12/31/2009

thats all folks

e pra terminar o ano bem, um momento que define 2009 pra gente. vídeos gravados pelo nosso grande brother e parceiro Luigi Castel, na passagem de som do Rock de Inverno 7. estrelando, Liquespace, Beto Só e 3 Hombres.

Saúde, alegria e felicidade pra todos nós em 2010 e no que mais vier.





12/29/2009

A incultura de todo dia

TEIXEIRA COELHO
FOLHA DE SP (para assinantes)

A cultura cristalizada, objetivada (museu, cinema, folclore) recebe atenção no Brasil. Não muita: alguma. É antes objeto de discussão que de apoio real. Mas recebe.
A microcultura, porém, que forma as relações humanas, a cultura interiorizada, modo de pensar e viver, continua à margem. Rala, esburacada, em frangalhos. A cultura formal e a cultura cotidiana seguem rotas paralelas que deveriam ser pelo menos convergentes.
Sinal claro é o Índice de Desenvolvimento Humano do país: 75º entre 182. Atrás de Sérvia, Rússia, Romênia, México, Uruguai, Argentina, Chile, Barbados, Hong Kong, Singapura, Bahamas, Costa Rica, Líbia... Índices falham. Mas algo mostram.
Integram esse índice a alfabetização e a escolaridade: quantos sabem ler e escrever, quanto tempo passam na escola. Quando se examina o conteúdo de uma e outra, a situação aqui assusta ainda mais.
Nos últimos dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), os estudantes brasileiros estão na 53ª posição em matemática, entre 57 países; e na 48ª, entre 56, em compreensão de texto.
Um abismo existe entre a cultura objetivada e a cultura vivida. O resultado é o autoritarismo em todas as suas formas (incluindo a corrupção) de humilhação e abuso cotidianos -do ônibus que não para junto ao meio-fio para recolher passageiros ao lixo espalhado nas ruas e às pessoas que, no metrô, querem entrar nos vagões antes que os outros desembarquem, como se os outros não existissem. A incultura faz isso: torna os outros invisíveis. Irrelevantes.
A violência crua é o modo duro da incultura. Com a ausência do Estado em uma de suas funções indelegáveis, as pessoas, desesperadas, querem proteger-se como possível. Terceirizar parece a saída. Ninguém quer saber se os contratados são capacitados. Passa-se a responsabilidade adiante e pronto. Tudo é questão de aparência. E a aparência, aqui, é violência. O Estado passa sua responsabilidade aos que já pagaram por ela e esses a repassam a terceiros, pagando de novo, sem ocupar-se do "produto". Se algo acontecer, a culpa é do terceiro. Não é. Mas todos pretendem que sim. Resultado, "o segurança" é, ele mesmo, não raro, fator de insegurança e da violência que deveria evitar.
É evidente que falo do assassinato de um jovem pelo "segurança" de uma padaria num bairro de classe média alta, ao lado de um ótimo hospital ao qual esse jovem não pôde chegar com vida. Tragicamente emblemático.
Enquanto isso, um economista diz que o Brasil logo será a quinta economia do mundo e que então terá sua autoestima.
Não terá. Sem a cultura como lastro e tecido, o país não se moverá um centímetro do horror que tentamos não ver.
Cruzar a ponte entre a cultura formal e a cultura interiorizada, que juntas sugerem, senão o amor, pelo menos o respeito pelo outro, não é o maior desafio: é o único desafio. A educação foi vista como panaceia universal. Não é. Educação sem cultura, como aqui, nada é.
Cultura tampouco é panaceia. É apenas, e não é pouco, a alavanca restante. Este texto é uma homenagem, ínfima, aos que em 2009 caíram sob o peso da incultura brasileira.

12/28/2009

Bortolotto recebe alta

da Folha Online

O dramaturgo Mario Bortolotto, atingido por tiros em uma tentativa de assalto na madrugada do último dia 5, recebeu alta hospitalar na manhã desta segunda-feira, informou o boletim divulgado pela assessoria de imprensa da Santa Casa.

mais aqui

12/23/2009

The Flaming Lips Doing The Dark Side of The Moon [2009]


É isso mesmo. Em seu novo disco, o Flaming Lips coveriza na íntegra o clássico Dark side of the moon, do Floyd. Forgado os cara.

aqui

12/22/2009

Tempo, tempo...

