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11/06/2009

Mais uma Granada do La Carne

Jornal do Estado/ Bem Paraná

La Carne apresenta o repertório de Granada, seu disco mais poderoso, até agora (foto: Divulgação/Edson Kumasawa)


Banda de Osasco mostra as novas músicas hoje no 92 Graus

Adriane Perin

A banda La Carne, de Osasco, está em Curitiba hoje para mostrar o repertório de um dos melhores discos do ano. Granada, quarto trabalho da banda, que se apresenta no Espaço Cultural 92 Graus, ao lado de Folhetim Urbano, Gruvox e Popstars Acid Killers, de São Paulo, tem um nome bem apropriado à história e à postura de Linari, Jorge, Carlos e Chicão. Granada é o sucessor de outro petardo, Desconhece o Rumo mas se Vai, e conseguiu ser ainda mais devastador - ou alentador, dependendo do olhar.

Uma história musical que iniciou em meados dos anos 90, e no começo, lembra Linari, eram os sonhos comuns a todo iniciante de fazer a vida na música, ter seu trabalho reconhecido - também por uma gravadora com força para dar suporte. Mas, o tempo passa, a realidade provoca e depende de cada um, a reação. A do La Carne foi seguir fazendo uma música como ninguém mais faz, de um vigor que namora o violento, calcado numa realidade ou situações mais fáceis ignorar. Nas músicas, Linari - um professor de História que leva pra cima do palco toda sua (ou seria nossa?) fúria, ainda que seja um cara gente boníssima - canta “cenas” que nos contam sobre um mundo que vive nas bordas. As ansiedades, as sacanagens que a vida apronta, o que lhe incomoda, ele transmuta em letras certeiras que explodem e implodem, se jogando na cara com força capaz de derrubar.

Se o compositor e cantor considera os trabalhos anteriores “manifestos”, com este Granada bate à porta uma certa maturidade. “A constante referência às letras me orgulha, claro, mas sempre tive um desejo íntimo que enxergassem no som a mesma ousadia que vejo; e isso, agora ficou muito evidente. Em comparação aos outros, desta vez repararam mais nisso também”, observa, com razão, afinal é o trio de instrumentistas feras que dá as bases tão perfeitas, com um equilíbrio tenso, para as histórias que Linari canta. Ajudou para isso, acredita o compositor, a produção de Bill Reinikova, amigo do tempo de escola e integrado ao circuito Grammy. “Grande parte do mérito deste disco é dele”, avalia, tentando se “eximir da culpa”.
Antes de mais nada, no entanto, teve a confiança de Wellington Dias, do Zine Gramophone, um seguidor da banda que motivou os rapazes. “Os anteriores foram feitos num “esquema guerrilha”, diz. Bom Dia Barbárie e Desconhece o Rumo Mas se Vai, em sua visão, são discos mais de um gueto político que artístico. “Na época não era tão evidente que as gravadoras estavam falidas, hoje é bem chique e todo mundo fala isso. Depois que gravamos o primeiro e não tivemos o retorno que imaginávamos nos perguntamos e agora?”, lembra. “Pra gente sempre foi muito mais prazeroso tocar junto do que fazer planos profissionais. E não somos virtuoses, viemos do punk rock, somos de pegar estrada junto”. Se a gravadora esperada inicialmente não veio, vieram fãs que espalharam a boa nova sobre, não uma nova “bandinha indie”, mas uma banda de verdade. Que faz música pra gente grande! Que não surfa na moda, não tem uma moçoila simpática na linha de frente, nem rapazes com seus cabelinhos bem penteados, mas tem o que ainda interessa para muita gente: música de verdade, que acerta em cheio.

Granada – lançado pelo selo Senhor F – está com boa repercussão “nesse nosso pequeno mercado alternativo. Recebemos muitas palavras carinhosas”.
Já a “outra mídia”, é indiferente. “Se voce me perguntar porque, não vou te responder porque não convém a mim julgar. É evidente que no meu íntimo penso mil e uma coisas. Imagino que não vejam relevância no que fazemos”, investiga, com a tranquilidade absoluta que vem da segurança de quem sabe que é isso que quer.

Certa vez um amigo puxou papo sobre o La Carne com um desses grandes jornalistas nacionais, que já havia falado bem da banda, conta Linari. Ele disse que o tempo do La Carne passou. “Falando bem desapaixonadamente, isso tem sentido. A gente sempre foi ruim de mídia”, diz. Postura assumida no texto pessoal do encarte do disco anterior, que com suas palavras deixava às claras as intenções. La Carne não nasceu para fazer tipo. Muito menos pra frequentar. Hoje, Linari pondera. “Não sei se foi correto, mas na época havia muita pressão em cima da gente e escrevi como um manifesto de intenções. Porque é muito fácil alguém bater na testa da gente carimbos incomodos, como uma banda injustiçada e detesto isso”, diz, comentando entrevista que viu recentemente de Tom Zé, que o fez chorar. “Confesso, me identifiquei quando ele disse que ninguém tem culpa de seu ostracismo, porque ele sempre teve um pouco de vergonha de ser artista. Porque de onde ele veio, bater no peito e dizer que é artista é complicado. Talvez isso revele essa inabilidade de se vender”, pondera.

La Carne toca com velhos amigos daqui. Folhetim Urbano está em vias de terminar seu disco de estreia e Gruvox se prepara para os primeiros shows em Sampa. Flavio Jacobsen embarca naquela direção logo após o show. Ele também vai aproveitar para terminar dois clipes da Gruvox, assinados por Renato Larini, um músico curitibano que voltou a pouco de Londres e agora vivendo em São Paulo. “Onde a fome espanto” e “demasiadamente humano” foram filmados em Londres. A noite vale ainda para conhecer o som da Popstars Acid Killers.

Serviço
La Carne, Popstars Acid Killers, Folhetim Urbano e Gruvox. Dia 6. Espaço Cultural 92 Graus
(Rua Des. Benvindo Valente, 280 – S. Francisco) R$10 e R$5 (mulheres até as 23h)

10/09/2009

Um lugar onde eu possa me atrasar

da Piracema dessa semana

Adriane Perin

Colocar a primeira música de um disco – seja de uma banda conhecida ou de uma completa estranha - e já se sentir uma fisgada no estômago é algo cada vez mais precioso. Sentir o prazer de ouvir outra vez e outra, e ir rapidamente identificando minha música preferida pra logo em seguida perceber que essa lista não é fácil, porque tem outra, e mais outra, é daqueles momentos reveladores. Me faz pensar no que já caminhei, dá uma vontade tão grande de continuar; traz uma segurança que se opõe diretamente a esse trator que a vida no meu tempo se transformou, cheia de pressões que imobilizam e causam cansaço existencial. Quando isso acontece é porque tenho em mãos um disco que me faz chorar e rir porque fala de mim mesma falando de outro. Toca nos meus machucados, lambendo a ferida aberta de outro alguém. Traz as minhas minhas lembranças - e isso é tão absurdo porque eu sei que não são as minhas lembranças que estão sendo cantadas ali. Mas são - fazer o que? Mesmo que quem escreveu não tenha a menor ideia de quem eu sou. É essa a magia. Só que não é tão fácil encontrar isso no meio de tantas inversões de valores. Porém sou otimista, e só tenho que ser, afinal sou eu que faço a trilha sonora da minha vida – não deixo que uma rádio ou televisão quaisquer façam isso. Há muitos anos, quando eu engatinhava no jornalismo conheci uma banda de Campinas. Quisemos – eu e Ivan - trazê-la pra o Rock de Inverno 3, o primeiro que tivemos verba pra tal, mas cheguei tarde. Quando a conheci eram os anos 90 e o tal do “guitar” imperava soberano, com as bandas independentes brasileiras cantando maciçamente em inglês. Então ouvi Astromato. E, resumindo, ainda hoje mais de 10 anos depois, aquelas canções continuam muito boas. Daí, eis que semana passada, acho, um disco começou a rodar lá em casa. Quem é? “Radiare”. Radiare? Me lembra Violins e Astromato. “É a nova banda do cara do Astromato”. Caraca ! Peraí... é Violins que lembra Astromato. Vamos organizar as coisas. E, por conseguinte, é Violins que lembra Radiare e não o inverso, apesar dessa banda ter nascido este ano e Violins – uma das predilétissimas da casa e que, não por acaso, deu seu pulo do gato quando passou para o português – já ter acabado e voltado várias vezes. Porque Radiare é uma “evolução” de Astromato. (Entre aspas, porque não é exatamente isso, mas sim um outro momento de alguém que escreve muito bem e faz musica muito bem). A conexão tá toda ali: nas guitarras, no baixo, no cantar, na bateria, tudo na primeira audição remete ao Astromato. Não é a mesma banda, mas afetivamente, sinto como se o Astromato recomeçasse de onde parou - e melhor. Falando das coisas que fazem parte dos dias de seu compositor hoje. Enfim, a vida passou pra ele e pra mim e por isso ouvir esse disco agora me toca de uma maneira ainda mais especial que o Astromato tocava. Radiare chegou em algum canto, daqueles que provocam umas sensações estranhas e revitalizadoras. Esse disco me dá uma enorme votande de sair vagando pela cidade com fone no ouvido, de rir e chorar. Me dá vontade de largar tudo e parar um pouco o mundo só pra eu poder ficar aqui, sentada nessa calçada, ou num banco de praça olhando as pessoas passarem apressadas – como eu, na maioria das vezes. É um disco tão visceral em sua tranquilidade. Sereno em seus “acertos de contas com a vida” e na tranquila busca por um futuro. Um disco que dá vontade de beijar meu amor e abraçar um amigo especial. Ou seja, viver direito essa vida e não só senti-la passando pela janela do ônibus ou escapando entre os dedos. Vontade de jogar conversa fora e, mais: dá uma vontade enorme de deixar ele rolando indefinidamente, começando outra vez cada vez que chega ao fim. De manhã, de tarde ou de noite. Não quero parar de ouvir. Dessa vez, os campineiros vão tocar em Curitiba. Eles nem sabem, mas vão. E estarei lá, cantando junto. Vá correndo ouvir (myspace.com/radiare). E depois compre o CD, porque uma banda como esta faz a diferença. Acredite nisso.

Em tempo: Estou saindo de férias. Na volta, entrevista com Radiare é certa. Nesse tempo, Ivam Cabral assume este espaço.

10/01/2009

Um poeta erudito e rock and roll

Jornal do Estado/ Bem Paraná

Mostra lembra os 20 anos da morte de Paulo Leminiski ocupa Itaú Cultural

Em exibição estarão preciosidades como o primeiro manuscrito de Catatau, em um caderno escolar (foto: Divulgação/ Carlos R. Zanello de Aguiar)

Adriane Perin

Não vai ser em Curitiba a exposição mais completa que já se fez sobre o poeta paranaense Paulo Leminski, morto há 20 anos. São Paulo é que vai desfrutar, a partir de hojem de um material pra lá de especial na terceira edição do projeto Ocupação do Itaú Cultural, que refaz o percurso do poeta por meio de poemas, preciosos manuscritos que revelam a gênese do anti-romance Catatau, depoimentos pessoais gravados em vídeo e shows musicais. Ocupação Leminski conta ainda uma programação de leitura de poemas, adaptações de sua obra para o teatro e o cinema, além de shows musicais com participações especiais de Moraes Moreira e Vitor Ramil (veja abaixo). Durante a ocupação, poetas e prosadores – como Elson Fróes, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire e Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Frederico Barbosa, Paulo Scott, Izabela Leal, entre outros, escreverão os primeiros twitcais (haicais em forma de twitter) e o público será convidado a fazer o mesmo.

