4/16/2010

DasVelas



Taí. Banda nova no pedaço. Nossos brothers Allan Yokohama, Marano, Fabiano, e Igor, em trechos das gravações do primeiro disco, entre janeiro e março, no RJ, com produção do Carlos Trilha, que trabalhou com Renato Russo, Marisa Monte, etc. Dá pra ver pelo clima das gravações que teremos um grande disco por aí. Também, com essa turma de meliantes ia ser difícil errar. Sucesso moçada!

4/13/2010

Minha bela Graciosa

Ontem toquei os pés na água límpida do rio de pedras que corre ao lado da Estrada da Graciosa. Melhor que isso ainda, ouvi o barulho da brincadeira das águas, em sua ciranda com as pedras.
Elas, como sempre, me receberam de braços abertos, guria da cidade, desajeitada descendo a encosta.
Guria da cidade que veio do mato, e que por isso se sente em casa naquela velha estrada de paralelepípedo, cúmplice do silêncio dos dois.
Quando fui dormir, foi o som daquela brincadeira no rio o mantra que embalou meu sono. Cansada.

Hoje “Quero ser mais nada, demasia é frustração”.
Só quero a minha casa, os braços do meu amor, meus amigos bichos e capoeira.

Queria também ter um rio de pedras pra cantar aquele mantra pra mim.

Mas, puxa que alivio é, também, ouvir uma canção e descarregar essa pilha de nervos de cima de mim.

Radiare - Radiare:
“Quero ser mais nada/ demasia é frustração
me despertando de sonhos a idade toca toda manhã/
horizonte claro posso antever o fim/
que massada é essa
silêncio em que consentes
mente pra mim
Já perdi a vontade de não saber porque brigar
e a esportiva de cair, sorrir e levantar
uma razão pra eu ficar só
é mendigar um tempo a mais
e assim
vou doendo
Radiare espírito/
transcender como um som
suspirar a tarde
e anoitecendo
uma razão
tantos ofícios me encantavam, vigor em dispersão
se escolhas eram por capricho
agora não me troca outra opção
e hoje eu sinto dor nas costas
me restou uma paixão
então...
desviei meu olhar na origem dessa canção
nunca abandonei
sem mais forças para abraçar
tudo em todos vão
vão caber neste coração
(...)"

4/10/2010

cheiro de mato

Não esperava isso hoje. Uma canção. Uma canção do passado. São tantos os discos que passaram por mim e mesmo os que ficaram pra valer às vezes ficam quietos, lá no meio das lembranças especiais que a gente não lembra mas também não esquece. Aí, volta e meia, o Ivan coloca um desses pra tocar... é aquela avalanche. O de hoje foi Verdura, do Blindagem, por razões óbvias.
E de repente eu tava lá. No meio da visão embaçada estava de volta à Casa Verde, uma república estudantil de garotas nas redondezas da UEPG, em Ponta Grossa, no último ano e meio da década de 80. Na garagem da casa antiga morava o Ivan e aquele lugar é uma referência pra nossa turma, um marco: a garagem da casa verde.
oltei pra lá num dia de sol, as portas grandes abertas, o vento solto e o som alto se espalhando pelo terreno todo e indo pra vizinhança próxima. A gente por ali.
Uma sensação de braços abertos se entregando ao vento, bem como me senti algumas vezes fazendo aquele mesmo caminho em direção a minha república, ou indo pra alguma festa, mesmo com o ar gelado ressecando minha boca e me atravessando. Incrível o que a lembrança da gente é capaz de fazer com a ajuda da música.

“Não posso ver sangue/Fico logo vermelho/ Querendo chorar/Não, não posso ver sangue/Fico logo vermelho/Querendo chupar”

Um silêncio estrondoso explodiu segundos depois num soluço seco, quase inexplicável, de um instante pro outro, derrubando com o susto o caderno de jornal que eu lia.
“Não posso ver água, poço, rio, mar/Eu já começo a tirar a roupa/Louco pra mergulhar/ Não posso ver ninguém/Que eu já quero, que eu já quero namorar/”

Entrou aquela melodia que eu conhecia tão bem e não lembrava. E por perto tava também o Eglerson Alan, o amigo que dividiu o fundo (com “cascata natural de chuva”) da garagem, por um tempo. Foi com ele a primeira banda, Flor de Cactus. Não tinha me tocado, mas deve ter sido também a primeira banda que vi tão de perto assim, ensaiando e tal. O Eglerson Alan e seu sorriso aberto. (eu era a única que insistia em chamá-lo pelos dois nomes, ficou tão gravado que acho que se no meio de um povareu ele ouvir alguém chamá-lo assim, é capaz de saber que aquela baixinha ta por perto). Grande cara. Com ele não tinha tempo ruim e tomava porres homéricos e voltava pra casa carregando placas recolhidas da rua. Quase pude ouvi-lo novamente tocando e cantando...
(...) Aí entra o Ivan, saindo do trabalho olhos também avermelhados por suas próprias lembranças que também se revolveram. Só me olha, não diz nada e dá a volta. Ouvimos a música terminar sem palavras.

Quem precisa de palavras quando tem uma canção?

- Puxa vida, balbucio e um soluço baixo, esquisito, ainda escapa junto com a certeza de que na cabeça de nós dois o tempo retrocedeu. Em mim foi uma confusão e eu quase sempre traduzo isso em choro, mas nem sempre a lembranças brotam assim aos borbotões.

“Quando me lembro/ do cheiro do mato/da beira da estrada/de comer pinhão
Lembro do amor/de uma árvore/sem esperar/para ver nascer a flor...”
- ... essa também é...
novamente a música rouba as palavras da tentativa de explicar, comentar algo.

“E vou seguindo/ caminhado, me espalhando/tirando poeira do meu coração
eu vou, eu vou sem olhar para trás/ eu quero ir embora/antes de parar/E vou seguindo
caminhado, me espalhando/tirando poeira do meu coração/eu vou, eu vou sem olhar para trás/eu quero ir embora/antes de parar”

- incrível como este disco parece uma coletânea e não o primeiro disco de uma banda - comenta ele; eu continuo sem conseguir falar.
(...)
- uma boa pauta, contar a história desse disco. é um clássico. Vai fazer trinta anos.
- um bom projeto, um show. Será que eles têm algo em vista – digo, voltando.
- acho que sim, já falaram sobre isso e o Ivo mesmo disse que eles têm que continuar.
- Pô, taí: esse é um projeto que eu gostaria de participar.
Os jornalistas retomaram o controle da situação. Ao menos por agora. (adriperin)