"Hoje, a grande maioria dos meus amigos se parece muito pouco com o que eram há quatro anos. Para o bem e para o mal, viraram gente que se resignou em um mundo que passa longe de seus sonhos - e têm pra si que não há mais nada a fazer além de maximizar o tempo livre e o dinheiro a ganhar."

do blog do Fernando Lalli.

12/17/2009

"Seja bem-vindo, Mario Bortolotto"

"Só quero dizer que o Bortolotto sobreviveu aos quatro tiros pelo mesmo motivo que a Bárbara Heliodora jamais vai entender o significado de sua obra. Ele sobreviveu porque é o Mario Bortolotto. Pelo mesmo motivo que me fez assistir a todas as peças dele, no mínimo umas vinte vezes cada uma, quero dizer que ele sobreviveu aos tiros porque é assim que acontece nos gibis que ele coleciona, ele sobreviveu para rir das piadas dos amigos, pelas noites de blues (das quais não participo), pelos tragos e pela sinuca e porque ele vem de longe e isso já faz um bom tempo, ele sobreviveu porque o Muttley e o Frankenstein de suas camisetas são à prova de bala, e porque ele reveza esses dois com Milles Davis, ele sobreviveu porque veio lá do Jardim do Sol e porque já havia sobrevivido à violência e ao amor do pai, ele sobreviveu aos quatro tiros porque nunca deixou de reagir à própria rotina e isso inclui (quem acompanha o blog dele sabe disso) levar quatro tiros no peito toda madrugada e fazer uma oração antes ou depois de ir dormir e acordar dilacerado, tanto faz sangrar na Santa Casa de Misericórdia ou na quitinete da rua Avanhandava; ele sobreviveu pelo amor de suas mulheres e pelo amor de sua filha; e porque a Fernanda D’Umbra foi mãe, mulher e filha e teve sangue frio e não esperou o Resgate chegar. Mais vinte minutos – segundo os médicos – e ele teria morrido."

(...)

"Um milagre todo ele é feito de coincidências e, às vezes, de um chiqueirinho de uma viatura policial que chega na hora certa, e é simples de entender: ele devia estar ouvindo La Carne no seu MP3 quando virou pro filhodaputa e disse “atira” e depois disse outra vez “atira, filhodaputa” e o filhodaputa descarregou a pistola, e o dramaturgo sobreviveu porque a luz que incide na poeira é exata e os seus diálogos são certeiros (quem viu as peças dele sabe o que estou falando); ele sobreviveu porque nunca precisou mais do que um sofá velho, três amigos e meia dúzia de latinhas de cerveja quente para contar suas histórias “vai lá garoto, vai fazer o que tem de ser feito” e também porque é um cavalheiro e porque é impossível um sujeito ser um cavalheiro se não for um touro também, sim, um touro que, depois de cinco dias já corcoveava na UTI, queria saber dos amigos, e escrevia seu primeiro bilhete depois do milagre “não chora filha, senão eu também vou chorar”; porque um milagre fica bem melhor com um pouco de poesia e outro tanto de prosa, por isso que ele agüentou o tranco: porque agora finalmente vai escrever o romance que eu e o Bactéria lhe cobramos faz um bom tempo, ele sobreviveu para poder voltar ao Hotel Marina no Rio de Janeiro, não aquele que acende, mas o Hotel Marina quando apaga, porque entendeu que é o mar que olha pra gente e não o contrário, ele sobreviveu porque domina a técnica de seguir na contra-mão e porque, quando levava quatro tiros no peito, ele, ao contrário do que muito filho da puta especulou, não estava brincando de representar, aliás, quando o cara tem uma 45mm apontada diuturnamente em sua direção, ele não tem alternativa diferente de dizer “atira, filhadaputa”, mas ele sobreviveu – também - porque intuitivamente sabia que a associação falsa que o jornalista almofadinha iria fazer sobre o assalto ao teatro e a “violência de suas peças” era tão mortífera quanto a 45mm que o atingiu, e ele sobreviveu para mais uma vez desmentir os canalhas, porque ele tinha de repetir que eles eram canalhas e que,embora estivesse pouco se cagando para a mentira deles (inclusive quando o ignoraram durante todos esses anos), ele não estava ali, no bar dos Parlapatões, fazendo teatrinho interativo para a distração de ninguém, ele sobreviveu porque teve a manha de assimilar golpes desleais até o último disparo e o nome disso é generosidade - ele sobreviveu porque seu anjo da guarda é casca grossa, e agora ele quer saber aonde é que foram parar seus coturnos, ele sobreviveu porque, entre muitas e iluminadas parcerias, fez dupla com o Carcarah, esse outro maluco que sabe o que é dar uma voadora na morte, Mario Bortolotto sobreviveu porque a mesma delicadeza que tira a vida de uns traz a vida de volta para outros."


