adri avisa:
aí moçadinha, tem texto novo meu no overmundo (www.overmundo.com.br) com o título Cabeças de Olhos muito vivo, é sobre o projeto Olho Vivo, bem legal, dos cineastas Luciano Coelho e Marcelo Munhoz. Pra que ela entre no overblog do site, é preciso ter votos. Vejam lá se curtem e votem....E preparem-se para encarar o Hermano Vianna em breve. Ele vem falar do Overmundo. O site parte de uma idéia bem legal, mas precisa de participação. é isso.abço
eu (Ivan), reforço:
então. não sei se vocês sabem, mas o Overmundo é um portal em que as colaborações dependem da participação de todo mundo pra ganharem destaque. Tem que fazer um cadastro (que é rápido, de graça e indolor) pra votar, deixar comentários e até colocar suas próprias colaborações, músicas, etc. Vão lá.
7/07/2006
"Hoje pensei na minha morte, talvez porque tem horas que bate mesmo um fastio, uma sensação de kilometragem rodada, quando você percebe que tá caindo no mesmo erro recorrente de correr atrás de algo bom, ou de uma miragem de felicidade. As pessoas colecionam frustrações, como colecionam dívidas e eletrodomésticos. As pessoas querem ter filhos, comprar uma casa melhor, jantar em restaurantes caros, ter uma mulher melhor e um carro melhor. As pessoas querem se distinguir. As pessoas se masturbam na frente de imagens de computador, dançam em lugares com músicas sem alma, acumulam trabalhos. As pessoas arquitetam estratégias de sobrevivência, mas a senhora de preto que parece a Dolly Parton pisca pra você sobre um cadilac cor de rosa. "
Mário Bortolotto
leia a íntegra no atirenodramaturgo
Mário Bortolotto
leia a íntegra no atirenodramaturgo
6/29/2006
Festival Tinidos 2006
do Scream Yell
por Tiago Agostini
Sexta-feira, dia 9 de junho, dia de abertura da Copa do Mundo. Em todo o Brasil, grande parte dos 180 milhões de habitantes respiram futebol, se preparando para a estréia da seleção canarinho. Em Curitiba, no entanto, nos próximos três dias a atenção estará dividida com a música, na segunda edição do Festival Tinidos. De Copa do Mundo, apenas os comentários pelos cantos do Motorrad Bar, que abrigará o festival, e o jogo entre as bandas no sábado à tarde, no hotel do evento.
Na verdade, o Tinidos 2 havia começado já na quarta, 7 de junho, com um pocket show dos cariocas do RockTed na FNAC Curitiba. Na quinta, quem deu as caras pela FNAC foi o Phonopop, banda de Brasília que emocionou os presentes com um show acústico. À noite, largada no Motorrad, com shows de Mordida (Curitiba), Superlego (Umuarama) e Pelebrói Não Sei? (Curitiba).
Aliás, um dos avanços do Festival em relação à primeira edição foi o local. Quem se lembrava dos shows de Poléxia e Ludov no ano passado nem acreditava que aquele fosse o mesmo lugar. Depois de passar por uma boa reforma, o Motorrad Bar ampliou seu espaço, permitindo mais conforto para público e banda. Agora, podia-se andar e respirar com tranqüilidade, sem que o bar tenha perdido seu estilo rústico que dá um charme ao ambiente. Os cariocas do Moptop abriram o terceiro dia de Festival na FNAC. Fazendo o primeiro pocket show de sua carreira, o "Strokes brasileiro" fez as cerca de 60 pessoas presentes cantar e dançar suas músicas mesmo tendo que controlar o volume da apresentação. Um bom aperitivo do show "pra valer" do dia seguinte. À noite, quem abriu a festa no Motorrad foi a banda mineira Ímpar. Com um instrumental seguro, o powerpop da banda escorrega nas melodias vocais, doces e chicletudas demais, lembrando, às vezes, Roupa Nova. Em seguida, o Phonopop atacou com um show elétrico e mostrou porque é uma das bandas mais respeitadas do cenário independente desde 2001, com seu rock britânico redondinho. Destaque para as canções Cidade-Labirinto e Já Não Há Tempo, sendo que esta última dá título ao bom álbum lançado por eles em 2005.