A ideia partiu do também poeta Ademir Assunção, que assina a curadoria, há pouco mais de um ano. Apresentou ao Itaú Cultural e recebeu o sinal verde para se debruçar sobre o acervo que a família guarda em Curitiba no intento de transformar em um acervo público. A primeira oferta foi feita ao Sesc, que vacilou e perdeu a deixa. “Ofereci aqui porque moro em são Paulo e conheço pouca gente dos órgãos oficiais de Curitiba que poderiam fazer uma exposição como esta. Nem pensei em oferecer para Curitiba, na verdade”, diz.

Assunção conviveu com Leminski quando foi estudar jornalismo em Londrina, no final dos anos 70 e a identificação, imediata, se estreitou depois em correspondências e numa convivência maior que evoluiu para uma amizade. “Ele é, sobretudo, poeta em tempo integral. Embora sua obra extrapole a poesia, tudo que fez - na prosa, tradução e ensaios - tinha como centro a poesia. Não conheci poeta mais intenso que ele”, observa. “E não tenho dúvida de que tem o lugar dele na literatura brasileira. Mesmo que ainda hoje pessoas digam que é um poeta menor – como o fez recentemente José C astello sob o argumento de que Leminski é uma figura pop, de marketing. .. Só posso pensar que isso parte de pessoas que não conhecem a obra de Leminski”, defende.

Leminiski foi – e é – pop, sim, sem que isso seja algo pejorativo. É de conhecimento público que ele tinha uma formação erudita, sem que isso se traduzisse em uma empáfia que só serve para distanciar. “Fala isso quem só conhece a superfície, porque a obra de Leminski é densa e múltipla.Ele é uma figura muito peculiar na cultura brasileira exatamente por ser ao mesmo tempo extremamente erudito e ter uma atitude rock and roll. Um poliglota, que conhecia latim e grego, e um boêmio que mantinha uma disciplina rigorosa, fruto das práticas do budismo e do judô. Estive em noitadas com ele de nos separarmos de manhã e às nove ele estar na máquina de escrever. Eu vi isso”, conta o curador-poeta. “É um tipo de artista intelectual ainda bem pouco assimilado pela inteligentsia brasileira. Mas, é essa diferença que faz com que os jovens continuem se identificando de imediato com ele”, completa.
Assunção teve contato com o material com o qual a filha de Leminski, a jornalista Aurea, está tentando criar um memorial, um lugar que possa acondicionar corretamente e também disponibilizar pra pesquisa na internet. “É muito rico e tá tudo bem guardado, mas precisa de condições apropriadas”, alerta. “ Encontrei manuscritos do Catatau. O começo de tudo, de próprio punho em um caderno escolar... quando peguei isso na mão foi... emocionante. Para um pesquisador é como ter encontrado os manuscritos de On The Road , do Jack Kerouak”, pondera sobre uma das raridades que será exibida no Itaú Cultural, numa vitrine fechada.

E alguma chance desse material vir pra Curitiba? “Se alguém dos órgãos culturais da cidade ou do Estado demonstrar interesse. A Áurea tá conversando com a Secretaria de Estado da Cultura. Sem dúvida é a maior exposição que já se fez sobre ele. E o que coroaria isso tudo, pra mim, seria o anúncio do relançamento por alguma grande editora das obras completas dele, porque os livros não estão em circulação e seria uma grande homenagem a ele traze-lo de volta pras livrarias”, diz sobre o escritor que Leminski morreu no dia 7 de julho de 1989, aos 44 anos. Seu livro Metaformose ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, o poema “Sintonia para Pressa e Presságio” foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século.

SERVIÇO
Ocupação Paulo Leminski. Até 8/11. De terça a sexta, das 10h às 21h; sábs., doms. e feriados, das 10h às 19h. Entrada franca Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149). Informações: (11) 2168-1776/1777.

9/25/2009

Memórias do Rockingá

Bem Paraná/Jornal do Estado

Coluna Piracema

Adriane Perin

Como vocês já sabem estive em Maringá conferindo a quantas anda a cena de lá, com a volta do agitador Andye Iore às produções. Ele fez o Rockingá, dias 13 e 14 último, e me convidou. Eu e o simpático e tão tagarela quanto eu, “Pardal”, da Dynamite fomos hospedados na casa do Gótico – ou melhor na casa da avó dele -, um figura da banda Professor Astromar & Os Criadores de Lobisomen (que, alías, tem uma personalidade bem própria). Me senti a vontade, pois alguns amigos já passaram por ali e foi legal ser recebida por pessoas que conheciam até Hotel Avenida – e tinham OAEOZ no computador. Obra do seu Rubens K, que passou a nossa ficha, pelo jeito.

Fui sem esperar muito e preparada para encontrar bandas cruas e problemas típicos das cenas que estão se firmando. Encontrei os tais problemas nas conversas, mas principalmente me surpreendi com o que me pareceu maturidade das bandas. Fazia tempo que não encarava um show num lugar “não preparado” para tal. E, bem por isso, foi bacana ver os músicos sem frescuras e vaidades inflando seus egos, pacientes e parceiros, mandando ver, apertados num cantinho do simpático Fernandes Bar - com garçons disputando espaço até com os microfones.
Sou bem chata com essa coisa de cantar em inglês e, vou dizer, até das bandas com esta opção curti muito. De Betty By Alone (bettybyalone.blogspot.com) e Hospital Doors (www.hospitaldoors.blogspot.com), em especial. Não sei dizer de qual formação gostei mais - curti muito o show da mais conhecida, A Inimitável Fábrica de Jipes. A NOVA (myspace.com/bandnova) sem duvida é a sonoridade que mais faz parte das minhas listas e foi a mais diferente do conjunto do Festival. E tem que prestar atenção na Nina Nóbrega
( myspace.com/ninanobrega), menina que já sabe o que quer ser quando crescer. Mas, talvez quem tenha me chamado mais a atenção tenha sido mesmo o figura à frente do José Ferreira & Seus Amigos (www.seusamigos.blogspot.com). Também (bom e bem humorado) compositor, o provocativo Gabriel é um daqueles tipos que não se esquece. Sarrista, não perde a chance de marcar presença. E teve a cara de pau de “testar” o batera no show. Na verdade, foi jogo de cena, porque ele já tocava com o rapaz antes. Legal foi que ele subiu no palco e o Thiago Soares, um estudante de jornalismo que entende do assunto, também metido a produtor tipo eu, que faz só os shows de bandas que curte, veio me passar a ficha do rapaz e contar de suas estrepolias no palco.

Uma coisa que chama a atenção é que muitas bandas por lá não têm myspace - têm blogs. E também a maioria, pelo que entendi, não toca fora da cidade, ainda. Isso tem que ser resolvido. O pessoal que eu vi lá tem que circular para que as pessoas saibam que eles existem.

Johnz
Quem é vivo uma hora aparece. Inclusive na “grande mídia” e não só nos blogs dos amigos. Pois é, lembra do Tulio Bragança, o rapaz que fez belas canções sob o nome de Johnz? Então, ele tá morando na linda Buenos Aires e apronta das suas. Agora caiu na rede – via UOL - a notícia de que catou seu violão e foi fazer versões de pagode. Em um inglês literal. E com direito a vídeos caseiros de suas “performances” com os hits do gênero. “Caçamba”, do Molejo, agora é “Bring The Caçamba”; “Eu Me Apaixonei Pela Pessoa Errada”, do Exaltasamba, é “I’ve Fallen In Love With The Wrong Person”; e “Que Se Chama Amor”, do Só Pra Contrariar, ficou “That’s Called Love”. O blog dele é http://aires-buenos.blogspot.com/.

Procure
Dois belos discos que ainda não chegaram aqui já estão circulando nos fones de uma moçada aí. O novo do Soulsavers, um dos projetos com Mark Lanegan um pouco menos “soturno” me pareceu, mas interessante como sempre. E o Grant Lee Phillips, que já ficou a manhã inteira rodando na minha cabeça. A mesma pegada. “Good Morning Happiness”. Procure na rede que você acha.

9/18/2009

Os novos sons da cidade canção

Jornal do Estado/ Bem Paraná
Nascida em Sampa, Nina foi a razão para a família buscar um lugar mais sossegado, estuda musica desde 4 anos, é multiinstrumentista e compõe, bem. A voz vai amadurecer, ela vai ganhar mais experiên (foto: Bulla Jr/Divulgação)


O Jornal do Estado conferiu a quantas anda a cena autoral em Maringá, na primeira edição do Rockingá

Adriane Perin

Depois de dez anos meio de lado da produção de shows em sua cidade, o jornalista Andye Iore decidiu voltar. Bem a tempo de celebrar os 18 anos desde o primeiro show considerado independente por lá, com a curitibana Os Cervejas – e sob os cuidados dele. Ele fez domingo e segunda-feira passados a primeira edição do Festival de Música Independente de Maringá – Rockingá – e o Espaço 2 estava lá. Foi uma viagem pra lá de produtiva. Se a “cena maringaense” carece de estrutura, lhe sobra boa vontade e, o principal nessa conversa, bandas competentes. Das 10 vistas, de nenhuma se pode dizer que falta qualidade musical. Desde a menina Nina Nóbrega, que abriu a mostra, passando pela N.O.V.A, com uma sonoridade mais “recolhida” que se diferenciou na mostra, até chegar a uma das mais conhecidas na região, A Inimitável Fábrica de Jipes, todas mostraram bom potencial para “ganhar o Brasil” – e algumas miram o exterior, cantando em inglês e bem entrosadas.
Com entrada franca, a mostra foi no Fernandes Bar, boteco com espaço para não mais de 80 pessoas, sem palco e com equipamento emprestado das bandas. A ideia de “recuperar” dias de baixo movimento da casa, cujo dono, Leandro Fernandes é o mais novo parceiro dos roqueiros da cidade, funcionou. O arqui-inimigo de todos é o cover, em especial, e o sertanejo. É uma “cena musical” em desenvolvimento, mas Maringá tem recursos para valorizar mais sua produção que já deveria estar mais estruturada. Foi como voltar os primeiros shows que vi ao conhecer o circuito alternativo. Aconchego e camaradagem foram sensações muito presentes, renovando de certa forma, o espírito “independente” já meio cansadão. O contrapeso da crueza da produção foi a dedicação e o prazer dos envolvidos: músicos, platéia, bar, produtor e de um jornalista-agitador cultural, o jovem Thiago Soares, que participou de bate-papo acalorado na abertura.
O festival é um desdobramento do projeto de Iore, o Zombilly – programa de rádio apresentado na Rádio UEM, inspirado nas John Pell Session; shows autorais às terças no Fernandes e um blog. Nasceu um pouco mais focado nas vertentes psycho e rockabilly e se ampliou pela constatação de Iore que era preciso mostrar o que se passa ali. Há 3 meses começou a parceria com o Fernandes. “Me endividei muito e dei uma parada. Mas tava tudo tão complicado, falta de respeito e muito cover... me dei conta que ao invés de gastar para ver shows fora podia investir nas locais”, conta.“ É informal mesmo, faço questão de ter até um lado toscão”, diz.
Arregimentou o velho conhecido, agora dono do bar da família Fernandes. “Não sou tão alternativo, abro para outros estilos, mas prefiro fechar a ter sertanejo”, diz Leandro, que se surpreendeu com os roqueiros. “Pensei que seria aquela coisa punk, que iam quebrar tudo”, conta, rindo. “Nunca tive um problema”, assegura ele, que tem pouca concorrência. Apenas outras duas casas foram citadas como parte do circuito local, o Pub Fiction, que faz uma “salada musical” e o Tribo’s, esse um veterano marigaense tido como aliado. E ainda o Cotonete, que está começando a investir no circuito autoral.
Entre os produtores, Flávio Silva é citado também, mas divide as opiniões, por apostar mais nos hypes de fora, mas é considerado importante. As bandas também se ajudam como é o caso da Tiny Cables Ink, que está sendo produzida pela experiente Betty by Alone, encarregada de fechar a primeira noite. A Tiny vai participar de uma coletânea norte-americana, contato feito via My Space. “É difícil conseguir tocar em outros lugares. Os convites que chegam são pra gente bancar tudo. Sem chances “, diz Rafael, da Betty. Por falar nisso, não faltaram críticas a Associação Brasileira de Festivais Independentes, Abrafin, por “só escalar bandas amigas”. Porém, algumas das bandas maringaenses precisam investir mais em seus materiais de divulgação. Afinal, nada como se comunicar para enfrentar percalços. Rafael conta que achava que precisaria de uma gravadora. Até ouvir uma cassete da londrinense Grenade. “Vi que era possível fazer por conta”, diz, reclamando a falta de know-how para gravação de rock na cidade. Diga pra mim: parece ou não Curitiba – e tantas outras cenas -há alguns anos? Cover demais, respeito e cachê de menos; falta de apoio. É questão de tempo e persistência.