4/09/2010

Meu voo é volta de qualquer lugar: até mais Ivo



Ivo Rodrigues lutou,lutou e agora partiu, enfim. Fico triste. Mas acho que ele vai em paz, como disse uma das últimas vezes que conversou comigo, sobre estar gravando suas músicas solo, antes ainda do transplante, se não faço confusão. Ele disse que tava pronto pra morrer, que tava tudo certo e bem vivido na vida dele. Isso não é pouco. Uma das belas lembranças que tenho de minha profissão é deste cara me deixando emocionada, olhos mareados mesmo ( e a jornalista sem conseguir disfarçar..) num boteco perto da casa dele, que foi o escolhido pra uma conversa sobre o rock paranaense, sua história, da sua banda. Entrevistas eu faço todo dia, mas conversar com alguém que tem uma vida bem forte pulsando dentro de si, não é todo dia não. E saí daquele boteco cheia de vida, certa de que estava fazendo a coisa certa da minha vida também e que, também para celebrar pessoas como ele, tinha que continuar vivendo minha vida daquele jeitinho mesmo. Também lembro de um dia no Bife Sujo em que o ivan pediu pra ele cantar "O Berro" (gravada pela Patrulha do Espaço), uma música muito antiga, que ele não lembrou mas cantou outras, naquele antigo boteco que guardou histórias tantas da turma dele e de outras. foi bonito e triste, porque achava que ele merecia estar num lugar de mais destaque (o que voltou a acontecer depois). Me fez pensar em passado e futuro de novo.
Enfim, o Ivo Blindagem morreu e digam o que disserem perdemos um grande cara. O rock paranaense, sulista e nacional está um pouco mais quieto hoje.

Uma das minhas músicas preferidas entre as que ele canta:

"Sou gaivota por sobre o mar
Meu vôo é volta
De qualquer lugar
Desapareço no tempo, no ar
Antes que um olho
Consiga piscar

Num vôo razante
O que eu vi
Não dá pra acreditar
Dá pra acreditar
Minhas penas tremendo
Me levem daqui
Faço parte do vento
Vou me embora correndo
Se acalme..."
Adri Perin

4/08/2010

Troco o mundo virtual por uma vida real

“Esses dias vi uma banda tocar. Quando saíram do palco, deixaram todo o equipamento deles lá jogado. Eles estavam abrindo para outra banda, mas sequer pensaram em tirar as coisas deles de lá. Eles vinham de um mundo onde você não cuida de seu próprio equipamento. Para mim, o processo é uma parte tão importante da arte. Ele 'é' a arte. Não é só: 'Oh, nossa, que disco bonito' ou 'esse disco soa maravilhoso', é o processo. É o fazer o disco, e o marcar os shows. Eu vejo isso como uma arte”.

Ian MacKaye (Fugazi) – no livro “Não devemos nada a você”, coletânea de entrevistas da revista Punk Planet.

Achei muito interessante esse trecho da entrevista do MacKaye, porque ele acaba abordando um ponto que pra mim tem um paralelo direto com muito dos problemas que vejo na cena independente brasileira, em geral, e na curitibana em particular hoje. É aquela coisa, todo mundo quer posar de artista, mas ninguém quer se incomodar com tudo o mais que envolve o fazer artístico, ou com tudo o que é relacionado com o antes e depois de você subir no palco. A coisa chegou num ponto em que neguinho quer ter banda, quer tocar, mas nunca tem tempo pra ensaiar, pra trabalhar aquilo, marcar show, lidar com as burocracias naturais pra, por exemplo, apresentar um projeto, buscar apoios, patrocínios. A maioria ainda parece querer que outros façam por eles o que eles deviam fazer por si mesmos. E com isso, acaba deixando de aproveitar as poucas oportunidades que existem. Pior, quer fazer música, quer tocar junto, mas não quer se relacionar, não é capaz de reservar um tempo pra tomar uma cerveja junto, conversar, bater papo, falar merda. É o mundo do "virtual", dos relacionamentos "on line", da vida higienizada e sem vida.

Como ninguém é obrigado a trabalhar de graça para os outros, e a maioria das bandas não gera renda suficiente para pagar um produtor/empresário, temos uma equação que não fecha.

Isso também se reflete em uma quase total falta de comprometimento com as iniciativas que poderiam potencializar a cena, e acabam se esvaziando já que se nem os músicos tem interesse no que está acontecendo, como esperar que o público em geral o faça. Isso me lembra também um trecho da recente entrevista do Rómulo Froes no Scream Yell:

“E eu fico puto porque nenhum cara vai ao show do outro. Ninguém foi me ver tocar até hoje. Com exceção ao Bruno, que é muito meu amigo, e tem uns caras novos que eu conheci agora. Curumin nunca foi ao meu show. Catatau nunca foi. Andréa Dias nunca foi. Leo Cavalcanti também não. Só estou falando de todos que eu fui. Porque, cara, você tem que ir! Por interesse artístico, pra ajudar a cena, pra sair de casa. Vai ver seu amigo, porque se você não for ele não vai conseguir tocar mais. Eu fico: “Moçada, tenho uma festa no CB, vamos lá, a casa paga cachê bacana, vai lá ver, vê o bar, vê que a festa é legal, depois você vai lá tocar”. Eu acho foda essa coisa de um não ver o show do outro. A galera gosta tanto que toca junto, grava disco, mas eu acho que tem que ser mais do que isso. Tem que prestigiar. Você não pode ir lá só quando for gravar o disco. Vai lá porque você gosta, e fala pros outros. Isso eu sinto falta, de neguinho não fazer a cena virar.”

O que o Rômulo fala sobre a cena de SP é um problema generalizado que acontece em todo o País, inclusive em Curitiba. Digo isso de carteirinha, porque cansei de ver bandas que iam tocar no Rock de Inverno, e que tinham entrada franqueada em todos os dias, só aparecer no dia e na hora que ia tocar, e muitas vezes, depois disso, virava as costas e ia embora. Ou seja, não se interessava sequer de prestigiar o evento do qual elas faziam parte, e conhecer as outras bandas que iam tocar no mesmo dia que ela. Acho isso uma puta duma demonstração de desinteresse, de egocentrismo explícito, e de falta de comprometimento que diz muito sobre o estado atual das coisas. Repito, se nem os músicos se interessam em conhecer e prestigiar a cena e seus pares, como esperar que o público queira? Ou a mídia, de quem tanto os artistas cobram mais atenção?

Isso sem falar nas bandas que vivem fazendo discursos empolados de “temos que nos unir”, "temos que nos organizar", "temos que ser profissionais" e tal, mas não são capazes de distribuir um cartaz ou uma filipeta para divulgar o evento em que elas próprias estarão. Aí fica fácil. Aí até eu quero ser artista.