Leia a íntegra do belo texto de Marcelo Mirisola no Congresso em foco

12/15/2009

Quem sabe, sabe


"Há sempre novos sons para imaginar, novas sensações para alcançar. E sempre há a necessidade de continuar purificando essas sensações e esses sons para que realmente enxerguemos o que descobrimos em seu estado puro. Para que possamos enxergar com uma clareza cada vez maior o que somos...temos de continuar limpando o espelho."

John Coltrane - extraído do livro "A Love Supreme - a criação do álbum clássico de John Coltrane - de Ashley Kahn.

"O que permanece comigo sobre o quarteto de Coltrane é a imagem deles subindo ao palco, sem falar um com o outro, pondo fogo na coisa por duas horas sem nenhuma palavra para ninguém, saindo do palco e se sentando como pessoas comuns. Nenhum entourage ou coisa do gênero em volta deles. Depois faziam tudo de novo, despretensiosamente, diretos e com absoluta honestidade. Assim era uma jornada de oito horas deles - não era entretenimento, não era diversão e brincadeiras. Ainda tento corresponder a essa imagem: faça seu trabalho, faça com intensidade, com convicção e seja honesto com a música".

De Dave Liebman, do mesmo livro.

12/11/2009



francamente. isso é tão flagrantemente bom que pela logica proibitiva do politicamente correto, deveria ser proibido. felizmente não é. benzadeus!

Moshcam



Essa semana descobri um site muito legal, Moshcam, que disponibiliza shows ao vivo completos para serem assistidos em streaming, com imagem de alta definição e som de primeira, e que tem uma lista de atrações de babar. Pra começar, só o show de janeiro deste ano do Spiritualized que tem lá já valeria a visita. Mas ainda tem Black Mountain, Mogwai, e muito mais. O legal é que dá pra assistir o show na íntegra, ou só as músicas que você quiser. Cãofiram! Acima, um pequeno exemplo, uma interpretação acachapante de "Shine a light".

12/08/2009

O preço da mediocridade

De toda essa terrível história que aconteceu com o Mário Bortolotto, o comentário que mais me chamou a atenção foi um texto do blog "Dramaticoblog´s blog", que eu achei através do blog do Ivam Cabral, do grupo Sátyros. No texto, a Márcia Abos conta que uma das coisas determinantes para a ocupação e revitalização da região da praça Roosevelt pelos grupos de teatro foi justamente a possibilidade dos bares locais manterem mesas na calçada, o que fez com que a criminalidade na região fosse reduzida durante um tempo. Ocorre que há três semanas as mesas tiveram que ser retiradas por conta de uma decisão idiota da prefeitura, resultante da reclamação de vizinhos. Na Gazeta de Hoje o Ivam Cabral conta que essa decisão foi motivada por um abaixo assinado com, pasmem, 29 assinaturas, de vizinhos que reclamavam de perturbação da ordem. O resultado foi que a região voltou a ser ocupada pela bandidagem, crackeiros e afins, os assaltos e a violência de sempre.
Isso sem falar que a própria praça em si está fechada há anos, a espera das obras de revitalização, que nunca chegam, porque os prefeitos que lá passaram ter que cortar verbas dessas obras pra poderem investir em propaganda.
Isso só comprova como as pessoas não percebem o preço que a mediocridade e a mesquinharia cobra. Ao invés da ocupação pelos artistas, prefere-se baixar proibições ridículas em nome "da ordem e do sossego". O resultado é que ao invés de uma ocupação sadia, pela arte, tem-se o esvaziamento da região central de São Paulo e de outras cidades do País, que se tornam território para a violência e a criminalidade. Quem paga por isso são aqueles que insistem em resistir, se negam a fugir, e não aceitam se esconder, como o Mário, e as outras pessoas que como ele ainda acreditam que a arte pode ser a resposta para a falta de humanidade. Enquanto na Europa e outros países, o poder público e a sociedade caminha justamente na direção contrário, ocupando o centro de suas cidades com arte, música, vida enfim, aqui a classe média se esconde atrás de seus carros blindados e condomínios fechados para não se misturar com a "ralé". Até quando a gente vai aceitar que os idiotas e medíocres continuem ditando as regras? não sei...