Por um circuito regional de shows
Maringá, Umuarama, Londrina e Paraíso do Norte, há 80 km, são as cidades de um possível roteiro de shows na região. Em Umuarama, fica tudo por conta do Nevilton, banda paranaense em ascensão. Em Londrina, tem a Branço Direito, produtora do Demo Sul. E a grande surpresa vem da agroindustrial Paraíso, com seus 12 mil habitantes. Seu prefeito, Beto Vizzotto, fez duas edições do Paraíso do Rock. Agronômo de formação, Vizzotto sempre curtiu rock. “Notava bandas independentes legais na região, só que era disperso”, conta. “Buscamos parceria junto a Associação Protetora da Maternidade e Infância (APMI) e fizemos um trabalho para acabar com a imagem negativa que ainda tem do rock. Convidei Ministério Público, Conselho Tutelar e todos ficaram maravilhados”, observa. Ele, que aposta na curadoria e em bandas autorais, conta com o festival para desmanchar preconceitos. “Só no debate tivemos mais de 140 pessoas e embaixo de chuva”, lembra ele que quer parceria na iniciativa privada. Aliás, algo que chamou a atenção: ninguém tocou no assunto leis de incentivo ou editais. Parece que não sabem dessa ferramenta. No caso do prefeito, a ideia é incluir a iniciativa privada. No caso dos produtores, ao que tudo indica, a lei municipal de Maringá, tem problemas. “Mas o pessoal do rock não quer mesmo”, diz Thiago Soares, um dos mais afiados e por dentro da cena alternativa. Estudante de jornalismo, tem fôlego para também produzir shows só de bandas que gosta. Mantém o blog Espora de Galo, que põe lenha na fogueira sem dó. Teve o programa de rádio Garagem, que levou vários “VMB local”,o Sonic Flowers, produzido por Flávio Silva. “Queria entrevistar para o Garagem algumas bandas, assim começou”, conta ele. “Tento parar de perder dinheiro, mas não consigo. Só do Charme Chulo dizer que eu fiz eles serem conhecidas na cidade, de onde são Leandro e Igor, e me darem o Cd, tá valendo”. Mas, ele bota o dedo na ferida. “Muita gente aqui reclama, mas só vai ao bar quando sua banda tá tocando. Rola um complexo de perseguição, um discurso muito manjado. Não aguentamos mais banda choramingando”, alfineta. (AP)

Em cena, bandas se garantem
Fique bem impressionada com os shows que vi. Mesmo as bandas que tocaram desfalcadas, mostraram seu valor. Começou com Nina, a garota de 13 anos, comparada por lá de Malu Magalhães. Voz e violão, embora toque vários instrumentos, mostrou que tem potencial, o que se confirmou com a audição posterior do disco. E não só isso. Também tem personalidade, no meio daquele jeito tímido. “Quero montar minha banda, mas quero músicos bons, não vou me apressar. Não quero contratar, quero pessoas que gostem de tocar comigo”, diz a estudante da 7ª série. “Sempre gostei de aparecer e pensei em ser atriz, mas sempre me senti bem cantando”. Depois veio a N.O.V.A, sonoridade mais próxima do meu gosto pessoal. O pessoal no bar falava alto demais para o som do trio, que faz música calcada em bases eletrônicas e guitarra.
Professor Astromar & Os Criadores de Lobisomen me surpreendeu também e os vocais de Renato, ex- Família Palim dá um toque todo pessoal ao trabalho. Bom humor também é uma marca da banda que deve gravar em breve, mas diz fazer um som sem pretensões. Algumas optam pelo inglês em suas canções. A Betty By Alone, uma das mais conhecidas na cidade ao que tudo indica, fechou a primeira noite, com competência e presença de palco. Três vocais, duas guitas, violão elétrico e até uma harmônica esporádica (estes últimos no disco), criam bons riffs e um clima que lembrou Teenage Funclub e Tod’s . Tiny Cables Ink também conseguiu mostrar seu potencial em canções com belas melodias, mas precisa cuidar do vocal que lembra demais a principal influência. Abriu a segunda noite que teve menos público, porém mais atento. Outra que canta em inglês, é Hospital Doors que, tanto quanto a Betty, parece pronta. Assume que mira o mercado internacional.
José Ferreira & Seus Amigos é das mais interessantes, comandada por Gabriel, que tem histórias de bastidores. E até esquecendo a letra, se sai bem. Para fechar, a mais conhecida nacionalmente, A Inimitável Fábrica de Jipes, desfalcada, mas sem baixar o nivel. Fechou em alto estilo o festival, com belo diálogo entre as guitarras.

OUTRAS BANDAS

Amigos de infância formam a N.O.V.A. No início, eram os experimentos. Não que hoje sejam pop, mas digamos que agora deram uma acalmada e depois de um ano em estúdio compondo, veio o resultado: A Bela Liz e as Estrela sem Luz. Muito bom.


Gabriel, vocalista e compositor da José Ferreira & Seus Amigos, é “o figura” - toda cena tem os seus. E escreve bem e tem performance de um verdadeiro frontman. Destaque da mostra.


Uma das mais conhecidas nacionalmente entre as que tocaram, a Inimitável Fábrica de Jipes, que se prepara para lançar o primeiro DVD do circuito de Maringá, mostrou o porque tem reconhecimento, mesmo desfalcada de seu baixista. Fechou o festival em alto estilo.


A Betty By Alone é uma das mais conhecidas e consideradas na cidade ,ao que tudo indica. Cantando em inglês, fechou a primeira noite, com competência e presença de palco.


Hospital Doors também canta em inglês e tanto quanto a Betty, parece pronta. Curioso, foi a única a anunciar e vender Cd no bar. Deu pra sentir que o vocalista, novo no posto, tem presença de palco


Professor Astromar & Os Criadores de Lobisomen emprestou o nome daquele figura esquisto de Roque Santeiro. No palco, põe um som meio punk, meio rockabilly cantado em português, o que lhe confere personalidade.


Com a Bandidos Molhados, novata no circuito e Brian Oblivion & Seus Rádios Catódicos (foto) o surf music entrou em cena, também de maneira competente para dar seu recado. A primeira, planejam para 2010 o primeiro album. Brian, mais experiente, tocou desfalcada, sem o baixista, e passou pelo crivo.

9/11/2009

Sem pressão, só na expressão!

Jornal do Estado/ Bem Paraná


Jards e Maria Alcina prestam sua reverência ao Kid Morangueira (foto: Divulgação)


Maria Alcina e Jards Macalé se encontram pela primeira vez no palco em Curitiba, em projeto que homenageia Moreira da Silva, no Teatro da Caixa


Adriane Perin

Nove e meia de uma sexta-feira não é lá um horário dos mais apropriados para marcar uma entrevista com um músico. A não ser que seja para falar com Jards Anet da Silva, o Jards Macalé. “Sou um trabalhador”, diz com sua voz grave. Ele tampouco vai atrasar o outro encontro que tem marcado em Curitiba, este ao vivo no Teatro da Caixa, hoje. Com ninguém menos que Maria Alcina, revivida e pronta – como sempre esteve. Eles vão prestar reverência a um conhecido de todos, Antônio Moreira da Silva, o Kid Morengueira, ou ainda Moreira da Silva, amigo de Macalé, que com Maria Alcina dividiu palco. O espetáculo itinerante “Homenagem ao Malandro” começa aqui e depois vai para São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal.
Para Macalé, amicíssimo de Moreira da Silva, é uma “junção quase que obvia, porque comecei a tocar com ele no Projeto Seis e Meia no Rio. E a Maria Alcina também fez parceria com ele em algum momento”. “É a primeira vez que estaremos junto no palco e sob as bençãos de Moreira da Silva, que uniu a gente de certa forma. Estou fazendo uma preparação com o Sergio Arara, que vai me acompanhar no violão. Temos conversado e organizado tudo com o Macalé pois teremos alguns números juntos também”, completa ela. “É uma preparação difícil porque o material do Moreira é bem incomum, muito personificado. Para eu cantar, preciso observar detalhes, arranjos, porque ele foi muito único e em sua obra, a toda hora a gente encontra abertura”, pondera a cantora que conheceu o autor de “Ghodan City” na época dos festivais da canção, nos anos 60 e 70, nos quais ambos se lançaram.
Começo — Macalé lembrou o projeto de Albino Pinheiro e Hermínio Bello de Carvalho, que convidava duplas para fazer shows especiais em um horário pouco usado do Teatro São Caetano, no Rio de Janeiro, em meados dos anos 70. “A imagem que ele tinha de mim era do menino de Gothan City, um rapaz cabeludo e barbudo, mas ali eu já estava com outra aparência. A empatia foi muito rápida”, conta Macalé, dono de uma carreira discográfica espaçada, mas que sempre que lança algo é um disco de valor. O mais recente, Macao, “ foi mais Macalé canta Moreira, pois é todo com repertório dele”, diz, sobre o lançamento da Biscoito Fino. Macalé é do tipo que faz várias coisas ao mesmo tempo. Vai compondo, “não tenho aquela pressão, só expressão”, diz. Sempre identificado como contestador por sua personalidade pouco afeita à facilidades musicais, já foi tido como maldito, termo que parece banido do vocabulário da nova geração de jornalistas, mas que já foi muito usado para definir artistas de personalidade “dispensados pelo mercadão”. Ele tem ciência do posto que lhe cabe. “Éramos contestadores até por provocação. Mas agora, digo que faço a diferença justamente por fazer a diferença diante de todas as coisas; por gostar do risco. Minha música já sai, não digo estranha, mas de uma forma em que para que ela apareça tive de me arriscar. Sempre foi assim”, pondera. Também se arriscou no cinema, teatro. “Agora por exemplo estou rodando o Cine Macalé, filme com trechos de filmes que fiz como ator ou músico – ou que assinei trilha sonora. No projeto em dvd eu interajo cantando ao vivo. O dois está saindo com novas informações, inclusive com super - 8 que fiz. Sempre gostei disso”, conta.
Ele também foi tema do documentárioJards Macalé: Um Morcego na Porta Principal, que ganhou o prêmio do juri do Festival do Rio de Janeiro. Também está circulando um curta metragem que conta a história de sua prisão em Vitória do Espirito Santo no projeto Pixinguinha, quando cantava em parceria com Moreira da Silva, aliás.
“Conto essa historia no show, espera para ouvir lá”, pede este homem de muitas linguagens que também está, como homenageado, em mostra no Centro Cultural Helio Oiticica, no Rio. “Todas essas linguagens andam muito próximas para mim. Lá está a “Macaléia”, que ele fez para mim”, conta.