Desde cedo percebi que se eu quisesse conquistar algum espaço com minha música, teria que eu mesmo que arregaçar as mangas e partir para a luta. Não tem gravadora, a gente cria um selo, ninguém chama a gente pra tocar, a gente produz os nossos próprios shows, ninguém dá atenção pra o que a gente faz, a gente se junta com mais gente que tem a ver e faz um festival. E mesmo que não tenhamos conseguido tudo aquilo que gostaríamos ou ingenuamente sonhávamos em algum momento, não posso reclamar, pois tudo o que a gente fez foi muito bem recebido, teve atenção, repercutiu e foi muito mais longe até do que a gente imaginava. E isso só aconteceu graças a muito trabalho, iniciativa, da amizade e parceria e esforço conjunto de um monte de gente, ao invés dos costumeiros choramingos, coitadismos e teorias conspiratórias pra justificar a inércia.

Cansei de varar noites gravando CD, imprimindo, cortando, dobrando e colando capas de discos meus e de outros. Perdi a conta dos discos de outras bandas que eu fiz cópia pra mandar pra jornalistas, produtores, etc. E fazer isso nunca foi um peso, um problema, um sacrifício. Pelo contrário, sempre fiz isso com uma baita alegria no coração de saber que eu tava fazendo parte daquilo, vivendo o meu tempo, escrevendo a minha história e a de um monte de gente que eu admirava. Pois como diz o MacKye, isso tudo pra mim era parte inestimável e inseparável do processo criativo e me dava tanta satisfação quanto estar em cima de um palco se apresentando.

Aliás, sempre disse já na época do OAEOZ que gostava mais de ensaiar do que de fazer show. Pra mim era um prazer. Música pra mim sempre foi uma atividade gregária, essa coisa de juntar os amigos e fazer um som, em primeiro lugar. De tomar umas e fazer um churras, e uma jam. Ensaiar pra mim sempre foi a melhor coisa, mesmo quando a gente tinha que ensaiar as 9 horas da manhã de uma quarta-feira, e depois sair correndo pro trabalho. Aquilo pra mim ganhava meu dia. Mais do que uma banda, a gente era uma turma de amigos que curtia estar junto fazendo aquilo, vivendo aquilo. Hoje tá todo mundo ocupado demais com os MSNs, os orkuts, os twitters da vida pra se relacionar de verdade. Alguma coisa se perdeu.

Quando você pensa no pessoal da Tropicália, por exemplo, vê a diferença de atitude, como o próprio Rômulo aborda rapidamente na entrevista. Os caras tavam sempre juntos, e sempre trabalhando em parceria. O Caetano gravava músicas do Gil, que gravava músicas do Caetano, que tinham suas músicas cantadas pela Gal, pela Bethânia, pelos Mutantes, que tocavam em shows do Caetano e do Gil, que falavam dos Mutantes nas entrevistas, etc.

Se a gente for pensar no que ficou conhecida como “Vanguarda Paulistana”, apesar de ser calcada em uma vanguarda paranaense (Arrigo e Paulo Barnabé e Itamar Assumpção, etc), a mesma coisa. Itamar tocava baixo na banda do Arrigo, que tinha o irmão na bateria, que também tocava com o Itamar, etc. Pensando no rock dos anos 80, você via a Legião tocando Plebe Rude nos shows, o Paralamas tocando musicas da Legião, e mesmo depois, já nos anos 90, o Renato Russo usando camiseta do Pato Fu nas fotos para a imprensa. Enfim.

Lembro ainda de quando conheci a cena que rolava no 92 graus, no início dos anos 90, e como havia um sentimento de “comunidade”, de todo mundo se conhecer e de pertencer aquele momento, de tocar junto e ver o show do outro, mesmo que não fosse o seu estilo preferido. O pessoal da Reles via os shows do Boi Mamão, que curtiam os do Magog, que tava lá vendo o Acrilírico. A gente mesmo, eu e a Adri, cansamos de ir ao 92 sem nem saber quem ia tocar naquele dia, e graças a isso conhecemos um monte de coisas diferentes que normalmente não iriamos ver, de Cervejas a Pinheads, e muitos outros.

Hoje parece que tudo virou um clubinho “vip” excludente, um gueto. Todo mundo fechado em seu próprio mundinho de pretensão e arrogância, e falsa autosuficiencia. Neguinho é fã de hardcore, então só vê show de hardcore, o indie só vai no bar dos indies, headbangers só se misturam com headbantgers e daí por diante. O resultado é que a cena toda se fragmentou e se enfraqueceu, se fragilizou, em pequenos grupos isolados que não se relacionam.

Enquanto as pessoas não mudarem de atitude, começando pelos próprios músicos, e se interessarem pelas coisas que estão acontecendo em volta delas, ao invés de ficar apenas lambendo o próprio umbigo, nada vai mudar. Veremos cada vez mais espaços como o 92 se fechando, bandas acabando, pessoas desistindo pelo meio do caminho.

Como disse a Adri, onde estão os novos produtores? A turma que ia fazer e acontecer e mudar tudo? Cansei de ouvir discursos vazios de gente que achava que ia reinventar a roda e na primeira pedra, caiu de boca no chão e não se levantou mais. Enquanto isso, quem ainda continua fazendo as coisas por aqui? Os mesmos “veteranos” de sempre, de gente de gerações ainda anteriores à nossa, como o pessoal da Grande Garagem/BAAF, do JR, do Ciro Ridal, ou de gente contemporânea à nossa turma, de gente que já deveria estar "superada" e substituída por uma nova geração de produtores/iniciativas. Um monte de novas iniciativas que surgiram desde então, naufragaram na primeira onda contrária. O que é uma pena. Alguma coisa está errada. Posso não saber exatamente o que, nem como mudar isso, mas não me sinto nem um pouco otimista. Fala-se tanto em internet, essa onda virtual e tal, mas em certas coisas – eu diria nas mais importantes – nada substitui a presença real, física. Porque sem ela, não há comprometimento, e sem comprometimento, tudo o que fica são discursos vazios, e sonhos frustrados, abandonados pela metade.

Apesar de todo o cansaço, continuo sendo um sonhador. Acho que temos tudo pra virar o jogo, se quisermos. Acho que tem uma galera nova por aí que pode fazer isso. Mas é preciso iniciativa. Do contrário, nos tornaremos todos pessoas distantes e amarguradas. Uma geração sem vontade. Incapaz de dar o primeiro passo e sair da casca.

4/06/2010

92 Graus em situação de emergência

Juliana Girardi

Gazeta de hoje

“Tudo o que dependeu de mim neste tempo todo, fiz com todas as minhas forças e com tudo o que tinha e o que não tinha, porém sem resultados positivos, só balada mesmo, e isto não muda em nada a postura e o futuro de nossa arte, que está à deriva, ainda mais com a nova onda dos covers e pistas de dança que invadem a cidade.”

Essas são apenas algumas linhas da mensagem de desabafo que o músico e produtor JR Ferreira, proprietário da histórica casa de shows independentes 92 Graus, enviou há duas semanas a alguns amigos. Após 18 anos de serviços prestados ao underground curitibano e nacional, o 92 Graus parece dar seus últimos suspiros neste mês. “Estou cansado, pensando mesmo em dar um tempo. Venho tentando encontrar formas de manter o bar aberto de uma ma­­neira financeiramente viável, mas está difícil. Acho que dessa vez, não vai ter jeito”, lamenta o músico, visivelmente triste.