Reproduzo abaixo o texto, pra vocês conferirem.

Para salvar a Praça Roosevelt

Por Márcia Abos


Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo.

Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público.

Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar.

Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo).

Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro…

12/04/2009

tuas mãos

não se iluda comigo
também vou embora um dia
mesmo que não saiba quando
nem porque

faça seu próprio caminho
diga o que quer
ou deixe o silêncio falar
até de manhã

a cortina azul entreaberta
na janela sempre fechada
a esperança de algum tempo
que não deu em nada

os copos jogados num canto
a roupa da velha estação
quem precisa da verdade
quanto tem tuas mãos

quem precisa da verdade
quando tem tuas mãos

12/03/2009

La Carne - Discografia



Taí uma belíssima notícia pra esse fim de ano. A melhor banda de rock do Brasil resolveu desencavar suas pérolas e fez uma nova prensagem dos seus três primeiros discos. Eu se fosse você não perdia essa oportunidade única de adquirir alguns dos melhores discos que o rock do Brasil (aquele que segundo alguns criticuzinhos por aí não presta) produziu, desde meados da década de 90. Eu tenho todos, mas já to pensando em comprar mais alguns pra dar pros amigos, ou simplesmente pra garantir, sabecomoé. Isso aí pode virar peça rara de colecionador com o tempo, nunca se sabe (eheh). Além do que a tiragem é limitada, portanto, não dá pra vacilar. Quem tiver bom gosto e for esperto, é só mandar um email pros meliante lacarne@lacarne.com.br

11/30/2009

Melhores da década por mim mesmo ou quem liga pra listas

Nunca gostei de listas. Pra falar a verdade, tenho uma relação de amor-ódio com elas (mais ódio que amor). Sempre achei que arte em geral, música em particular, não é competição esportiva. Não cabe nesse tipo de classificação porque uma coisa não exclui a outra. O fato de eu gostar de Beatles não me impede de ouvir Stones. E não faz sentido nenhum querer comparar coisas diferentes, dando a elas um valor intrínseco melhor-pior. Tudo depende como aquilo bate em você, dentro de um contexto muito pessoal, que é praticamente é impossível mensurar de forma objetiva.
Mas nos últimos anos, tenho sido convidado pelo Scream Yell pra participar das votações de melhores do ano. E por gostar muito do SY e ter um carinho especial pelo Mac, que considero um dos poucos jornalistas especializados em música da atual geração no País que realmente gosta de música, e não quer só fazer pose de antenado, fiz questão de participar, mesmo não me achando gabaritado para julgar o que quer que seja. Até porque, não sou crítico musical, não ouço todos os discos que estão sendo lançados de uma forma sistemática. Aliás nem quero. Portanto, nem teria condições de julgar se isso é melhor que aquilo outro, etc, querendo dar a isso algum caráter de verdade.
Pois bem, esse fim de semana fechei a lista de melhores da década que o Mac pediu, sobre os anos 2000-2009. E como das outras vezes, mais do que uma lista com critérios objetivos, a minha é muito mais uma relação baseada em afinidades pessoais, de memória afetiva. Não tenho a pretensão – de jeito nenhum – de que dizer que esses foram os melhores discos lançados no período, obviamente. Mas posso dizer com absoluta convicção de que esses foram alguns dos discos que mais me tocaram pessoalmente, que mais frequentaram o aparelho de som da minha casa, que mais me emocionaram e me fizeram cantar junto, ficaram rodando na minha cabeça, de ter vontade de ter feito essas músicas. De querer conhecer mais e ver essas bandas tocando. No caso específico das bandas nacionais, não por acaso, boa parte delas a gente teve a oportunidade e o privilégio de trazer pra tocar em Curitiba. E conhecê-las pessoalmente só aumentou a nossa admiração pelo trabalho delas.
Dito isso, publico abaixo a minha lista de melhores da década. Como digo, totalmente pessoal e intransferível. É claro que tem muitos outros discos/artistas e bandas que eu poderia ter relacionado, e isso é uma das coisas que me deixa incomodado com listas, porque sempre fica coisa legal de fora. Mas enfim, foi a síntese a que eu consegui chegar, meio no susto, porque como sempre deixei pra última hora e tive que tentar puxar pela memória, sem ficar de grandes elocubrações. O mais legal é perceber que ouvir esses discos continua sendo uma experiência única e emocionante pra mim. E confirmar que essas músicas fazem parte – de forma inequívoca – da trilha sonora da minha vida.