Muito mais do que só o confete e a serpentina
Maria Alcina conta que a música de Moreira da Silva sempre esteve “na cabeça desde menina”. “Era meio cinema, como se fosse uma criança brincando de cantar, de fazer cinema... O Sergio Arara com elementos eletrônicos traz a chance de reproduzir esses sons”, considera. “Eu e Moreira temos um humor, que ficou claro no projeto Pixinguinha nos anos 80. Com 38 anos de carreira tenho que olhar meus arquivos. Fazendo isso, percebi que quem uniu a gente lá, já sabia que dava ritmo. E Macalé... ele é meu ídolo...”. Ela lembra ainda de um trabalho que fez com Moreira na famosa casa de shows carioca O Beco. “Não fiz nada, só cantava e ria. Tudo dava certo, eu tava com 24 anos...”.
Mineira, vem de um pai que sempre gostou de música e estimulou, os homens, da família a cantarem.“Sou filha de operários; na minha casa não tinha rádio, mas eu buscava a música na casa do vizinho”. Mas, uma moça cantando era bonito só até um ponto. Ela fez dupla com um amigo do pai, mas quando a coisa ganhou ares mais sérios... “Não teve jeito, aquilo vai te margeando, o dom vai achando seus iguais. Fiz apresentações em teatro, igreja, festivais até vir para o Rio”. Veio para a gravação de uma trilha sonora, encontrou o Antonio Adolfo, que já a tinha ouvido cantar, e ficou.
A partir daí, a dona do vozeirão grave, que destoava das vozes nem sempre macias, mas sempre agudas das principais cantoras brasileiras a partir dos anos 60 (modo que hoje soa só enfadonho), ficou conhecida. “O artista precisa ter uma marca e o diferencial foi meu timbre, o que me deu oportunidade. É isso e é o contrário também. Porque agora preciso expandir minha voz. Quanta coisa que ainda tenho para fazer”.
Seu sucesso veio de uma música que pegava também pela irreverência, pelo deboche no jeito de cantar, se portar, de brincar fazendo música séria. Assim, ela conquistou pelo menos duas gerações. Mas, sabe como é a memória do brasileiro, ela saiu da midia. E eis que um representante daquela geração se encarregou de trazê-la de volta, pelo vies de sua própria memória afetiva. Foi a banda Bojo, em especial Maurício Bussab, sempre citado por Maria Alcina, quem a trouxe a tona outra vez.
Ela não é do tipo que fica remoendo sentimentos e avalia tudo com tranquilidade. “A midia muda, não é a gente que sai dela. Nessas mudanças a comunicação necessita de outras informações, outros aparatos. A gente é um produto e quando é hora de vender outro... eles te tiram da prateleira. Tive o infortúnio de ficar quase 20 anos sem gravar, mas sou uma sobrevivente muito forte de uma coisa obscura, que nem eu sei o que tenha sido, porque muitas veze cheguei a fazer repertório para discos que paravam”, conta. Diz que nem teve tempo de pensar nisso. Saia de uma situação desagradável e buscava algo melhor. “Olhando hoje, só estou aqui porque não parei lá atrás. Sobrevivi como pude, andei como deu, comi o que tinha e não saí da profissão”. Sem tempo para lamúrias, não lhe faltou trabalho . “Sem gravar você fica fora de muita coisa, mas tive que aprender a sobreviver no palco, porque nem todos que estouram tem essa experiência”, observa ela, que pegou cancha em apresentações no picadeiro.
Novidade — Maria Alcina traz na bagagem – e vai vender depois do show – um belo disco, Maria Alcina Confete e Serpentina. Foi uma sequência de coisas boas, com o empurrão da internet que abriga tudo que gravou. Até chegar a 2003 e o projeto de Alex Antunes – que lembra aquele lá que colocou Macalé e Moreira da Silva cara a cara no anos 70 -, Com:Tradição, que promoveu o encontro de artistas de ontem e de agora. Maria Alcina fez par com o Bojo – ou foi o Bojo que fez par com Maria Alcina? Não importa, o certo é que dali em diante voltamos a ouvir falar dela. “E aí o bicho pegou”. Do show veio um Cd e a parceria com Bussab andou. É dele a produção desse disco novo no qual Maria Alciona faz o que colocou como meta: “expandir-se”. Uma Maria Alcina diferente daquela que a minha geração cravou na lembrança se mostra desde o começo. É um disco para ouvir – e Maria Alcina, na nossa lembrança, ou na minha, de criança, era para ver também. “Nos outros trabalhos têm isso também, mas é que o meu lado da alegria era muito forte. E não tive a chance de mostrar os meus outros lados. O Maurício trouxe a Maria Alcina inteira. É confete e serpentina? É. Mas no carnaval também tem gente chorando no salão”.

Serviço
Homenagem ao Malandro. Dias 11e 12 às 21h e 13 ás 19h. R$20 e R$10 Teatro da CAIXA
(Rua Conselheiro Laurindo, 280). Informações: (41) 2118-5111

9/01/2009

Alegria de tocar para sua gente

Jornal do Estado/ Bem Paraná

O chorão Altamiro Carrilho faz o lançamento de 4 DVDs e diz que ainda tem muito show para fazer (foto: Divulgação)

Altamirro Carrilho renova seu prazer em tocar flauta e festeja os brasileiros

Adriane Perin

Oitenta e quatro anos, 70 de carreira musical. Cem discos gravados e perto de 200 composições assinadas. Estes são alguns dos numeros em torno daquele que é considerado o último dos mestres chorões que pode dividir com a gente sua experiência e prosa. Altamiro Carrilho está em Curitiba para o lançamento do projeto A Fala da Flauta, composto por 4 Dvds e um livro, organizados por Andreas Pavel, que traz os DVDs “Primeira e Segunda Noite em Niterói”, “Uma Vida na Flauta” e “Esse Sou Eu”, filme de Ana Suttor, com o making of das gravações.

Inicialmente estava cá com meus botões ansiosa sobre possíveis perguntas. Ele atrasou um tantinho a entrevista, mas chegou ao telefone acalmando minha intranquilidade e tomando as rédeas da conversa. Logo foi dizendo que gosta de tocar em Curitiba porque é um povo muito musical. “Fiz no Guairão um concerto musical popular e clássico”. Para ele, aliás, não tem essa história de música erudita ou popular. Tem é música boa. A convite do Sesi Paraná ele se apresenta ao lado de Pedro Bastos (violão 7 cordas) Mauricio Verde (cavaquinho), Éber de Freitas (bateria e percussão) e Luis Américo (violão). Carrilho contará também com as participações de Sérgio Albach (Clarinete) e Trio Catuaba Brasil, ambos residentes em Curitiba.
A seguir trechos da conversa, sob o pulso firme desse alegre senhor.

Música erudita e o choro
O indivíduo que gosta de música erudita forçosamente vai gostar de choro, porque ele é todo baseado nas sonatas de Bach, nos concertos de Tchaikovsky , Bethoven. Tudo da mais alta qualidade. Bethoven era chorão, “Pour Elise” é um choro, basta colocar pandeiro, cavaquinho, instrumentos que o choro incorporou. Até já gravei em ritmo de choro e dá a impressão que foi sempre assim. E, agora os jovens estão descobrindo o choro como opção para tocar boa música sem precisar estudar 10, 12 anos. Porque pra tocar concertos tem que ter essa experiência, o domínio de pelo menos 8 anos do instrumento.

Ritmos populares
Pouca gente tem esse dom, chamo de dom, de assimilar bem ritmos populares. Quase que 90% da nossa música se deve à dita África e foi uma mistura fantástica essa. Uns especialistas em percussão e outros especializados em harmonia e melodias bonitas. Outra coisa que interessa a todo instrumentista é saber improvisar. Quem sabe sair de um tema sem perder a linha a harmônica leva muita vantagem e o público também agradece não ser repetitivo.

Jazz e outros gêneros
Gosto de tudo, só existe um tipo de música: a música boa, de quaquer gênero. Não podemos classificar de ruim a música que não gostamos, mas milhares de pessoas gostam. Mas, também tem muito barulho com nome de música no mundo inteiro. E existem adeptos. Então, como diria o outro: o que seria do amarelo se não houvesse o mal gosto (risos).

Bom humor
Eu tento passar isso para o público nos títulos jocosos, por exemplo. No show, ninguém quer sofrer. E tenho uma convivência muito boa com quem toca comigo. Mas, para ser músico bom tem que ter boa cabeça, além de talento. Acima de tudo tem que ser um indivíduo intelectual, mesmo que não tenha cursado faculdade. A música obriga isso.

66 anos de música?
Não, são 70 anos de música, comecei aos 14 anos; e já era profissional. Dentro da minha biografia gravei com Moreira da Silva quando menino ainda e ele teve que conseguir autorização da polícia. E dali fui ficando mais conhecido, com meus discos e acompanhando os grandes mestres; os melhores cantores, Orlando Silva, Francisco Alves, Vicente Celestino, Carlos Galahardo, Isausinha, Jorge Veiga, Trio de Ouro, Dalva de Oliveira. .... é muita gente.... Elizete Cardoso, Elis, ela era um espetáculo. A meu ver a melhor de todas, porque almoçava, jantava e lanchava música.

Bom de conversa
Eu falo bastante e fui aprendendo muito com as viagens pelo exterior. Fiz quase os cinco continentes. Até em Israel eu toquei. Recebi um papel em hebraico e me disseram o som que teria em português. Levei uma semana pra decorar, mas fiz a saudação. Só que , depois de uma certa idade, a idade do condor, tive que aceitar o conselho médico e diminuir minhas travessuras. Naturalmente, hoje já não tenho tanta resistência. Na execução da flauta tenho ligeiras limitações nas músicas mais puxadas na respiração. Porém, nunca parei de estudar e exercitar.

A Fala da Flauta
São seis horas de concertos, documentário, entrevistas antigas, apresentações especais, gravações de estúdio. O público vai saber como é uma gravação lá bem junto da gente, ouvindo até as bobagens que a gente fala. Só mandei tirar um palavrão, porque plateia não tem que ouvir palavrão. Eu não parei. Só quando papai do céu chamar. Fico tão feliz quando entro no palco que parece que tô recebendo um presente. Mas, agora priorizo tocar no Brasil. Sou o contrário, gosto mais de tocar para minha minha gente. Pros gringos toco pelos dolares (risos).

SERVIÇO
Altamiro Carrilho. Dia 01 às 20h30. R$20 e R$10. Cietep ( Av. Comendador Franco, 1.341).

Biografia ou livro de fã?

Jornal do Estado/Bem Paraná

Mesa redonda de hoje, na Bienal do Livro reúne Arnaldo Bloch e Ruy Castro,que deu uma entrevista por email. Fernando Morais teve que cancelar sua participação por questões relacionadas a seu novo trabalho

Adriane Perin

A 1.ª Bienal do Livro de Curitiba segue até dia 4 de setembro com muitas opções; nas manhãs e tardes, voltadas à educação e também conversas descontraídas no Café Literário. Os começos de noite oferecem mesas-redondas e, depois, pocket shows e . Hoje, o assunto é biografia, com participação de Arnaldo Bloch e Ruy Castro. Fernando Morais, infelizmente teve que cancelar sua participação por questões relacionadas a seu novo livro. A mesa foi batizada de “Biografias: Vida Privada, Bisbilhotice, Marketing, Exemplo, História” e começa às 19h30, em um dos anfiteatros do ExpoUnimed, que abriga os encontros e os stands da Bienal (que, infelizmente, ficaram devendo para que esperava encontrar alternativas ao que está nas livrarias).
Ruy Castro respondeu algumas perguntas por email.