Além das razões citadas no primeiro parágrafo do texto, o desânimo de JR deve-se a uma combinação de acontecimentos infelizes, que vêm dificultando sua vida de empreendedor independente. A primeira e mais preocupante delas é a renovação do contrato do imóvel que hoje abriga o 92 Graus, no bairro São Francisco. A imobiliária pretende dobrar o valor da locação, o que tornaria o funcionamento do bar impraticável. “Apresentamos uma contraproposta e teremos um retorno nas próximas semanas”, explica.

Fora o impasse imobiliário, um pequeno incêndio em um dos banheiros do bar, há duas semanas, complicou ainda mais as coisas, gerando gastos imprevistos. Para completar, JR teve as senhas violadas de suas contas no Orkut e no Gmail, impossibilitando a divulgação dos shows e o contato com as bandas, já que sua lista de e-mails foi totalmente excluída. O prazo de validade do domínio do site do bar (www.92graus.com) também venceu e não foi renovado devido à incerteza se o local continuará aberto ou não. “Tudo o que podia acontecer de ruim veio ao mesmo tempo”, diz.

Como possíveis soluções, JR vem buscando parceiros que possam investir no bar, mas a ideia de “passar o ponto” adiante, por enquanto, lhe parece a alternativa mais provável. “Estou analisando tudo como um negócio mesmo. Penso em vender a marca 92 Graus, que inclui o equipamento para shows e o alvará para bandas ao vivo”, revela.

Segundo o músico, até o dia 27 de abril o bar ainda irá contar com uma programação de festas e shows, que serão divulgados nos próximos dias, marcando a despedida do espaço e, quem sabe, o mantendo “respirando” por mais algumas semanas. Enquanto isso, JR está aceitando ideias e propostas que possam garantir o funcionamento do espaço. Basta entrar em contato pelo e-mail 92graus@bol.com.br.

3/24/2010

"Outra Vez 'De Inverno' Apresenta: A Cena Independente"

"A coletânea, 'Rock de Inverno 7' é um carnaval memorável de máscaras e ritmos posso exergar as batidas de Pete de Freitas, as guitarras liverpoolianas de Echo and The Bunnymen, as gaitas de Culture Club e The Cure (eles tocavam gaitas?) há influências desde Duane Eddy às influências psicodélicas de Ronnie Von e um material choroso digno do cancioneiro de Altermar Dutra a Waldick Soriano! E inferninhos de beira de estrada."

Mário Pacheco - Do próprio bolso

confira a íntegra aqui

3/22/2010

Quando eu menos esperava a vida não falhou em surpreender


Faz dias que não pego o fone e ao ligar o aparelho é Jair Naves que ta tocando. O EP Araguari. Essas canções me acompanharam ao Uberaba, em ônibus lotados na ida, e vazios, na volta. Na ida, me distraíram das freadas e da algazarra da piazada; na volta, nada existia ao redor e pude até rabiscar apressada no primeiro pedaço de papel que apareceu na mão.
A força devastadora da música do Jair Naves já conhecia do Ludovic. Agora, ele joga na minha cara esse disco solo. Não pensei que seria possível, mas é ainda mais devastador que o punk raivoso que ele destilava sob a ‘proteção’ da banda. Aqui, o tipo de força que arrasta é outro. Também confessional, mas de um jeito diferente. A primeira palavra que vem a mente é mais calmo, mas não é isso não. É muito mais pessoal. As letras tocadas pelo Ludovic já traziam os seus (nossos) medos, confissões, estampados a ferro quente em cada braçada, em cada soco que ele desferia, na gente e nele mesmo, se debatendo em sua própria música, em suas próprias confissões, questionamentos e revoltas. Possuído por sua própria música que também nos possuía.
Mas lá, havia mais raiva primal. Aqui, há outros sentimentos. Cansaço, talvez. Uma pausa. Um acerto de contas – ele não ta cuspindo na cara de ninguém as verdades, ofensas merecidas. Agora ele se recolheu. Está cara a cara com ele mesmo – com o que ele viu em algum espelho que só ele vislumbra. Mais sutil, uma casca um tanto mais envelhecida – com aquilo de bom que o passar do tempo traz e também com suas marcas, bem a fundo. Como se passada a ansiedade, a euforia, a excitação e a certeza juvenis, que fervem a gente, sobrassem agora alguns escombros pra mostrar “que a vida passou e eu caí em nostalgia, mesmo de coisas que eu mal vivi, que dizer da inocência que eu deixei (...)” pela vida, no que foi feito dela.
Se antes ele estava em cima do palco com uma puta de uma banda de companheira, agora ele tá sozinho: num fim de noite sentado na beira de uma calçada, resto de cerveja quente dentro de um daqueles instantes cheio de uma certa sobriedade que só na bebida encontramos a coragem - e não se trata de uma escolha - pra ver.
Sei lá... To falando dele, de mim ou de nós? Vai saber..
Não sei para ele, mas pra mim isso lembra outra década chegando – e enfrentando a que acaba! Cara a cara com o que restou dela.

“E agora? O que é este disco?”, rabisquei no pedaço de papel de pão. Mais um acerto de contas com a vida como o são alguns discos? (Ou parecem ser). Um (outro) desabafo de solidão. Um doloroso e saudoso olhar pra trás a sentir saudade até do que não viveu. (Ah, mas eu vivi muito, e bem. Então o que é este disco?).
Um confronto, inevitável, com o que viveu. E o ver no espelho essa outra pessoa que (invariavelmente?) viramos.
Esses anos depois... um voltar pra dentro dos silêncios novos que largamos no caminho. E que nos habitam pra sempre, mesmo que os esqueçamos por alguns dias, instantes, anos, meses. No final dá tudo no mesmo, quando eles voltam.
E às vezes mostram suas mãos apertando a garganta
Por um fio
Bagunçados pelos amores que vemos chegar ao fim
(amores desperdiçados e inconfessos) guardados em diários de letras tão debilmente infantis
Araguari, curitibanos, paranavaí, irati, curitiba ou coronel vivida (não importa)
Com seus desbravadores meninos (e meninas)
Certos de suas certezas, e com seus céus que ficaram perdendo a gente, enquanto nós nos encontrávamos e nos perdíamos por nossas próprias contas.
Mais um disco que não consigo ouvir impunemente.

Começa assim: com uma reza de santa Maria, vozes de palavras duras. Um filme. Simplicidade musical para deixar as palavras se mostrarem em toda sua força.

(adri)

confira abaixo as letras de "Araguari I" - disco solo de Jair Naves.