Melhores discos nacionais

Astromato - Melodias de uma estrela falsa (2000)
Íris – Bizri (2004)
Deus e o Diabo – Também morrem os verões (2004)
Blanched - Blanched toca Angelopoulos (2004)
La Carne – Desconhece o rumo mais se vai (2003)
Cascadura – Vivendo em grande estilo (2004)
Gianoukas Papoulas – Gianoukas Papoulas (2003)
Pipodélica – Simetria radial (2003)
Beto Só – Dias mais tranquilos
Charme Chulo – Charme Chulo (2007)

Melhores discos internacionais

Spiritualized – Let It Come Down (2001)
Mojave 3 – Excuses for travelers (2000)
Nick Cave – No more shall we part (2001)
Cowboy Junkies – One soul now (2004)
Mercury Rev – All is a dream
Beth Gibbons & Rustin Man – Out of season (2002)
Tindersticks - Waiting for the moon (2003)
Cat Power – The Greatest
Morphine – The night (2000)

11/25/2009

a sua benção, meu Vô Ino



Não lembro exatamente quando o conheci, mas sei que cresci na casa que ele construiu – pelo menos foi assim com um pedaço dela, que lembro, pois em algumas manhãs frias, pra abrir o bar, a gente tinha que passar por dentro de um pedaço da casa sem chão, em construção. Sempre soube, mas com o tempo isso ganha ainda mais força, que foi perto dele, sob sua sombra acolhedora que eu me fiz gente. Ele foi minha maior referência de vida e continua sendo. Sua alegria, sua força, sua sabedoria são sentimentos que vou carregar comigo pra sempre. E é nele que penso, e é com ele que quero conversar(e com minha mãe também, cada vez mais, sua filha guerreira) quando me sinto triste.

E hoje, meu amado Vô Ino está fazendo 80 anos. Meu, 80 anos, 8 décadas fazem desde que esse bebê aí de cima, batizado Aquaelino Perin, veio a mundo para fazer dessa nossa vida algo melhor, mais cheia dos valores que fazem a existência valer a pena, junto com seu irmão gêmeo, Avelino, que não conheci, mas muitas vezes o ouvi falando dele. Meu avô é um contador de causos, cresci ouvindo suas histórias, algumas fantásticas, de um mundo que a gente, temo, não vai ter mais. Histórias de um senhor que ficou de luto, com roupas pretas e uma barba gigante, por meses, se não engano, quando o pai dele morreu. Ele bem que tentou me levar para conhece-lo, acho que na minha primeira viagem longa. Lembro de minha avó me dando banho pra viagem e eu reclamando, a chatinha, e que passei mal na viagem (sempre tive problema de enjôo ao andar de carro). Não lembro da chegada lá, mas sei que meu bisa morreu antes de me conhecer. Tive um sonho quando era muito criança, com um senhor imponente, montado eu seu cavalo com uma daquelas capas que cobria cavalo e cavaleiro num lugar alto e plano ( meio zorro, assim, sei lá), como se olhasse a tudo de cima, atento e cuidadoso... acordei sentindo que tinha sonhado com meu bisa, que era também um pouco o meu avô, de um jeito que não cheguei a ver.

Quando eu nasci, filha de mãe solteira em pleno ano de 1970, foi ele, Vô Ino, que ficou ao lado da minha mãe e que diante da sugestão do médico de que me dessem pra ele, nem quis conversa, conta minha mãe. Ele me levou e a ela de volta a Curitibanos (nasci no meio de uma viagem da minha mãe pra fazer um concurso do Banco do Brasil, em Joaçaba, cidade que não conheço, porque 'minha cidade' é Curitibanos). Foi lá que nasci pro mundo, foi pra lá que ele se mudou, antes, para que os filhos pudessem estudar. Essa foi uma das primeiras grandes lições que cresci ouvindo. E foi de lá, que eles partiram gente feita, trazendo até madeira pra construir suas casas na Curitiba (em Colombo, acho), a cidade que primeiro acolheu meus tios e meus pais, e depois ao meu irmão, minhas primas, a mim, e onde nasceram minha irmã e meus sobrinhos lindos, Gabriel e Gica. Onde fiz minha vida ao lado do meu companheiro especial.

