7/14/2008

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Catarina era uma menina tagarela, sempre foi. De sua avó sempre ouviu que desde pequena era apegada aos livros. Costumava ficar deitada no chão de bunda pra cima, desenhando, rabiscando letras tortas, de aprendiz ainda, com seu caderno cheio de "orelha de burro" de tanto ser carregado pra cima e pra baixo, sobre a tampa do poço que havia no meio da cozinha de chão de madeira. O hábito de ler de bruços, ela carregou vida afora; o de tentar tratar a solidão com a cara enfiada em um livro também a acompanhou, para ser sacado em dias de não existir, quando tudo o que lhe resta é o silêncio e uma canção.


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Outro dia, passeando na casa dos pais, Catarina encontrou um quadro pintado com a imagem de chaplin e o garoto. Me contou que tem quase certeza se tratar do único presente que restou dos que recebeu do Luis, o Luis do seu Benício, figura de sua infância, um dos primeiros outsiders que encontrou na vida, ainda sem saber. Só guarda na lembrança que aquele rapaz, doente, que morreu logo, tinha algo de diferente. Ele gostava de John Lennon e foi o primeiro que ela conheceu com aqueles óculos redondos. Luis do seu Benício era um artista e ela acha, hoje, que quase ninguém sabia. Catarina tinha que tomar cuidado, não pegava muito bem dar tanta trela para um rapaz, mas como ela, desde pequena vivia mais no meio de rapazes que de moças – embora houvesse mais mulheres em sua família –, era natural que conversasse com eles nas tardes morgadas em que eles vinham jogar sinuca no bar. Essas tardes eram legais. Ela com seus cadernos de estudos espalhados pelo balcão – tomando o cuidado de anotar casa nova partida - e os rapazes do bairro jogando.

Luis, um dos vários filhos de Seu Benício – dono de um dos armazéns e bares das redondezas – era tido como o esquisito. Catarina, por alguma razão, começou a lembrar muito dele nesses últimos tempos. Talvez seja a chegada de uma nova década em sua vida que provoca essa saudade de coisas que, parece, só agora estão sendo descobertas. Da importância dessas figuras de infãncia na sua vida, ela sempre soube. Mas, por algum motivo, elas agora voltaram aos sonhos e mesmo nos pensamentos acordados, aqueles que vêm do nada, no meio de uma canção de agora, no meio de um livro lido enquanto o ônibus chega em casa. E a cada dessas reviravoltas, essas figuras, loucas, voltam com mais força, como que exigindo seu pedaço na história de Catarina. Do Luis, o que lembra muito é isso, dos quadros que ele pintava. E tem a sensação da presença dele, naquelas tardes de conversas surrupiadas. Catarina não era exatamente amiga dele. Ele já era um moço e ela uma criança.Mas era, de certa maneira. E espera, sinceramente, que ele tenha sentido o que ela só se dá conta agora, tanto tempo depois: o quanto foi especial ele estar ali, com sua alma de artista, quando ela ainda não sabia nada da vida, mas intuia a importância do que seria primordial na sua existência: os livros, a música, as artes que nos acordam pra outras sensações (que é feita, também, dos dias que passam e ficam na gente) e, claro, os amigos. (adri)

3 comentários:

André Ramiro disse...

ôrra adri, que bela história!
bjos aí

marceloborges disse...

meu, lindo, lindo, que bom ler isso.

adri disse...

lembranças valiosas que, por alguma razão, estão de volta... mil fantasmas (bons, estes meus)e outros virão.. catarina estão na área....