Araguari I
“As lembranças que eu guardo de Araguari resumem-se ao dia em que fugi,
Caçado de perto por uma multidão, decidida a fazer justiça com as próprias mãos.
Ecoavam sermões pelas ruas dormentes, ninguém nada
tudo impunemente
O abandono é a pior traição, no fim das contas hoje eu te dou razão
Em minha defesa eu apelo ao obvio eu era novo e sem temor, eu tinha o mundo ao meu dispor
Só que a vida passou e eu caí em nostalgia mesmo de coisas que eu mal vivi, que dizer da inocência que eu deixei em Araguari.
Araguari o que foi que aconteceu, fui eu que te pedi ou você que me perdeu?
Foge a minha compreensão, foge a minha contenção mas eu te dou razão
O fato é que eu não sou mais quem eu era antes, eu voltei envelhecido e hesitante, hoje eu quem cuido dos meus pais e as crianças da nossa rua já não somos mais.
Já não somos mais.
Mas eu sinto saudade da nossa banda de cada palco em que pisei
de cada nota que eu cantei. E ainda me dá um nó na garganta pensar no sonhos que eu sonhei, na leveza dos amores que eu desperdicei
Ah, as brigas que eu comprei, meus amores inconfessos
... os sonhos que eu sonhei.”

E depois vem
“Silenciosa”
“passou, passou
Um dia eu me conformo e paro de me culpar
Passou, acabou
Sabe quando você sente que não vale mais a pena lutar, se não deu certo com a gente, acho que nunca vai dar.
Passou, passou
um dia eu me acostumo e paro de te importunar
Passou, acabou
Sabe quando você sente que não vale mais a pena lutar
Se não deu certo com a gente acho que nunca vai dar
Prometo que não demoro, quando estiver pronto eu te aviso
Se bem que eu não incomodo, pode ir agora que eu já não ligo
Só vê se não esqueceu nada e vê se não volta mais
Enquanto eu não me recobro, enquanto eu não estiver
bem
em paz
A cama ficou espaçosa, nosso quarto ficou mais frio
A casa silenciosa não me serve mais como abrigo
E foi consensual nós nem sequer discutimos
Tudo tão civilizado
Nem parecia comigo
Nossos amigos ainda questionam o que foi desta vez, qual a gota d’água, como eu consegui
afastar você de mim
Deve haver em tudo isso alguma lição, algo a ser aprendido, uma compensação pro quanto nós nos ferimos
pro quanto nós nos ferimos

Passou, passou
Um dia eu me conformo e paro de te culpar.
Passou, acabou
Sabe quando vc sente que não vale mais a pena lutar
Se não deu certo com a gente acho que nunca vai dar

E depois: De branquidão hospitalar, queimando em febre eu me apaixonei

“Num cômodo abafado, de branquidão hospitalar, via-se um mar de rostos borrados tentando te acordar. Você zombava desse empenho, da proteção que eu ofereci,
um demônio enfermo de quem eu não consigo me despedir
Delirante queimando em febre, você buscou a minha mão
A esse poder que você exerce eu nunca soube dizer não
Ela viajou como se possuída por um espírito ruim, dizendo prepare-se pra uma guerra eu não respondo mais por mim
E eu tão impressionável
me apaixonei
Eu me apaixonei
Eu me apaixonei.
O que em mim vc reconhece, eu reconheço em você
E no gosto da sua pele, as fraquezas que eu tento esconder
Quando eu menos esperava a vida não falhou em surpreender
E nada mais me entristece agora que eu encontrei você
Quando eu mesmo esperava a vida não falhou em surpreender,
nada mais me entristece agora que eu encontrei você
Não estou só.”

ouça

baixe

3/19/2010

Na mosca

"A audição repetida, valorizada, focada de um álbum que custou caro e que você levou meses para conseguir comprar, é uma experiência completamente diferente de ver um videozinho no YouTube ou baixar 1.000 canções em cinco minutos."

do blog do André Forastieri

3/18/2010

O valor da solidão


Gazeta de hoje
Mário Bortolotto retorna aos palcos com Música para Ninar Dinossauros, peça que estava em produção quando foi baleado em São Paulo

Cristiano Castilho

Foi com "um dedo só, catando milho e com uma dor violenta e constante nas costas" que Mário Bortolotto terminou de escrever o texto de Música para Ninar Dinossauros (confira o serviço da peça), peça que estreia nacionalmente hoje, no Festival de Curitiba. A montagem estava em gestação quando o dramaturgo paranaense foi ferido por tiros durante uma tentativa de assalto na Praça Roosevelt, em São Paulo, no dia 5 de dezembro.

O incidente, diz Bortolotto, não influenciou o destino da peça. “Pelo menos não diretamente”, confessa, em entrevista realizada por e-mail. “Tem sim, um tipo de melancolia brutal que tem a ver com o estado em que eu estava. Um jeito ainda mais descrente de olhar o mundo, mas a poesia sobrevive. Mesmo quando paramos de acreditar, a poesia continua lá, então a gente se permite continuar escrevendo”.

A história, encenada por seu grupo, o Cemitério de Automóveis, questiona a efemeridade das relações conjugais. Põe em xeque, por exemplo, o amor incondicional e sugere explicações várias para o fato de nos aproximarmos – também fisicamente – de outras pessoas. Em outras palavras, Bortolotto valoriza a solidão.

“Acho que as pessoas se juntam porque têm medo da solidão, de acordar no meio da noite e não ver ninguém ao seu lado. Não vejo nada de mais no fato de as pessoas agirem assim. Todos nós temos nossas muletas de sobrevivência. Mas eu gosto muito da solidão. E, quando estou cansado dela, sei onde encontrar companhia”, explica o dramaturgo de 47 anos, também autor de O Natimorto.

São três atores principais em cena, três amigos que rondam os 40 anos e, incapazes de manter relações ditas convencionais com mulheres, procuram garotas de programa. “De um jeito ou de outro, nós dependemos das mulheres pra continuar arrastando nossa velha carcaça bêbada por aí. Somos dependentes crônicos da presença delas”, comenta o autor. Estes mesmos personagens são vistos também 20 anos antes do momento presente – em meio aos anos 1960 e em todas as suas explosões sociais, políticas e culturais. A encruzilhada entre o momento estanque atual e a sensação libertária de duas décadas atrás é o mote principal do texto.

Além do retorno aos palcos e a Curitiba, onde morou por um ano, Bortolotto celebra em forma de parceria criativa sua amizade com o desenhista e escritor Lourenço Mutarelli (O Cheiro do Ralo), que praticamente estreia nos palcos como ator. “A motivação principal é que ele é meu amigo, e só trabalho com amigos. Além disso, é um ótimo ator. Para mim, é uma grande honra contar com ele no elenco”, elogia Bortolotto, que também dirige Paulo de Tharso.