Conversei com ele agora, por telefone. E sua voz pareceu mais forte do que nunca, dizendo que sua parte ele fez, que está pronto pra partir, com a mesma tranqüilidade com que me fez ter forças pra deixar a primeira parte da minha história e vir embora, naquele dezembro de 1984. “Saiba de uma coisa”, disse-me, naquele começo de tarde quando fui ao bar dizer tchau, fraquejando, já cheia de dúvidas se era mesmo a decisão mais acertada: “Só estou deixando você ir porque é o melhor pra você. Senão, você não iria”. Nunca esqueci isso, e muitas vezes lembro,quando sinto as perdas se dobrando. Minha vozinha, a Vô Ina, foi sua companheira de uma vida inteira, que já partiu e espera por ele em algum lugar que não sei onde é, mas acredito de alguma forma que existe esse lugar mágico, onde os espíritos iluminados se encontram pra continuar dando forças pra gente aqui desse lado; ela, naquele dia não quis nem se despedir de mim. Lembro dela com com seu vestido florido e seu avental, com uma toalhinha secando as lágrimas... mas ela não foi ver o carro partindo.

Puxa, já se passou tanto tempo e aquele dia continua queimando em mim, como se fosse ontem.... não lembro de outro dia tão difícil como aquele. Lembro de dor parecida, mas não como aquele dia.

Ele tava certo, como sempre. Eu tinha que vir fazer a minha história aqui.

Nunca me cansei de ouvi-lo repetir as mesmas histórias de sua vida. E o que vivemos naquele bar.... minha escola de vida, ta grudado em mim como uma casca que protege. Ele não mora mais naquela casa, ela ficou grande demais depois que a Vó Iná se foi, pra todos nós. Aliás, foi só depois disso que vi nos olhos do meu avô uma sombra, um silêncio que não eram comuns nele. Ele nunca conseguiu ficar muito tempo longe dela. E quando ela se foi ( em 2001, se não me engano... prefiro não lembrar, embora isso seja impossível) eu temia era por ele, que ele não viveria sem ela porque é um amor tão lindo. “É UM AMOR TÃO LINDO”. Porque continua nos alimentando e servindo como luz no fim do tunel. Nunca convivi com outro casal como eles – que foram meus pais sem nunca, jamais, esquecer de deixar muito claro que eu tinha pai e mãe, sim. Eles sempre foram meus avós. Hoje eu sei que perdi muito do que minha vozinha podia ter me dado, me apeguei ao meu avô sem me dar conta, e deixei um pouco do que a Vó Ina benzedeira, cozinheira, companheira imprescindível na vida de um homem, podia me dar. Por conta do bar, vivi mais perto dele, mas o tempo passou e fui me dando conta, lembrando de detalhes de como é verdade que só parecia que o homem naquele tempo era quem comandava tudo. Mas, na verdade, elas, ELA, é que estava sempre ali por perto dando a força que eu tanto admirava nele. Por isso, pra mim, hoje, eles são um só. Catarina Daros Perin e Aquaelino Perin se tornaram um, do jeito mais lindo que duas pessoas podem conseguir isso. É muito difícil imaginar a vida sem os olhos azuis e as mãos grandes e abençoadas (sim, ele é a única pessoa para quem peço a benção, quase do mesmo jeito de quando era criança – quase porque gente fica besta quando cresce!) do meu avô e agora eu sei que ela ta ali junto, me dando sua benção. E enquanto ele se prepara para sua grande viagem, como sempre fala, como que me preparando para mais essa despedida, só sinto cada vez mais a presença dela nele.

Só vejo cada vez mais como o amor é a coisa mais linda e valiosa desse mundo e como é bom sentir que aprendi as coisas mais importantes que eles me ensinaram, que pode ser resumida em uma palavra: amor. É como eu disse para ele a pouco, batendo na porta dos 40: eu continuo querendo ser como ele quando crescer. Meu Vô Ino querido, queria e devia estar ai pra te dar um abraço hoje, mas até isso você entende e sempre diz quando eu ligo: “Olha, você não esqueceu a gente!”. Até parece, né, vozinho, que isso é possível. Você(s) está (ao) dentro de mim pra sempre. Eu te amo muito, muito muito muito muito... eu nunca vou conseguir dizer ou escrever direito o que sinto... então vou lembrar de uma cena linda do dia do meu aniversário de 39 anos, 24 de outubro de 2009, na pracinha ao lado da minha casa, que tem cara de casa de vó: seus olhinhos brilhando feliz vendo nossa roda de capoeira. Obrigada, mil vezes obrigada por tudo, pela minha vida. (Adri perin)

Meu avô é esse bebê à direita, o mais parrudinho.