Mesmo com o bom show do Phonopop, o público só foi se animar mesmo com os locais Dissonantes. Mostrando uma mistura de Beatles, The Who e Jovem Guarda regada a muito teclado no último volume, os curitibanos trouxeram o público para a frente do palco, fazendo todos dançarem com as ótimas Um Filme a Dois e Amor Retrô, além da cover de Não Vá Se Perder Por Aí, dos Mutantes. Depois de uma hora de show e de um bis recheado, a banda provou ao vivo ser a nova revelação Mod de Curitiba, seguindo os passos da Relespública e dos Faichecleres.
Quem esperava o frio de Curitiba pôde senti-lo na noite de sábado. Acompanhado de uma garoa fina, ele recepcionou todos que foram assistir à principal noite do Tinidos. O Imperdíveis (SP) aqueceu o público com um punk rock básico e enérgico, amparado na boa presença de palco do vocalista Anabela, dançando com o pedestal e levantando-o todo tempo. Pena que a banda amoleça nas baladas, arrastadas demais, contrastando com a empolgação dos momentos mais punk. O grande show da noite (e do Festival) ficou a cargo da Poléxia. A energia do show dos curitibanos é inexplicável. Poléxia não é apenas música: durante a apresentação, Neto (bateria), Rafael (baixo), Dudu (teclado) e Rodrigo (guitarra) vibram e sentem cada acorde, cada mudança de tom e ritmo; mais do que cantar e tocar, incorporam as emoções de suas canções, contagiando a platéia. A performance de Dudu, pulando e dançando o tempo todo, é um caso a parte. As letras, diretas (destaque para Aos Garotos de Aluguel, com o refrão "eu vou te dar o teu prazer, mas com amor é mais caro") e reflexivas (como em Melhor Assim, "às vezes é melhor chorar do que sorrir, às vezes é melhor calar e ressentir") dão o toque final às canções. Músicas novas, como Inércia, apontam que a banda segue no caminho certo com seu auto-intitulado "pop alternativo".
Para fechar noite de gala entram os convidados principais, o Moptop. Gravando o primeiro CD pela major Universal, os cariocas são hoje a principal promessa de estouro do meio independente no mainstream (mais ou menos o que o Cachorro Grande era em 2005). Representando o "novo rock" no cenário brasileiro (é impossível não compará-los ao Strokes, mesmo que em alguns momentos a voz de Gabriel Marques lembre bastante a de Rodrigo Amarante, do Los Hermanos), os cariocas fizeram um show bem mais solto do que o do dia anterior. O baterista Mario Mamede não economizou no peso e desceu lenha na bateria com as baquetas viradas ao contrário, comandando os pulos da platéia que se aglomerava em frente ao palco. E, em termos de comparação com o Strokes, músicas como O Rock Acabou, Moonrock e Sempre Assim não deixam nada a desejar. O único pecado foi o excesso de covers no show (quatro, entre elas Seven Nation Army, do White Stripes), que tirou um pouco do brilho da apresentação.
O domingo, último dia de festival, teve escalação 100% caseira, além do início mais cedo (afinal, segunda é dia de labuta...). Perto das 21h30, o guitarrista André Ramiro sobe ao palco e começa a mexer nos mais de 10 pedais que estão dispostos no chão. Sons estranhos enchem o ambiente e surpreendem os presentes. Depois de cerca de cinco minutos de distorções e sons diferentes, os outros quatro membros do Ruídos/MM sobem ao palco. Mas o show já havia começado. A banda honra seu nome, apresentando um show instrumental recheado de rock progressivo e experimentalismos, utilizando múltiplas afinações e texturas sonoras, numa apresentação intimista.
Na seqüência, para manter o clima, o OAOEZ apresentou sua mistura de progressivo, hard rock e psicodelia. Destaque para a ótima balada Dizem, reflexiva, pungente e direta ("Dizem também que mantenho uma certa distância que dura mais ou menos dois copos, mas que depois me solto") e para o som crescente da banda, que preenchia aos poucos cada centímetro do Motorrad.
Para fechar a noite, e o festival, Bangalô. A banda aproveitou o momento para fazer o lançamento de seu primeiro CD, Feito à Mão. O pop-rock da banda contagiou o público, fazendo os familiares e amigos cantarem juntos.
