – algumas adolescentes e perigosas –, ‘entrega’ os colegas e se entrega também.

Deborah conta sobre o Ian adolescente, garoto certinho, ciumento e possessivo no limite, e incapaz de tomar decisões importantes pra sua vida, em especial as que poderiam ‘manchar’ sua imagem diante da família dela. Tanto que as famílias não tinham ideia da vida complicada que a deles juntos foi se tornando. Me parece que pra mulher de Ian houve a necessidade de contar ao mundo sobre um lado doce, meigo, carinhoso e gentil da história deles. E também o lado agressivo e a relação tempestuosa. (No livro dela e no filme Control tem uma cena que acho muito foda, quando ele confirma, singelamente, que não a ama mais, quando ela tenta outra vez saber o que se passava).
Peter procura ser justo com as duas mulheres e Ian, e reconhece que eles não tinham ideia de muito do que acontecia na vida privada de Ian.

Grosseiramente falando, Deborah mostra o Ian ‘dentro de casa’, e Peter o Ian ‘fora de casa’. E juntos mostram como ao longo de poucos anos ‘esses caras’ vão se transmutando na persona Ian Curtis que se tornou o mito.

Enfim, cenas de uma vida, de pessoas que não são perfeitas, que se atropelam entre erros e acertos e que são atropeladas também pelos acontecimentos e sentimentos. No centro de tudo, a música, que no final foi o que ficou e o que mais importa.

Saio dessas duas leituras com uma imagem um pouco mais completa sobre Ian Curtis. Com histórias de uma turma que virou a música mundial, sobre como alguns caras acreditaram e seguiram em frente. Histórias de como o produtor adorava o fato dos Joys não discutirem com ele, porque “não sabiam absolutamente nada”. As várias tentativas para achar “o” baterista.
Histórias saborosas como de onde Hook ‘tirou’ o som do baixo – desde o instrumento desafinado que soava melhor nas notas altas ou de quando surgiu o afinador, libertando o baixista do mico de ver seu guitarrista tendo que afinar o instrumento no meio de shows, inclusive. Momentos tensos – que agora soam divertidos – como Steve e Peter terem sido suspeitos de ser o estripador de Yorkshire, por conta do roteiro de shows que passou pelos lugares dos assassinatos na época em que aconteceram. “Tocamos nesses lugares porque é nesses lugares que bandas punk costumam tocar”, explicou o baixista. Ou a gravação de um disco de 12 polegadas em um de 7’ e o mico de ter que vender ‘aquilo’ do mesmo jeito porque precisavam de dinheiro.


Mais uma vez, é a história de uma turma de garotos que meio sem saber, meio sabendo, sem querer mas querendo muito, seguiu apostando tudo. Encontrando prazeres desconhecidos e vivendo seus dias juntos, que seriam curtos.

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