Mesmo com algumas limitações físicas devido ao incidente – ainda há problemas de movimentação dos braços, por exemplo –, o dramaturgo nascido em Londrina continua trabalhando. “Eu trabalho ainda mais, mas muito mais devagar. Para um texto que eu escrevia em dez minutos, hoje estou levando uma hora”, exemplifica o autor, também integrante da banda Saco de Ratos Blues.

E, além de sua peça em cartaz no Sesc da Esquina, talvez se­­ja possível vê-lo nos palcos em outro tipo de performance. Gosto muito de vir tocar Rock-and-Roll em Curitiba. Espero que a gente consiga lançar em breve o nosso CD por aqui”.

Serviço

Música Para Ninar Dinossauros.

Teatro Sesc da Esquina (R. Visc. do Rio Branco, 969), (41) 3304-2222. Dias 18, 19 e 20, às 21h. R$ 45 e R$ 22,50.

3/12/2010



Reprodução

Homenagem de Caio Futur

do estadao

Glauco foi líder religioso amoroso, mas exigente com discípulos

Da folha online

RICARDO FELTRIN
secretário de Redação da Folha Online


"Eu vi o meu povo amarrado
Todo acorrentado por falta de amor
Minha mãezinha estava comigo
E me sustentava com seu grande amor."


(Chaveirinho, "Águia Dourada", hino nº 15, por Glauco Villas Boas)

Uma vez Glauco sonhou que a igreja que ele criou, a Céu de Maria, no Jaraguá, era invadida por pessoas que fugiam de São Paulo. No sonho, contou Glauco, as pessoas fugiam da cidade desesperadas, por causa da violência, e ele temeu não ter como ajudá-las, pois eram muitas.

Glauco relatou esse sonho durante um ritual em 2000, no dia em que recebia e celebrava a iniciação de mais um grupo em sua igreja, na chamada cerimônia de "fardamento" --quando os fieis são oficialmente iniciados na doutrina.

Glauco ganhou o título de padrinho ao fundar a igreja Céu de Maria em meados dos anos 90, mas sua origem religiosa é muito anterior a isso. Ele contava que teve a primeira epifania mística ao ler livros de Carlos Castaneda, escritor e guru de uma geração, e autor entre outras obras do clássico "A Erva do Diabo". Definia Castaneda como o grande marco em sua vida.

Antes do Daime, Glauco frequentou centros de ensino esotéricos como Rosacruz, Eubiose e teosofia. Ele tomou o daime pela primeira vez na igreja fundada pelo escritor Alex Polari, na montanhosa Visconde de Mauá, no interior do Rio de Janeiro. Logo no primeiro trabalho diz ter visto "a luz" que modificaria sua vida para sempre. Começou sua caminhada como mestre reunindo um pequeno grupo de amigos em uma casinha no Butantã (zona oeste de SP).

Era lá que todos tomavam a amarga bebida sagrada, enviada pelos pioneiros da Amazônia, bebida feita da folha de planta chacrona e do cipó de mariri, e cujo preparo é também um ritual em si, chamado "feitio", e que pode se estender por até um mês. Glauco costumava se referir ao daime como "o vinho da floresta".

Para os vizinhos do Butantã, no entanto, não havia nada de sagrado nas celebrações, e era comum os trabalhos terminarem com a presença profana da polícia. Glauco, no entanto, teve sua missão reconhecida pela igreja central do daime no país, o Céu do Mapiá, no Acre, e com a benção de suas lideranças montou a própria igreja num grande terreno adquirido próximo ao pico do Jaraguá.

Com seu próprio suor, da mulher Bia e dos filhos de ambos, a Céu de Maria cresceu e, em alguns rituais, reúne mais de 300 pessoas, vindas de várias partes do mundo. Glauco, o padrinho, era querido e amável com todos, comandava os trabalhos no centro da igreja, sentado em um banquinho, acompanhando os cânticos com seu acordeão escuro.

De seu posto central, apenas usando o olhar, era capaz de agradecer ou admoestar o daimista ou visitante que estivesse ajudando ou atrapalhando o trabalho. Da mesma forma que era um líder carinhoso, não hesitava em interromper o ritual e ralhar com toda igreja quando notava falta de concentração ou dispersão.

Além de líder religioso, Glauco também era compositor e deixa para a doutrina que abraçou dois grandes hinários de fé, um conjunto de cânticos, como o descrito nos versos publicados no alto deste texto.

Esses dois hinários, o Chaveirinho e o Chaveirão, foram cantados anteontem à noite, dia de seu aniversário de 53 anos, quase no mesmo local em que ele partiu nexta sexta, vítima da violência que ele intuiu em sonho, mas não pode evitar na realidade.

Seus dois hinários serão cantados novamente hoje, em todas as igrejas daimistas do país, e voltarão a ser cantados todos os anos nesta mesma data, em memória à partida de Padrinho Glauco.

"Mataram o Glauco. Morremos um pouco também."

Não consigo acreditar, nem elaborar o que dizer sobre essa história do Glauco. Prefiro reproduzir um texto de um blog (Querido Leitor, de Rosana Hermann) que eu nem conhecia, mas que expressa perfeitamente o turbilhão de sentimentos que me atinge diante disso:

"Não consigo acreditar, assassinaram o Glauco. O Glauco, o cartunista, o criador do Geraldão, um cara do bem, da paz. Assassinaram ele e o filho dele. Na casa deles. A família em casa.

Vontade de chorar, de xingar, de berrar: mundo de merda, país de bosta, violência filha da puta.
Filha da puta.
Não dá pra fazer por menos, expressar por menos.
Assassinos, covardes, desgraçados.

O Glauco tentou negociar. Conversar. Como é que se conversa com monstros?

Glauco tocava sanfona em sua igreja do Santo Daime. Fui lá algumas vezes. O daime é recomendado para algumas pessoas viciadas em drogas, que tentam largar o vício e procuram paz, um ritual. Fui acompanhar um conhecido.

Fui lá. Tomei o Daime.
Glauco tocava sanfona, todos entoavam hinos. Homens de um lado, mulheres de outro. Tudo tão simples, tão intenso.

O Daime é feito de raizes, uma mistura. Essa mistura teve um efeito forte em mim. De tudo, uma palavra se fixou: firmeza.

Firmeza de fé, firmeza de caráter, de alma. Firmeza. Em todos os cantos, ela volta. Firmeza.

E agora minha firmeza se abala, verga como vara ao vento. Glauco foi assassinado. O o filho. De vinte e cinco anos.

Eu sei, vão dizer que muita gente morre no Brasil e que só comento porque ele era famoso. Cara, não é por isso. É porque ele produzia coisas pro mundo, porque era pai, marido, amigo, porque era simples e centrado, bom e justo. Porque era da paz. Porque tinha firmeza.

Dá raiva, dá revolta, dá vontade de chorar, de ficar puta da vida. Mas é hora de ter firmeza, de dizer o que se pensa, de ter coragem.

E é isso que quero dizer agora. Temos que buscar essa firmeza.