Jornal do Estado — O que você considera mais dificil para um biógrafo brasileiro. Me parece que possíveis biografados são arredios e falta compreensão de que suas histórias são também de interesse público.
Ruy Castro — Não posso falar por outros biógrafos e por seus biografados. No meu caso, nunca tive problemas no começo do trabalho - mesmo as filhas do Garrincha [com seus maridos, que eram quem mandava na história] pareciam muito contentes em saber que eu estava biografando o pai delas e, dentro do pouco que sabiam sobre ele, colaboraram bastante nas entrevistas. Depois, quando o livro estava para sair, seus advogados vieram com aquele processo. Ou seja, houve má fé deles na jogada. Mas não vejo personalidades arredias. Ao contrário, vivo recusando “encomendas” de gente famosa e importante que gostaria que eu os biografasse. Não entendem muito bem quando digo que não aceito encomendas, muito menos de vivos.
JE — Por outro lado, também tem muitas biografias servis. Nas estrangeiras o que se vê é o esmiuçar das vidas dessas personalidades de uma forma impressionante, sem a preocupação de se algo vai denegrir a “imagem” do biografado. Por exemplo, na de John Lennon, o autor diz que ele tinha tesão pela mãe. Na dos Rollings Stones, as brigas entre os integrantes são abordadas sem meios termos. Já na biografia do Renato Russo, por exemplo, publicada recentemente, o autor não trata do homossexualismo, assumido, do compositor, nem do filho que ele teve com uma pessoa de quem não se sabe nada direito. Posto isso, quais são os limites de um biógrafo? Como se relacionar com quem “guarda a imagem da pessoa pública”?
Castro — Mas a “biografia” do Renato Russo será uma biografia ou um livro de fã? Favor não confundir. Assim como a maioria das “biografias” que se publicam por aqui - é tudo livro de fã. Para um biógrafo de verdade, o único limite deve ser: Essa informação é verdadeira? E tem relevância na narrativa? Se as duas respostas forem sim, ele deve publicar.
JE — Acho que o Brasil tem muitos possíveis biografados ainda - mas proporcionalmente poucos “biógrafos profissionais”. É um nicho de mercado que ainda tem muito o que render, não achas? O consideras mais importante amadurecer neste segmento? E em relação ao público?
Castro — O biógrafo precisa ter a confiança do seu editor e algum dinheiro para trabalhar [porque é um trabalho que exige tempo integral]. Quanto ao público, precisa ser instruído sobre o que é uma biografia, um perfil ou uma memória. [Por exemplo, o belo livro da Helena Jobim sobre seu irmão Tom, O homem iluminado, não é uma biografia, mas uma memória. A de Nelsinho Motta sobre o Tim Maia, de certa maneira, também]. E os resenhistas dos jornais precisam parar de resenhar o personagem e passar a resenhar a biografia.
JE — O caso do Roberto Carlos foi emblemático, é difícil não falar dele.
Castro — O caso desse livro é um equívoco só, a começar pelo próprio livro. Antecipei para o Paulo César Araújo o que aconteceria - e, infelizmente, aconteceu. Fez um livro todo a favor e mesmo assim foi perseguido, como previsto.
JE — O que você acha que pode acontecer, legalmente falando, depois do episódio da proibição do livro?
Castro — Acho que nada vai acontecer. O livro só voltará às livrarias se o Roberto Carlos “deixar”...
JE — Qual foi a sua biografia mais difícil pra você fazer. Por quê?
Castro — Disparado o Carmen - Uma biografia. Pela dificuldade de encontrar pessoas que tivessem convivido com Carmen Miranda enquanto ela morava no Brasil. Essas pessoas precisariam ter pelo menos 19 anos em 1939, que foi o ano em que ela foi embora para os Estados Unidos. Ou seja, precisavam ter nascido até 1920.
Como tive a idéia do livro em 2000, significa que, naquele ano, seriam pessoas de 80 anos para cima. E onde eu ia encontrar tanta gente com essa idade, que tivesse conhecido a Carmen Miranda e estivesse lúcida para falar?
Pois, no decorrer de quase cinco anos, encontrei dezenas de pessoas.
JE — Como é que você faz a escolha de alguém para ser seu biografado? Já teve muito problema para ter acesso a materiais?
Castro — Escolho um biografado pela admiração que tenho por sua obra e pela curiosidade que tenho por sua vida.
Como disse, o maior problema que tive no “Carmen” foi levantar material sobre sua fabulosa fase brasileira — sua infância na Lapa, sua vida de adolescente e tudo que ela fazia antes de se tornar cantora. Nesse sentido, cada descoberta - uma frase, um fato, um endereço — era uma vitória. A parte de sua carreira internacional foi comparativamente mole de fazer.
JE — Uma coisa legal de biografia é que quase sempre o autor acaba fazendo também - e levando o leitor com ele - por um passeio também pela época do seu “personagem”. A pesquisa para o livro sobre a Carmem Miranda foi a mais dificil que teve que fazer?
Castro — Foi, com o disse. Mas, pelo menos, eram cenários que me apaixonavam e com o qual eu já tinha uma certa intimidade: o Rio dos anos 20 e 30 e Nova York e Hollywood dos anos 40 e 50.
JE — Quer continuar fazendo biografias?
Castro — Sem dúvida. Mas só voltarei a elas se me der um estalo e surgir um novo personagem que me apaixone tanto quanto os que já biografei — Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda.

8/30/2009

“Eu boto a cara a tapa, mesmo”


Jornal do Estado/Bem Paraná

Em entrevista, sobre o show que O Rappa fará em Curitiba nesta sexta-feira, o guitarrista Xandão não poupou elogios a cena musical da cidade e “intimou” órgãos públicos a darem mais apoios

Adriane Perin

Com um ano do disco 7 Vezes na praça, turnês pelo EUA e Europa, onde não circulava há alguns anos, O Rappa finalmente apresenta o show do mais recente trabalho em Curitiba, hoje. As relações do grupo com Curitiba estão mais próximas, digamos assim, por conta do vínculo estabelecido pelo guitarrista Xandão, que mora na cidade já faz um bom tempo. Mas, é a primeira vez que ele fala tanto da cultura local. Foi sobre Curitiba, o Paraná e a cena musical a maior parte da conversa que ele teve com a reportagem no começo da tarde de terça-feira. Entusiasmado, desandou a falar sobre uma situação que considera absurda: não ver nenhuma banda daqui em destaque nacional, diante da fértil produção que observa. E cobra dos governantes mais apoio para que os bons trabalhos daqui sejam mais conhecidos.

No show que faz no Curitiba Master Hall, o repertório é calcado no disco 7 Vezes, lançado com um intervalo de 5 anos de O Silêncio Q Precede o Esporro. Em sua carreira, a banda carioca acumulou muitas indicações e levou premiações importantes, mas não com este novo trabalho, que recebeu apenas uma indicação no VMB. Esse rarear de premiações não incomoda o grupo, cuja trajetória tem um “lado social” muito forte. Para Xandão, que considera importante esse tipo de reconhecimento, a ausência do Rappa em listas mais recentes pode, inclusive, ser entendida como um sinal bom, já que é salutar que novas gerações ocupem os espaços.

A conversa começou com ele lembrando da gravação na Rocinha, domingo passado. Inicialmente prevista para ser um DVD, acabou sendo o pagamento de uma dívida que a banda tinha com a comunidade, que há tempos pedia um show em seu território. “Acabamos transferindo a gravação do DVD, pois a comunidade pediu um show e tivemos que refazer cálculos. Mas gravamos tudo e se ficar bacana vamos lançar o Dvd. Desde já, digo que foi maravilhoso, fomos muito bem recebidos. Somos uma banda carioca, apesar de eu não ser, e a Rocinha parou pra ver a gente porque se identificam muito com O Rappa. De certa forma, a beleza do Rio está muito ligada à proximidade da favela. Porém, a Rocinha é mais que isso, é uma comunidade onde se encontra todo tipo de gente: o bacana, o trabalhador, enfim bem representativa da mescla carioca. E o nosso contexto fala de se misturar, de ter comuinidades mais plurais e não ficar num nicho”, destaca. Diz que a apresentação foi super importante e muito além do que imaginavam ele, Falcão, Marcelo Lobato e Lauro. “Fazer um evento deste porte e reunindo metade da comunidade que mora no lugar.... não é pouca coisa. Em saindo um DVD estou certo de que será um dos melhores momentos nossos, muito em função dessa participação da comunidade”, assegura.

Um ano de 7 vezes
“O Rappa já é um banda estabelecida. Nesse período de lançamento de turnê conseguimos ir para Estados Unidos da América e Europa, para onde não íamos há 6 anos. Percebo e vejo cada vez mais nosso trabalho como plural. Pode tanto tocar no Rio, em Curitiba, nordeste ou em Lisboa, Londres, Paris, Barcelona. Todos esses shows foram maravilhosos, o que faz pensar que essa barreira da linguagem para a música do Rappa não existe. Podemos ir a qualquer lugar pra falar a verdade e as pessoas entendem do que estamos falando. Tem sido tudo muito bacana, mas só o tempo dirá algo mais definitivo sobre esse disco e, também, em relação a este Dvd que a gente fez agora. Nem tem como medirmos força agora. Depois, a gente senta e analisa, vê o espaço e o que conquistou”.

Premiações ou a falta delas
São importantíssimas. Já fomos indicados milhões de vezes e é o momento em que temos a chance de encontrar os companheiros; são sempre muito bacanas. Seguimos trabalhando. O fato de não termos sido indicados esse ano tem a ver com sermos uma banda que já tem seu processo estabelecido. Não vejo como problema, acho importante que os novos cheguem. O Rappa teve seu momento de ganhar prêmios. Se existir unanimidade, é burra. Também deve ser levado em conta que são premiações muito democráticas, votadas. E nós nunca tivemos um apelo muito pop, nossa marca sempre foi mais de um trabalho comunitário. Nunca fizemos muita questão de estar na mídia de qualquer jeito; só participamos de programas de televisão que possamos tocar ao vivo, por exemplo, nada de playback. Então ficamos fora de muito do que tem apelo publicitário. Mas, não há uma preocupação com isso. Preocupante seria que não aparecessem novos, porque tem muitas novas bandas chegando.

Cena paranaense
Aliás, acho inadmissível não ter uma banda paranaense no cenário nacional. E uma crítica que faço hoje morando em Curitiba é aos governos. Prefeitura e Governo do Estado vamos tentar fazer um grande festival, porque não? Tem tantos grandes músicos morando em Curitiba e podemos tentar mudar essa história. Estou aqui há tanto tempo e não via essa movimentação toda e já era um lugar bacana. Acho, sinceramente, que falta empenho do Governo do Estado e da Prefeitura para, por exemplo, captar o empresário; falta envolvimento de quem pode virar isso. Isso vai trazer mais dividendos para comerciantes, impostos para a cidade como um todo. E se não houver envolvimento dos õrgãos públicos, ficar só esperando empresários, não vai rolar. Empresário para se interessar tem que ter facilidades. Não é isso que o governo federal faz? Então o Governo do Paraná tem que fazer parcerias também. O que me deixa irritado é que vejo muita gente relevante se mudando para cá e essas pessoas não são contatadas para participar de debates, para dividir suas experiênicas e mudar isso.

Cidade Cultural
Se diz que o Curitiba é uma cidade Cultural, mas então o é para quem faz parte da elite, pra uma tipo de coisa. Lembro muito no Rio, tivemos o projeto Aquarius por 10 anos, com orquestra sinfônica tocando todo dia em parques. Não teve um dia que não fosse lotado. O povo vai. Essa conversa de que o povo não quer música boa, é um discurso vazio. Tem que fazer pra todo mundo. E isso não é uma crítica ao prefeito de Curitiba, porque se ele tem uma aceitação tão alta é porque faz um trabalho bom. Mas, tem que olhar mais pra esse lado cultural da cidade que, eu diria, tá um pouco afastada da comunidade. Não adianta só ter show em casa noturna. Tem que fazer show na periferia. Falo isso, porque gostaria muito que acontecessem mais projetos sociais, pela experiência que nós temos nisso. Mas, tem que ter alguém que encabece isso. E aqui tem várias bandas, muitos artistas interessados e não utilizados. Porque não usar André Abujamra, que é um cara extremamente relevante, inteligente e experiente. O Hermeto Paschoal, uma pessoa ímpar. Eles podem contribuir muito. E falta também o reconhecimento dos órgãos públicos aos jovens, para poder fomentar isso tudo. Não tenho muito tempo para estar nesses lugares, infelizmente, mas quando der, se for convidado, participarei. Até pensei num evento nas faculdades do Paraná, com bandas convidadas e palestras. Ou um concurso com bandas locais e convidadas, sei lá, tem tanta gente interessada em fazer, mas Governo do Estado e prefeitura têm que estar juntos.