11/22/2009

Led Zeppelin - Since I've Been Loving You



To lendo a biografia do Led (Led Zeppelin – Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra). E aproveitando pra reouvir os discos dos caras, que há muito tempo não ouvia. Lembro que na época de faculdade consegui uma cópia em VHS do filme "The Songs Remains the same" e assiste até furar a fita. Ouvir de novo os caras depois de tanto tempo faz com que eu me lembre da sensação que foi descobrir isso naquela época. Como aquilo abria todo um mundo novo. Um mundo onde a música não era simplesmente aquilo que tocava no fundo enquanto vc estava na balada. Porque aquilo exigia atenção total. Bem diferente de hoje, em que a banalização da música fez com que ela voltasse a ser apenas um acessório.
Engraçado que no livro os caras contam que o Bonham foi expulso de várias bandas por tocar alto demais. Tanto que quando ele entrou no Led achou sua turma, porque na banda, não tinha essa de baterista ter que ficar em segundo plano.

11/13/2009

Tempo

OAEOZ em 1999, na frente do antigo estúdio Áudio Beltrão, na época da gravação da segunda demo, "De Inverno": tínhamos todo o tempo do mundo.

Tempo tanto tempo qualquer tempo
possibilidades
tempo pra tudo
tudo e o nada
talvez
a mesma coisa
tudo e o nada

tudo talvez no espaço
o que existe depois do espaço
seria a galáxia do nada
seria a galáxia do nada

venha comigo e pegue
pegue sua espada
vamos para uma caminhada
vamos atrás do nada


Dia desses tava conversando com o Ramiro pelo msn (sim, parece que agora a gente só consegue conversar através dessas malditas máquinas) e a gente tava comentando como todo mundo parece não ter mais tempo pra nada, muito menos pra encontrar os amigos e jogar conversa fora, ou simplesmente fazer um som sem maiores preocupações, só por diversão. E ele citou rapidamente essa música do Igor que foi lançada na primeira demo do OAEOZ, no longínquo ano de 1998. E depois disso fiquei pensando em como essa letra, apesar de até certo ponto pueril, é tão eloquente em sua simplicidade e ainda mais atual quanto quando ela foi lançada.
É curioso porque eu lembro que os futurólogos de antigamente (ops) diziam que com a revolução tecnológica os homens teriam máquinas pra assumir as coisas chatas da vida, e a gente ia ter muito mais tempo pra lazer e outras coisas prazerosas. E o que aconteceu foi justamente o contrário. Nunca estivemos tão cercados por máquinas, e nunca tivemos tão pouco tempo pra viver de verdade, no mundo real. Estamos tão ocupados com o mundo virtual e seus blogs, orkuts, facebooks, emails e o caralho a quatro, que não temos tempo mais pra um simples abraço, uma cerveja com os amigos ou simplesmente sentar na calçada e ver o tempo passar.
Não se trata de nenhuma reclamação, mas de uma constatação. Como já comentei aqui, estamos cada vez mais “conectados” com a realidade virtual, e cada vez mais alienados da realidade “real” (rs). O que outrora era facilidade, virou escravidão. O mais triste é pensar que quando acordarmos desse “sonho cibernético”, a vida real terá passado, e aí será tarde demais pra recuperar o tempo perdido desperdiçado na frente dessa telinha. “vamos atrás do nada...”

pra ouvir e baixar "tempo" aqui

11/12/2009

Melhores amigos

O ator Mickey Rourke, que retomou a carreira artística recentemente após um período como lutador profissional e em produções B, disse que os cachorros salvaram a sua vida. “Meus cachorros realmente me ajudaram a sair dos tempos difíceis. Perdi tudo ao mesmo tempo: minha mulher, minha carreira, minha casa, minha credibilidade”, afirmou ao jornal “Daily Mail”. “Muitas pessoas que você conhece viram as costas quando você está por baixo, mas os cachorros não.”

ontem, na FSP.