Temos que ser firmes na hora de punir esses assassinos. Firmes para lutar contra as injustiças, a corrupção. Firmes para enfrentar a chaga da violência e combatê-la em todo lugar. Todo lugar.

Firmes.

Assassinaram um pai. E um filho. E com eles, morremos todos um pouco.

Firmeza.
Ou a gente dá um jeito, ou vamos todos pro saco."

Superguidis lança terceiro disco

Foto: Thiago Piccoli

Nosso brother e parceiro Fernando Rosa, grande "capo" do Senhor F nos envia material sobre o novo lançamento do selo. E como o Fernando aqui não pede, manda, confiram abaixo.

A banda Superguidis realiza o lançamento nacional de seu terceiro disco neste próximo dia 20 de março, com show em Santa Maria (RS), no Macondo Lugar, responsável pelo festival independente mais importante do estado. O álbum traz 11 canções assinadas por Andrio Maquenzi e Lucas Pocamacha (veja abaixo) – Superguidis é Andrio (vocal e guitarra), Lucas (guitarra e vocal), Diogo Macueidi (baixo) e Marco Pecker (bateria). O disco vem assinado pelos selos Senhor F (casa da banda desde a estréia, em 2006) e por Monstro Discos, o maior dos independentes nacionais. A produção é de Philippe Seabra, com mixagem do americano Kyle Kelso e masterização de Gustavo Dreher. A arte é de André Ramos.

O novo disco aponta para a consolidação da banda no cenário independente nacional como uma das mais criativas e produtivas entre as revelações dessa segunda metade da década que passou. Fiel e, de certa forma, parceira na construção da platafaforma independente, a banda gaúcha também tratou a internet como grande aliada. Com isso, tornou-se conhecida nacionalmente, o que abriu as portas do festivais e casas de shows, do que é exemplo a largada da turnê pelo Norte do país, com shows em Manaus, Porto Velho, Ji-Paraná e Vilhena, além de Cuiabá, Goiânia e Brasília.

Além de ter seu disco de estréia figurando em listas de melhores da década, e de ter seu show considerado um dos destaques do rock atual, a banda desenvolveu uma sólida carreira discográfica. Segundo eles, além da circulação, e do constante aprimoramento dos shows, discografia e repertório autoral são fundamentais para afirmar a banda no cenário independente nacional. O disco-bônus contendo show acústico (veja abaixo) realizado em Porto Alegre, em maio passado, é demonstração da quantidade de hits acumulados pelo quarteto. Apenas duas canções, do conterrâneos Prozak, não são de autoria da banda.

Sempre destacada por produzir "indie em português", neste terceiro disco o grupo afirma definitivamente sua linguagem particular, por meio de flashes poéticos e desencanados, identificada com uma visão de mundo do jovem suburbano desses novos tempos. Natural de Guaíba, cidade operária e dormitório de Porto Alegre, a banda traduz de forma universal o cotidiano do jovem que anda de ônibus/metrô, tem a "simplicidade de um tênis furado", faz uma faculdade pelo ProUni, mas que, mesmo com internet discada, corre atrás de informação.

O novo disco também premia as escolhas e estratégias de carreira da banda, que afirma-se no cenário nacional apostando na plataforma independente, sem afastar-se de sua realidade vivencial. A parceria dos selos Senhor F e Monstro Discos, assim como a presença de Fabrício Nobre (Macaco Bong, Black Drawing Chalks & Lucy and The Popsonics) como seu novo agente nacional, fortalecem o potencial de crescimento da banda, que conta com público em todas as regiões do país.

Baixe aqui o single: "Não fosse o bom humor"

3/10/2010

Just tell me about your life in art...

Muitas vezes cheguei em casa depois do trabalho satisfeita, com a sensação de missão cumprida, por conta de um bom papo que rendeu uma boa reportagem, ou simplesmente por conhecer uma pessoa com história de vida incrível – ou por falar com um artista importante para a cultura brasileira e pra minha própria vida. Mas, essa rotina boa sempre teve por perto o outro lado. A frustração, a confusão, a insegurança, o peso de sentir-se aquém do que gostaria. O cansaço ruim de sentir que poderia ter feito melhor ou o desgaste por ter que lutar tanto, gastar muita energia, pra argumentar sobre o que não deveria nem precisar de argumentação. Ou pior, o cansaço diante da expressão de ignorância de pessoas que não tinham o direito de exibir aquela ignorância, aquela arrogância... jornalismo cultural – uma das minhas paixões. Agora, estou em suspenso nesta área. To fora de jornal e por alguma razão não tenho sentido mesmo muita vontade de escrever sobre nada (bem, não é bem assim...). To fazendo um trabalho bem técnico.

Acordo cedo, vou pra uma sala com pessoas simpáticas, mas o assunto não provoca o menor envolvimento. Ouço, recebo instruções e faço o que pedem. Raras, muito raras, foram as vezes em que trabalhei assim....

E sabe, que pelo menos hoje, estou gostando?!!!!! Quem sabe não estava precisando mesmo dar essa descansada. Desde 1995 não ficava em casa mais de um mês, sem trabalhar, sem estar correndo pra chegar no horário para alguma coisa. E nem sei quanto tempo não chegava em casa sem esse peso – que às vezes é bom, sim – que a entrega incondicional provoca. Sempre fui do tipo que veste a camisa, que não conseguia parar de pensar no trabalho, simplesmente porque o trabalho que eu fazia era também a minha vida.

Nesse momento não é assim. Esse trabalho é um trabalho. Só isso. Acho que, finalmente, estou conseguindo refletir mais claramente sobre a minha profissão de repórter com mais distanciamento, sem ser tão passional. Depois de 3 meses sem “fazer nada” a não ser curtir meus bichos, meu amor, minha casa e a cidade.

Me sinto estranhamente calma, como se minha vida profissional estivesse mesmo em suspenso por um tempo. Não sei se vou voltar pra Cultura. O que sei é que neste momento minha ida pra algum jornal nesta editoria soa impossível. E isso não está me incomodando, tanto, embora me entristeça. Sigo aqui, ouvindo nossas canções perfeitas, enquanto reescrevo um texto frio, do jeito que querem que eu escreva. Básico do básico, sem maiores preocupações. Isso é tão raro na minha vida profissional que nem lembro quando aconteceu - se é que aconteceu.