Novos trabalhos
Pouca gente sabe mas também sou produtor e produzi duas bandas daqui. O Real Coletivo Dub que é maravilhosa e a Diogenes. Isso é outra forma de estar fomentando. Não estou fazendo isso pra fazer média. Vejo uma qualidade muito grande em vários grupos daqui e tenho obrigação de estar fomentando isso. Tenho que ajudar a chegar a um denominador comum. Se fosse um lugar que não tivesse nada de bom, vá lá que não aparecesse nacionalmente. Mas, não é o caso de Curitiba. Também participei do DVD da Relespública, uma monstruosa de uma banda pela qual tenho um admiração profunda. Fiquei muito envaidecido por ter sido convidado. E eu boto a cara a tapa mesmo, participo do que acho bom!

Psychobilly Fest



Da coluna Piracema - Jornal do Estado/Bem Paraná

Adriane Perin

A banda argentina Motorama, que acaba de lançar o CD Crisis é a convidada internacional a mostrar seu “neo Rockabilly” do Psychobilly Fest . É isso aí, tá confirmada mais uma edição do festival curitibano idealizado pelo camarada Wallace Barreto, que já é uma das tradições do circuito. É a décima quinta edição. As Diabatz e os Sick Sick Sinners também estarão afiados pra mostrar como voltaram das turnês internacionais que andaram fazendo esse ano. Este último vai aproveitar para mostrar tambem sua nova formação. A representante londrinense The Brown Vampire Catz é outra que volta a dar as caras por aqui, como também os paulistas do Voodoo Stompers. O festival tem as velhas conhecidas, mas também apresenta novas gerações: a curitibana Flatheads, com rockabilly e Os Degolados, “psychobilly nervoso de São Paulo” fazem suas estreias por aqui. Vai ser no Ópera 1 o 15° Psychobilly Fest, dias 10 e 11 de outubro. A produção promete mais novidades logo mais.

Bienal do Livro
Vários encontros legais acontecerão até 4 de setembro, por conta da primeira Bienal do Livro de Curitiba, no ExpoUnimed e a música também vai dar as caras lá no território da Universidade Positivo. Mais uma vez a Oi convidou bandas legais da cidade para apresentações. Só que agora sou obrigada a concordar com a Charme Chulo: Oi, tá na hora de começar a pagar cachê pras bandas. Uma ajuda de custo que seja. Afinal de contas, música independente também tem seu valor – tanto tem que eles estão convidando as que tiveram boas performances no evento que fizeram em julho, do qual eu, particularmente, gostei muito, mas que não foi uma unanimidade exatamente pelo “trato” com os artistas. É compreensivel que os grupos topem participar de eventos que lhes dão visibilidade, mas também não pode ser assim indefinidamente, afinal artista não é filantropo. E, numa boa, esse negócio de convidar banda independente com o argumento de ser vitrine para não pagar nem ajuda de custo é bem conveniente pras empresas. Só que a Oi está mais do que estabelecida. Acho, inclusive, que não pega bem pra marca, que é a “patrocinadora do Espaço Jovem da I Bienal”. No final de semana, sábado, tem as apresentações de Cacofônicos e Trivolve, às 20h e 21h, respectivamente. Dia 02 às 21h é a vez de Tristessa; dia 3 tem La Vigüela Rock; e na sexta, dia 4, Hotel Avenida. O Espaço terá também teatro e dança, a partir do meio-dia. Estão confirmadas as participações do grupo Velozes e Barulhentos, as companhias Transitória e Cenação, João Andirá, os poetas Daniel Koganas, Caetano Pires e Marcos Beccari, entre outros. A cenografia do Espaço Jovem também conta com artistas alternativos. A cada três dias, grafiteiros vão interferir por ali.

Repito: é muito legal a Oi olhar pros artistas independentes, mas tem que contribuir também para a tão cobrada profissionalização. O valor do ingresso pra Bienal é de R$ 2 e R$ 1 (estudantes) e gratuito para deficientes físicos, educadores, menores de 12 e maiores de 65 anos. Informações: wwwbienaldolivrodecuritiba.com.br

Em tempo: o novo single da Nuvens, Uma vela em um oceano, e o EP acústico chegam à web neste dia 31 de agosto. E um novo vídeo, dessa vez da mixagem da música nova e uns trechinhos dela: http://www.youtube.com/watch?v=ujXSzp5XxrY.

8/21/2009

Por uma arte não confinada

Jornal do Estado/Bem Paraná
A Galeria Cilindro, criação coletiva: na foto maior, a obra nascendo, no Parque Barigui; no detalhe ela transportada para o Centro de Criatividade (foto: Divulgação)

Reportagem visitou intervenções feitas por alguns dos cem artistas que estão participando da Bienal VentoSul, até outubro

Adriane Perin

Basta que a pessoa fique com uma carinha de interrogação para que uma intervenção urbana - algum tipo de “provocação” feita por artistas em espaços abertos das cidades, simploriamente explicando - atinja suas intenções. Se a pessoa entendeu ou sabia do que se tratava não é tão relevante. É o entendimento de Julio Leite, criador da Galeria Cilindro uma das intervenções da Bienal VentoSul, em cartaz em espaços fechados e também em praças, ônibus e janelas da cidade até outubro. Iniciada no Parque Barigui, a Galeria Cilindro agora está no Centro de Criatividade. Ela é uma das intervenções que a reportagem foi conferir de perto. Abaixo, o leitor encontra um breve roteiro do que está à solta pela cidade. São obras de nada menos que cem artistas em diferentes espaços (www.bienalventosul.com.br)
A Galeria nasceu na área externa de um caixa eletrônico cilíndricoo em Campina Grande, na Paraíba, terra de Leite. Ele não trabalha sozinho. Embora não seja um coletivo, sempre convoca outros criadores para ajudar a intervir em algum tipo de equipamento cilíndrico. Em Campina esse “equipamento” é fixo. Em Curitiba e Cuba, onde esteve em abril, são móveis. “Convidei outros artistas que estavam na cidade por conta da Bienal, japoneses, espanhois, alemães e os brasileiros Interlux e Bijari, de Curitiba e São Paulo, respectivamente. Andamos pela cidade de bicicleta vestidos de macacões vermelhos, elementos visuais que se transformaram na instalação”, explica. Eles estão pendurados nas paredes do Centro de Criatividade e no meio, a estrutura cilíndrica usada aqui”. A mobilidade tem a ver com a proposta da Bienal. “Cilindro é uma obra que dispensa autoria, ele as mistura. O projeto é meu, mas não termina. É sempre um começo que vai se desdobrando”, observa o autor, que está com a cabeça nessa criação desde 2004. Para Leite, trata-se de uma obra política, na medida em “que possa cooptar a arte contemporânea, os artistas conceituais. Também quer trazer a arte regional e quebrar alguns conceitos. Colocar na praça pública a chance de diálogo com a produção contemporânea”. E quebra com a previsibilidade de espaços pré-definidos. Neste sentido que ele defende a desimportância da pessoa saber que é uma ação artística. “Promove essa quebra de padrão, com esse ter sempre que entrar em galeria ou museu para ver arte. Encontrar uma ação urbana em logradouros públicos é enriquecedor para artista e público, e surpreende. Só que são obras efêmeras, pensadas para o lugar previsto”, pontua.
Para Leite, essa arte “confinada na realidade” é algo mais da modernidade, não pertence à a contemporaneidade, que “quebra o paradigma e a tira dos museus e galerias, procurando uma forma de diálago, que é positiva para um lugar como Curitiba, uma cidade com tantos parques, por exemplo”, comenta. “Se existe algo entre o trabalho e uma pessoa que passa, mesmo que seja uma tensão, é porque provocou algo. Ninguém olha para o que não lhe chamou a atenção”, finaliza.

“Você vai ir ou vai ficar?”



Na coluna Piracema da semana passada (que eu esqueci de postar, mas tá valendo), o novo disco do Je rêve de Toi. Cãofiram!

7/17/2009

Um Oi para a arte paranaense

Jornal do Estado/Bem Paraná


Essa é a trupe que vem de Vitória para mostrar seu som por aqui (foto: Divulgação)

O domingo será cheio de artistas pelas ruas, por conta de projeto da operadora de telefonia, que vai espalhar música, teatro, grafite e performances por parques da cidade


Adriane Perin


A operadora de telefonia Oi chegou no Paraná e para marcar sua entrada preparou um mega evento cultural. Neste domingo, a partir das 13 horas, o projeto Expressões Oi toma conta de cinco endereços públicos da capital, com atrações de artes visuais, performáticas e musicais. Serão em torno de 85 atrações simultâneas, todos artistas que fizeram uma inscrição na internet e foram escolhidos para engrossar a já cheia agenda cultural do final de semana.
É, mas nem só de Oi vivem as expressões artísticas locais e a agenda do final de semana reflete isso, em especial na área música. Também no domingo, a banda Plêiade celebra seus 17 anos. E não bastasse a produção local, hoje tambem tem uma invasão capixaba (textos ao lado).

A diretora de comunicação da Oi, Flavia Da Justa, explica que a intenção é “trazer um olhar sob perspectivas diferentes” . “Quisemos criar um ambiente diferenciado, um ambiente on line que viabilize a troca de expressões culturais, efetivamente, mas sem ser uma dessas redes de relacionamento. Nesse primeiro movimento quisemos fomentar a postagem de expressões no site. E ficamos bastante surpresos não só com a qualidade, mas também quantidade. Foram mais de 7 mil expressões, perto de 900 do Paraná”, informa.

A produção, segue, esperava muita coisa musical, por conta do ambiente virtual já ser mais familiar aos músicos da atualidade, mas foi surpreendida também com o volume de inscrições de artes informáticas e visuais. “Pra ter uma ideia, em Curitiba tivemos mais inscrições de artes visuais que de música e artes peformaticas. Agora com o Expressões Oi na rua damos a estrutura para uma aproximação com o público. A ideia é colocá-los à vontade, tocando na rua. Não são mega shows, portanto”, esclarece. O Expressões já aconteceu em Brasilia e, pelos comentários, houve problemas com os lugares escolhidos. O que não deve acontecer aqui, já que os endereços são todos bem frequentados no final de semana: Parques Barigui, São Lourenço, Praça 29 de Março, Ruínas de São Francisco e o menos conhecido pelo nome, o Largo José Knopfholz, que fica próximo do Passeio Público, onde haverá grafiteiros em ação.

A intenção, adianta Flávia, é continuar com ações de perfil cultural por aqui. “O site não vai sair do ar. Queremos agora viabilizar uma proximidade comercial, entre público e artista. Não que vá virar um site de comércio, mas para ajudar se alguém quiser contratar o serviço do artista, por exemplo. Criar este espaço coletivo de criatividade”, observa. Agora, a companhia vai preparar as próximas etapas. “Era tudo muito novo pra gente, um projeto com conceito bacana, mas não sabíamos o que aconteceria. E recebemos inscrições do Brasil todo, embora o projeto esteja acontecendo em três cidades. Isso foi muito bacana. Agora vamos ver o que mais fazer”.

Quem for para as ruas da cidade neste domingo vai desfrutar de uma produção cultural de alto nível. Na parte musical, em especial, saltam aos olhos que foram escolhidos realmente artistas que estão em evidência. E também outros menos conhecidos que merecem atenção diante da qualidade do trabalho. Bandas como Ruído/mm, Nevilton, Copacabana Club, Hotel Avenida, Caio Marques, Mordida, Chucrobillyman são algumas das mais conhecidas.