Puxa vida, então é mesmo possível fazer jornalismo, reportar sem por a alma e o coração em cada linha? To aprendendo que sim. Se isso é bom ou ruim? Eu desconfio que não é bom, mas me parece que neste momento isso está me fazendo bem. Então vou terminar aqui, ao som da “nossa canção doce” a perfeita, My life in Art. (Adri)

3/05/2010

Hoje


Hoje me afastei da vida que sempre quis
por um pedaço de um triste afeto
eu me dei conta
de um certo olhar
certa vertigem
algum lugar

hoje despertei perto de mim
e decidi não mais sofrer
o que é o sofrer?
Não mais sentir
eu me despi da fantasia

hoje é mais um dia
hoje é mais um dia
hoje é mais um daqueles dias

2/27/2010

Hotel Avenida procura

E a Hotel Avenida está a procura de alguém pra tocar baixo com a gente. Nosso amigo e parceiro Igor Ribeiro terá que se dedicar este ano a outros projetos. Ainda esperamos contar com ele para participações sempre que sua agenda apertada de artista requisitado permitir (rs), até porque o Igor é tipo coringa, e pode tocar vários instrumentos diferentes, mas precisamos de um baixista fixo pra poder tocar as coisas pra frente com mais tranquilidade. Portanto, quem tiver interesse ou souber de alguém que tenha, é só entrar em contato pelo email deinverno2@gmail.com

2/23/2010

“Ainda é cedo amor Mal começaste a vida.....

To fazendo um frila sobre o mais novo trabalho que envolve o pessoal da GGG, Rodrigão e Ferreira, junto com o Samuel Lago. Trata-se da digitalização de entrevistas incríveis feitas pelo jornalista Aramis Millarch, aqui mesmo em Curitiba, com várias pessoas importantes da música brasileira. Ele levava os caras para casa dele e as conversas, bem naquele clima que a gente conhece, amigos tocando, batendo papo. Só que os “amigos”, os “chegados” eram Vinicius de Moraes, Toquinho, Mutinho, tem Cartola recitando; tem Paulo Leminski e Maysa falando e falando; Elis Regina idem... enfim... o que eu ouvi, não tem só valor pra história da música brasileira. Pra mim, só reafirma que o jeito de fazer é assim, valorizando o que temos por perto.
É emocionante ouvir uma gravação, como essas que a gente faz aqui em casa, com Vinicius, Toquinho, Mutinho e Azeitona cantando “nós somos os quatro mosqueteiros musicais”...
Esse Aramis Millarch era um figura, ao que tudo indica. Oferecia tudo do bom e do melhor e levava o “povo” pra casa, pra continuar o show so pra diretoria... Ah...como eu amo esses climas. Claro, guardadas as devidas proporções, isso me lembra muito o clima nas nossas casas do Campina, Casa Azul, na fase áurea da De Inverno, quando os ensaios d’OAEOZ viravam pequenas reuniões de pessoas muito especiais e passávamos horas e horas ali...
assim nasceu o Dusty (e assim que temos o original, o momento de nascimento, de Meg e John), de Pular (que, tenho fé, será agora novamente resgatada) e tantas outras que tão guardadas nas nossas fitas cassetes, presentes pra gente do Ivan, que sempre, sempre teve essa coisa de gravar tudo (agora ele pega no meu pé porque eu quero ficar gravando tudo,né???!!!!). Letras do Rubens, musicadas pelo Ivan. Escritos do Igor que fizeram também a fase inicial d’OAEOZ... até uma noite do rock de inverno... vejam só..., aconteceu lá em casa...
Quem sabe esse clima vai voltar aqui pra casa do Abranches, agora. Já tive duas tardes com o Hotel Avenida na minha “sala de jantar”... hahaha.... Muito bom.

Mas, voltando ao Aramis Millarch: acessem: http://www.millarch.org/
Lá tem parte dos 50 mil artigos escritos por ele e, especialmente,os audios restaturados de entrevistas que estavam em 2 mil fitas de rolo. Tem verdadeiras preciosidades. (adri)

2/21/2010

Hotel Avenida na Radio Microfonia

Radio Microfonia é uma radio online especializada em rock independente nacional, iniciativa muito bacana de um pessoal do RJ, e que surpreende principalmente pelo bom gosto na seleção de seu playlist. Com explica essa matéria entrevista no Senhor F, "a rádio também tem um site, onde destacam-se matérias sobre bandas independentes, um "top ten" e links para pedir e enviar músicas".

E o mais legal pra nós é que a Hotel Avenida já está na programação da rádio, com três canções, o single "Eu não sou um bom lugar", e as versões ao vivo de "Só o amor pode partir seus joelhos", e "Um centavo". Liga lá e confere porque tem muito mais coisas boas rolando na programação que vale a pena conhecer.

2/05/2010

De volta ao oeste

foto by yadayada

depois de muito tempo a gente finalmente saiu da toca ontem pra ir no show da banda Gentileza no James. E os caras fizeram uma apresentação impecável, com direito a casa lotadaça e galera cantando junto e dançando animadíssima em clima carnavalesco. Alias a lotação, o calor e a animação me lembraram os áureos tempos do antigo 92º.
Muito bom ver uma banda relativamente nova com esse domínio de palco e tocando um repertório próprio com a plateia nas mãos. Uma prova da vitalidade da cena local, apesar de todas as dificuldades e dos mau amados de sempre, afinal "sempre tem gente tentado puxar pra baixo", mas enquanto eles tão fazendo isso, quem realmente importa tá fazendo o que interessa: música boa, pra ser ouvida e apreciada, com alegria e despretensão, livre de discursos vazios, filosofias ocas e picuinhas politiqueiras.
Vejo alguns comparando o trabalho deles com Los Hermanos. Por mais que a comparação até possa ter algum fundo de verdade, acho ela raza e superficial. Afinal, ao contrário do que acredita a geração 00, não foram os losermanos que inventaram a fusão de rock com música brasileira, samba, etc. Isso é o mesmo que aquela história de querer comparar qualquer banda que tocasse rock brasileiro com letras reflexivas em portuguès e com violão a legião urbana, que acontece sempre. Além disso, os Gentileza tem uma ironia que é tipicamente curitibana, e que os cariocas barbudos não tem. e que pode ser encontrada também em outros grandes artistas da cidade, como os BAAF-Maxixe Machine, ou Carlos Careqa, ou mesmo no trabalho do Leminski. Um que de não se levar a sério se levando, mas sempre com uma capacidade de autocrítica que poucos tem.

enfim foi uma noite bem legal. mas confesso que apesar de ter me divertido bastante e ter valido a pena, cada vez me sinto mais anti-social, com menos saco pra certas coisas que implica "sair à noite". tipo ficar meia hora em uma fila do bar pra conseguir uma bebida, etc. nunca fui lá muito de boêmia. mesmo quando mais jovem e ainda solteiro já era do tipo que preferia reunir os amigos em casa do que frequentar bar. e com a idade, o casamento, etc, fiquei ainda mais caseiro e com menos vontade de "frequentar". e essa história de lei antifumo só piorou mais as coisas.
mas tem hora que vc tem que se obrigar a sair porque senão começa a ficar neurótico depressivo. e no final das contas depois que vc tá lá e encontra os amigos acaba valendo a pena. principalmente quando ainda tem a chance de ver um show tão bacada de uma banda na ponta dos cascos como os Gentileza.

e que venha o frio! ahaha