A adolescente Plêiade

Dezessete aninhos. Na flor da idade, diria algúem. Porém, mais madura do que a idade aparenta. É a banda Plêiade que comemora seu aniversário neste domingo, com show no James. Aproveita para apresentar o novo disco, Escravos Cardíacos das Estrelas, quinto cd, e terceiro em menos de um ano. Captaneado por Claudio Pimentel, o grupo está mais introspectivo neste trabalho, deixou de lado, por ora, a pegada mais violenta de Claudio ao violão. Soa mais sereno, como um descanso das atribulações, no meio de uma tarde cinzenta em um cantinho silencioso. A força das canções continua toda ali.
A Plêiade traz em suas criações influências diversas e se resolve bem com uma sonoridade que é pop, calcada em letras maduras, combinadas a elementos do rock e folk especialmente, mas não só. O predomíniosempre foi da língua portuguesa, que Claudio sabe usar muito bem, tanto quanto lidar com as influências literárias. A Plêiade é um trabalho muito pessoal de Claudio, sempre contou com músicos muito afinados com sua proposta na hora de traduzir os sentimentos instrumentalmente. Como agora, neste Escravos..., mais cheio de belos arranjos de cordas. Obra de Igor Ribeiro, com sua Orkestra Mecânica. Ele ainda divide a produção com o compositor. “Como modus operandi os arranjos são feitos livremente por cada um dos músicos”, diz Claudio. Neste disco tem a primeira parceria em composição com Quinho em “No Escuro”. O disco inclui ainda uma raridade: a primeira gravação em estúdio, de 1993, de “Strange Wings”, poema do curitibano Airton Silva. Em 1998, a música ganhou nova versão com o poema “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens. Completam a banda Guto Gevaerd, Luciano Franco e Dego.

Para ouvir: myspace.com/bandapleiade

Noite da invasão capixaba

Omelete Marginal é o nome do projeto que uma trupe vinda do Espírito Santo apresenta nesta sexta no Espaço Cultural Era só o que Faltava. É a Noite Omelete Marginal, com cerca de 30 apresentações de artistas de Vitória, entre músicos, videomakers, DJs, Vjs e fotógrafos. Eles se juntam a uma banda do Rio de Janeiro, outra de São Paulo e outra daqui todos dispostos a fazer uma grande movimentação de artes integradas. Esta é a marca do Omelete Marginal, um mix de artistas. O projeto foi criado no ano passado, pelo o diretor artístico Thiago Ferrari e o diretor executivo Fred Estringer, que resolveram criar um festival que servisse de vitrine para novos talentos da arte capixaba.

Foi a percepção da boa boa safra criativa e original em sua terra que impulsionou a dupla na criação do Omelete Marginal, hoje o maior coletivo de artes integradas do Espírito Santo. “A alma do Omelete Marginal é a interatividade, a integração. Por isso apostamos na criação de uma grande rede cultural para revelar talentos, promover o diálogo, incentivar a produção cultural local e criar conexões para a difusão da movimentação artística do Espírito Santo”, explica Entringer.
O projeto cresceu, absorveu ainda mais o conceito de sociedade em rede, e expandiu suas ações. Ampliou seu alcance, e trouxe junto, obviamente a produção contemporânea de seu Estado. Sempre fundamentado em três pilares: tecnologia, cultura e informação, “sintonizado com o tempo e atuando em harmonia com as diretrizes contemporâneas da sociedade em rede”.

Serviço

Omelete Marginal. Dia 17. R$10. Era Só o Que Faltava
( Av República Argentina, 1334). Informações: (41) 3342-0826.

Artes Visuais
Pintura/ Escultura/ Fotografia/Vídeo

Artes Performáticas
Teatro/ Dança/ Literatura;

Artes Urbanas
Grafite/ Stickers

Música
Centro de Criatividade, Parque Barigui, Praça Vinte e Nove de Março e Largo José Knopfholz.
Para conhecer a programação e horários de cada lugar:
www.expressoes.oi.com.br

Piracema



Na Piracema desta semana, Demosul, Rock de Inverno e Midsummer Madness.

7/03/2009

Plêiade na Piracema



Na Piracema desta semana, os 17 anos da Plêiade, duelo de monobandas, e Bardot em Coma.

Arnaldo Baptista - Esse cara não vai virar bolor na estante empoeirada

Jornal do Estado/ Bem Paraná

Documentário traz pessoas importantes na vida e obra de Arnaldo Baptista, menos “Ritinha”

Muitas biografias de brasileiros importantes estão por serem escritas.

Adriane Perin

Muitas biografias de brasileiros importantes estão por serem escritas. É provável que tenhamos que esperar ainda mais tempo para esta lacuna ser coberta à altura dessas pessoas, pelo que se nota do que tem sido publicado por aí. É verdade, também que o volume de material biográfico aumentou. Nas últimas semanas até os cinemas de Curitiba, conhecidos por ficarem pra trás nos lançamentos com um pezinho no alternativo, tiveram em cartaz três cinebiografias de importantes músicos brasileiros: Wilson Simonal, Paulo Vazolini e Arnaldo Baptista.

A história do criador, líder dos Mutantes, seguem em cartaz. É mostrada com tranquilidade por Paulo Henrique Fontenelle no documentário Loki – Arnaldo Baptista, que acompanha a retomada dos Mutantes sem Rita Lee, no show de Londres, no aniversário da Tropicália. Com entrevistas e imagens de arquivo reconstroi a tortuosa história deste que, sem dúvida alguma, está bem lá no alto da lista dos caras que mudaram a música. É um documentário de fã, mas Fontenelle nem era tanto quando começou um programa sobre os Mutantes, para o Canal Brasil, produtor do filme. Ficou assim, como disse em entrevista ao JE, depois de ouvir o disco Lóki, um dos mais impressionantes feitos na música brasileira, pelo alto teor emocional. É tão cheio de sentimentos, de saudades, de dores, e arrependimentos, também, que machuca até quem ouve — e, pode acreditar, nem se ouve ele impunemente, nem é possível ouvi-lo qualquer dia.
Ali, está um Arnaldo fragilizado tanto pela separação de Rita Lee e rumos da banda, como pelos efeitos do consumo de drogas. Incapacitado de separar vida e arte, mergulhou tão profundamente na mistura que desmoronou sua existência, mas acabou por construir uma obra que continua sendo única. No documentário, estão pessoas importantes em sua vida, mas não Rita Lee. A relação com ela é tratada de maneira muito bonita pelos amigos. Não existe dúvida que foi um amor mais do que arrebatador. Todos falam com muito cuidado, compreendendo que as relações amorosas têm suas nuances só percebidas por quem as viveu.

O filme mostra todas as fases: o começo, na adolescência; tropicália; sem Rita nos Mutantes, com a Patrulha do Espaço e a solo, marcada por machucados visíveis, recados e pedidos de desculpas em canções que fazem a gente chorar. E a fase da internação para desintoxicação quando ele caiu da janela da clínica; o ostracismo, sem esquecer a da recuperação, sob os cuidados de Lucinha Barbosa, fã que virou mulher, mãe, amiga e protetora.

Arnaldo Baptista, como o são as pessoas geniais, não foi um cara fácil de se conviver. E as pessoas que depõem no filme, parece, são condescendentes com ele, abrigadas também no distanciamento que o tempo traz. Mas, todas são unânimes em reafirmar a genialidade de Arnaldo, em reconhecê-lo como “o cara” dos Mutantes e ao ver a sua obra como uma das mais revolucionárias da música. Arnaldo Baptista ainda não tem uma biografia “definitiva”, mas já tem uma cinebiografia que consegue colocá-lo no patamar que lhe cabe. Muito se fala de outros grandes nomes geniais da música brasileira, mas não são tantas assim as que citam Arnaldo. Quem sabe, justiça começa a ser feita.

6/21/2009

Efeito Arnaldo Baptista



Jornal do Estado/ Bem Paraná

Adriane Perin

Quando Paulo Henrique Fontenelle ficou cara a cara com Arnaldo Baptista algo mudou na percepção que ele tinha dessa figura de importância única na música brasileira. E quando ouviu o disco Lóki, foi a vida do cineasta que mudou. É sobre Arnaldo o premiado documentário, Lóki, de Fontenelle, o grande destaque da nova programação de cinema na cidade, em cartaz no Unibanco Arteplex, rede responsável pela exibição Brasil afora desta que é a primeira produção do Canal Brasil.
Tudo começou, contou Fontenelle, em 2005, quando produziu uma edição do programa Luz, Câmera, Canção para o Canal sobre o ex-Mutantes. Aliás, contou também, isso é uma das poucas coisas que sabia a respeito do figura. Quem era fã mesmo era André Saddy, gerente de marketing do Canal Brasil, que encampou a ideia e assina a produção do longa documentário. “Quando fui para Juiz de Fora falar com o Arnaldo fui ouvindo e lendo artigos dele. E me chocou encontrar um cara feliz da vida. Ao apertar a minha mão, tinha um daquele negócio de choque de brincadeira”, conta o diretor, que se surpreendeu porque a imagem que se passava do músico ainda era a de um cara desequilibrado, que gostava de viver isolado depois de ter tentado se suicidar. Isso não é verdade. Arnaldo não quis se matar, no confuso episódio da tentativa de fuga de uma clínica de reabilitação. Ele realmente pisou fundo em sua sanha de descobrir a si mesmo na arte, e teve seu afundamento nas drogas, como praticamente boa parte de sua guerrilheira geração. Mas, nunca quis morrer. Foi com o intuito de fugir desses e de todos os outros estereótipos que Fontenelle mergulhou na busca pela “verdadeira história” desse cara genial que marcou profundamente a música mundial – não foi só a brasileira, como tantos artistas estrangeiros reconheceram depois. “Aquela primeira entrevista foi bem interessante”, lembra o diretor. “Duas horas na quais conheci a maneira dele pensar, como é de verdade; perceber que respondia coisas que pareciam inicialmente nada a ver, e no final faziam todo sentido”.
Voltou fascinado. “Passei aquele ano buscando imagens, quase um ano atrás do material para o programa de tv. Quando mais lia mais ficava fascinado; e ouvir o disco Lóki foi uma revelação na minha vida. Impacto igual só tive aos 10 anos quando ouvi Raul Seixas”, lembra. O programa que deveria ter 20 minutos ficou em meia hora, mas muito mais havia a ser dito e mostrado, o diretor estava convencido. “Em mim ficou um vazio imenso e comecei a remontar e aumentar o programa pra mim mesmo”. Novamente, uniu forças com André e o projeto se desdobrou com o aval do Canal Brasil, no longa que vamos assistir hoje. “Como nós dois trabalhamos no Canal Brasil e o pessoal também gostou do programa e da proposta de filme, fiz o roteiro, mandei pro Arnaldo que também adorou e assim foi”, conta.

Lembre leitor: os Mutantes ainda não tinham voltado e Arnaldo, embora um pouco mais em evidência, ainda vivia meio esquecido. Mas, nesse meio tempo, Os Mutantes voltaram sem Rita Lee – que segue com esse machucado aberto, recusando-se solenemente, a tratar do assunto. “A primeira filmagem da nova fase acabou sendo o final do filme, a gente acompanhando Arnaldo no primeiro show da volta e andando pelas ruas de Londres”. Também lá em território, conta Fontenelle, ele foi reconhecido várias vezes na rua. “Ele tem uma cultura imensa, é impressionante; andar com ele foi uma aula de História da Inglaterra. Um americano emocionado disse que tinha vindo da América só para encontrar com eles”, lembra.

Alternativos – Tema diferenciado, produção independente sem apoio de nenhuma lei e bancada por uma canal de televisão nacional. Só isso já vale os méritos do trabalho de Fontenelle, mas ele teve bem mais reconhecimentos. Todas as sessões foram cheias de emoção e prêmios. “Foi um projeto muito barato, com uma equipe de 4 pessoas se desdobrando em todos as funções”. A primeira versão fechou com 2h40, resultado de 500 horas de imagens colhidas e “montadas em meu laptop em um mês e meio”. O primeiro corte foi para o cinema com um custo de R$100 mil. “Fiz um grande esforço para cortar os 40 minutos excedentes e quando vimos foi aquela comoção, primeiro no Festival de Cinema do Rio, onde, na presença de um Arnaldo muito emocionado, fomos aplaudidos em pé por 10 minutos. Todo mundo muito emocionado. Na semana seguinte, quando a cópia chegou ao Festival de São Paulo os ingressos estavam esgotados”, conta. “E por onde passou foi sempre essa emoção muito forte”. A ponto de o Canal Brasil mudar o plano inicial de lançar só em DVD. “Surgiu uma campanha na internet. O pessoal xingava o Canal Brasil por não colocar no cinema”.

Hoje, conta, são 17 fitas que, garante, vão percorrer o Brasil todo. Mas, ainda existe uma certa tendência em ver Arnaldo Baptista como uma figura exótica, o que o diretor rejeitou desde sempre. “Procurei fazer filme oposto disso, tirar todos os estereótipos, mantendo todas as contradições e erros e belezas de uma pessoa que é incrível, e esquecer qualquer referência à loucura, que costumam associar a ele”, fala.
Mas, teve gente próxima dessa história, e não só Rita Lee, que não falou ao diretor. Que Rita Lee não quer falar disso todo mundo sabe. Mas, ele tentou também falar com o outro irmão Dias, Claudio César, o gênio da eletrônica que desenvolveu os equipamentos que os irmãos precisavam para seu som e o mundo ainda não tinha para lhes dar. “Ele fez tantas exigências absurdas e queria cobrar pelas entrevistas que deixamos prá lá”, conta o diretor e completa. “Acho que foi uma oportunidade de muita gente fazer uma análise da relação que teve com o Arnaldo. Muitas perguntas perdidas e marcas do passado foram curadas com este filme. Tem uma entrevista muito bonita do Sérgio Dias, na qual ele pede desculpas publicamente a Arnaldo”. Sobre Rita, que faz show neste final de semana e ignorou as perguntas sobre os Mutantes: “Tomara que ela veja o filme”.
Imagens — Fontenelle ressalta ainda a quantidade de imagens inéditas, por exemplo, com a Patrulha do Espaço, banda que Arnaldo fundou logo ao sair dos Mutantes – e que tocou, captaneada pelo batera Rolando Castelo Junior mês passado em Curitiba. “O material estava totalmente espalhado, foi um trabalho de chinês achar tudo. Percorri toda as televisões e cinematecas e está tudo bem bagunçado. Triste foi ver tanta coisa que se apagou pra gravar futebol em cima. Na Record, por exemplo. Achei muita coisa cadastrada errada, até como Amado Batista. Como já previa isso, achei coisas raras. E também tenho que agradecer aos fãs que ajudaram muito nisso, dando pistas de onde podia encontrar algo”.

É bom ver a História musical brasileira sendo desvendada, um nicho de mercado audiovisual – e biográfico – que ainda tem muito a render. Fontenelle vai contribuir um pouco mais. No próximo mês ele apresenta um DVD sobre o Ritchie. Vai ser com ele tocando em estúdio, mas meio documentário. “Bacana é que quando se conta história da música ou artista, se conta a história do país também e das nossas próprias vidas”, finaliza.

6/05/2009

Bom de música e de polêmica

O músico Carlos Careqa: “No meio artístico tem muito ego inflado e pouco resultado” (foto: Divulgação/Edson Kumasaka)


Jornal do Estado/ Bem Paraná

Carlos Careqa bate um papo sobre música e critica sem piedade a “onda de resgate” cultural que assola todo o Brasil

Adriane Perin

Toques de Berimbau, um ritmo de forró e letras ácidas: “Brasileiro tá com medo de perder a identidade, tá fazendo curso de bumba meu boi no Sesc da cidade, tá jogando capoeira na universidade. Tá inscrito num curso de clown”. Ou: “Tem tanto artista falido/ tocando só pra família/ os amigos já não aguentam mais os discos que não tem saída/ Tanta menina namora com um guitarrista e já um microfone quer comprar/o campo precisa de gente, não tem mais agricultor”. Os trechos das faixas, “Brasileiro” e “Por que” mostram a discordância do músico Carlos Careqa - que está lançando seu novo trabalho, Tudo que Respira quer Comer, por seu próprio selo – em relação à moda do resgate do folclore e de todo mundo ser artista. Nascido catarinense, mas conquistado pelos curitibanos bem cedo, Careqa não se intimida em explicar melhor o que quer dizer, leia-se criticar, mesmo tendo que citar amigos. Vai conversando, com coerência e arraigado às defesas do que acredita. Por exemplo, faz questão de não usar leis de incentivo na produção de seus discos e deixa isso claro na contracapa.

Jornal do Estado — Você está tirando um sarro desse papo de “resgate da cultura popular” que virou moda, né? Não acreditas na boas intenções?
Carlos Careqa
— A ideia é o seguinte: as pessoas no Brasil vão pela moda e não se perguntam qual é o significado disso. De tempos pra cá noto que as pessoas começam com música, acham que descobriram as coisas brasileiras e, por conta disso, o resgate da cultura popular virou exagero. Em cada esquina tem Bumba- Meu-Boi. Até Curitiba que nunca teve essa tradição acabou aderindo a este tipo de coisa meio chata e, muitas vezes, sem conteúdo. Não que eu seja contra movimentos folclóricos. Sou super a favor, mas tem que ter parcimônia entre gostar e querer transformar isso em arte. Muitas vezes o folclore tem que ser preservado mas não que subir ao palco; assim como índio não tem que fazer show. Nem é que disvirtua a essência. Talvez. Mas, o pior é querer transformar em algo que não é. Indio não precisa estar no palco para mostrar seu valor. É um crime quando se pega uma tribo indígena e a leva para tocar no Sesc. Se cria uma necessidade que eles não têm e, aí sim, temos um problema. Coloca esse pessoal no show business e eles vão querer voltar. O mesmo com folclore, pega o sinhozinho que toca rabeca no interior do Pernambuco e traz para São Paulo. Pode ser interessante da primeira vez, mas depois vai criar algo desnecessário. Seria legal manter os movimentos folclóricos na sua.
JE — Isso não tem a ver com essa filosofia “Petista” de que tudo hoje em dia tem que ter um fim social, como se a arte já não fosse, por si só, inclusora?
Careqa
— Uma coisa é resgatar o social, trabalhar para que o povo seja melhor remunerado. Outra, é levantar bandeiras sem limites. E música é negócio que tem uma tradição, exige um estudo, tem que ter um tipo de conteúdo. Folclore é folclore.
JE — Às vezes tem-se a sensação de que linguagens urbanas e mais contemporâneas não tem o mesmo valor dentro deste contexto
Careqa
— Como se algumas coisas não fossem tão autênticas e acabam estigmatizadas... Não sou contra o folclore, a pesquisa e transformar em música. Mas, colocar isso no palco nu e cru e comprar vestido de algodão e sair fazendo ciranda, não é arte; não é música: é folclore, é lazer, não tem o valor artístico.
JE — Não tem medo de falar isso? Sabe que pode comprar brigas.
Careqa
— Não tenho medo de dizer o que penso. O pessoal do Mundaréu, por exemplo, eles são meus amigos e fazem um trabalho por aí. O lado musical é bacana, mas quando fica só no folclore é chato. Não sou contra quem faz folclore no palco, mas não é necessário, acho que é mais um exercício de vaidade e ego do que artístico.
JE — Outro problema é que a palavra “resgate” ficou tão batida...
Careqa
— Mesma coisa que achar que o samba vai salvar a humanidade... A música é sem fronteiras, nasceu pra ser livre e sem amarras. Por isso minha crítica. Não precisa fazer curso de clown. “O campo precisa de gente não tem mais agricultor.” É absurda essa forçação de barra, todo mundo quer ser artista. Juro pra você, volta a meia penso que deveria ter feito medicina, ter ido para um lugar com menos vaidades. No meio artístico tem muito ego inflado e pouco resultado. Querer salvar tribos indígenas quando tem tanta gente do seu lado que precisa de ajuda? Existe um exagero em certos setores sociais.
JE — São 25 anos de música. Nesse tempo suas intenções mudaram?
Careqa
— Quando comecei minha preocupação era sempre fazer com que o ouvinte pensasse no que estava ouvindo, porque vinha de uma uma escola toda baseada em grandes da mpb e não podia admitir que se faça uma música por fazer. Tem o lado do entretenimento, mas como faço música popular, pra mim, é importante que haja uma ação. A pessoa escuta e pode gostar ou não. Mas, reage. Neste disco tem duas músicas da época, de 84, “Cida” - um funk, algo até mais pra comédia e um jogo de palavras - e “Fantasias”, que tinham essa preocupação. Caminhei por aí sempre, algumas vezes com um ar mais ácido. Acho que tô no mesmo caminho. Sou alternativo ou underground. O Mercado não me absorveu e porque eu já não sei. Mas hoje em dia to muito mais tranquilo em relação a isso, porque meus ouvintes continuam comparecendo nos shows.
JE — E como se manter, sem usar leis de incentivo, sendo alternativo, vivendo de música? E com lançamentos, pelo seu próprio selo, Bed, cujos acabamentos visuais também chamam muito a atenção e devem ser caros?
Careqa
—Um disco vai pagando outro e os shows. Na verdade, disco não dá lucro. Dos shows vou sempre guardando uma graninha e às vezes ataco de produtor. A publicidade até caiu bastante. Sobre Leis de Incentivo não sou contra, mas do jeito que ela é usada sou totalmente contra. Virou um cabidão de emprego, muita gente usa totalmente errado e se faz discos sem estímulo para vender porque não se gastou nada. Como invisto e sei de onde veio o dinheiro, aposto em uma boa divulgação, mesmo que alternativa. Faço e procuro vender os shows e vendo meus discos, não tenho vergonha nenhuma de dizer que vendo ao final do show, na beira do palco, a R$10. E funciona muito bem, porque as pessoas querem ver isso. O público não é idiota e sabe o que vai comprar. A Lei favorece parasitas culturais, que não fazem nada sem lei de incentivo. É uma pena porque vejo grandes artistras encostados na lei, como se fosse uma droga que vicia. Por isso meu grito de discordia.
JE — O que mais faz a diferença em estar em São Paulo?
Careqa
— Poder abrir as fronteiras de onde mostrar meu trabalho, porque quando morava em Curitiba era muito dificil fazer shows fora. Sampa me acolheu de farois abertos e tive oportunidade de fazer shows maravilhosos e, daqui, pude tocar no Brasil todo. Mesmo tendo essa carreira super alternativa que tenho - até para Buenos Aires fui. Não sei se ficasse em Curitiba teria esse mesmo respeito. Mas Curitiba mudou bastante e hoje tem outras possibilidades. Sou de Santa Catarina, mas minha alma é curitibana. Esse jeito de pensar, esse jeito crítico sobre o qual conversamos no começo, herdei dos curitibanos com os quais convivi e convivo até hoje. Pessoas como Thadeu Wojciechowski, Adriano Sátiro, Roberto Prado, o pessoal do Maxixe Machine. É a minha cidade e a adoro.
JE — Em realação ao disco anterior o mudou pra você?
Careqa
— Este disco é como se fosse o quarto da carreira, porque dei uma pausa para fazer um resgate de trabalho que tinha engavetado e não queria deixar passar. Mas, o Pelo Público faz parte da minha vida. E o do Tom Waits é um tributo a um cara que admiro muito e queria fazer. Como tava meio sem nada, e a mpb muito lotada de coisas e compositores, quis dar uma passeada pelo rock and roll para recarregar as pilhas dessa verve de compositor. Esse meu disco como se fosse a sequencia da carreira de cancionista. Muita gente não gosta dessas minhas mudanças, os que gostam mais da canção e da mpb torcem o nariz. Mas como sou livre e a música também, se quiser fazer música erudita, vou fazer, mesmo que seja algo que o público não goste – desde que eu ache que tem conteúdo. Não sou preso. Estamos vivendo em um tempo que não dá pra fechar as portas e linguagens. Tem gente que é muito preconceituosa.