Quase uma hora da manhã de segunda-feira, final de festival, é hora de pegar o caminho da rodoviária. O som redondo e a qualidade dos shows deixam a certeza de que a viagem valeu. O Tinidos cresceu não só em dias nessa segunda edição, mas também em organização. Um bom incentivo e impulso para uma cena borbulhante, que cresce a cada ano, mas que soa ainda um pouco desorganizada, como a de Curitiba. No final, nem importou perder alguns jogos do Mundial da Alemanha por causa do sono. A boa música venceu.
por Tiago Agostini
Sexta-feira, dia 9 de junho, dia de abertura da Copa do Mundo. Em todo o Brasil, grande parte dos 180 milhões de habitantes respiram futebol, se preparando para a estréia da seleção canarinho. Em Curitiba, no entanto, nos próximos três dias a atenção estará dividida com a música, na segunda edição do Festival Tinidos. De Copa do Mundo, apenas os comentários pelos cantos do Motorrad Bar, que abrigará o festival, e o jogo entre as bandas no sábado à tarde, no hotel do evento.
Na verdade, o Tinidos 2 havia começado já na quarta, 7 de junho, com um pocket show dos cariocas do RockTed na FNAC Curitiba. Na quinta, quem deu as caras pela FNAC foi o Phonopop, banda de Brasília que emocionou os presentes com um show acústico. À noite, largada no Motorrad, com shows de Mordida (Curitiba), Superlego (Umuarama) e Pelebrói Não Sei? (Curitiba).
Aliás, um dos avanços do Festival em relação à primeira edição foi o local. Quem se lembrava dos shows de Poléxia e Ludov no ano passado nem acreditava que aquele fosse o mesmo lugar. Depois de passar por uma boa reforma, o Motorrad Bar ampliou seu espaço, permitindo mais conforto para público e banda. Agora, podia-se andar e respirar com tranqüilidade, sem que o bar tenha perdido seu estilo rústico que dá um charme ao ambiente. Os cariocas do Moptop abriram o terceiro dia de Festival na FNAC. Fazendo o primeiro pocket show de sua carreira, o "Strokes brasileiro" fez as cerca de 60 pessoas presentes cantar e dançar suas músicas mesmo tendo que controlar o volume da apresentação. Um bom aperitivo do show "pra valer" do dia seguinte. À noite, quem abriu a festa no Motorrad foi a banda mineira Ímpar. Com um instrumental seguro, o powerpop da banda escorrega nas melodias vocais, doces e chicletudas demais, lembrando, às vezes, Roupa Nova. Em seguida, o Phonopop atacou com um show elétrico e mostrou porque é uma das bandas mais respeitadas do cenário independente desde 2001, com seu rock britânico redondinho. Destaque para as canções Cidade-Labirinto e Já Não Há Tempo, sendo que esta última dá título ao bom álbum lançado por eles em 2005.
Mesmo com o bom show do Phonopop, o público só foi se animar mesmo com os locais Dissonantes. Mostrando uma mistura de Beatles, The Who e Jovem Guarda regada a muito teclado no último volume, os curitibanos trouxeram o público para a frente do palco, fazendo todos dançarem com as ótimas Um Filme a Dois e Amor Retrô, além da cover de Não Vá Se Perder Por Aí, dos Mutantes. Depois de uma hora de show e de um bis recheado, a banda provou ao vivo ser a nova revelação Mod de Curitiba, seguindo os passos da Relespública e dos Faichecleres.
Quem esperava o frio de Curitiba pôde senti-lo na noite de sábado. Acompanhado de uma garoa fina, ele recepcionou todos que foram assistir à principal noite do Tinidos. O Imperdíveis (SP) aqueceu o público com um punk rock básico e enérgico, amparado na boa presença de palco do vocalista Anabela, dançando com o pedestal e levantando-o todo tempo. Pena que a banda amoleça nas baladas, arrastadas demais, contrastando com a empolgação dos momentos mais punk. O grande show da noite (e do Festival) ficou a cargo da Poléxia. A energia do show dos curitibanos é inexplicável. Poléxia não é apenas música: durante a apresentação, Neto (bateria), Rafael (baixo), Dudu (teclado) e Rodrigo (guitarra) vibram e sentem cada acorde, cada mudança de tom e ritmo; mais do que cantar e tocar, incorporam as emoções de suas canções, contagiando a platéia. A performance de Dudu, pulando e dançando o tempo todo, é um caso a parte. As letras, diretas (destaque para Aos Garotos de Aluguel, com o refrão "eu vou te dar o teu prazer, mas com amor é mais caro") e reflexivas (como em Melhor Assim, "às vezes é melhor chorar do que sorrir, às vezes é melhor calar e ressentir") dão o toque final às canções. Músicas novas, como Inércia, apontam que a banda segue no caminho certo com seu auto-intitulado "pop alternativo".
Para fechar noite de gala entram os convidados principais, o Moptop. Gravando o primeiro CD pela major Universal, os cariocas são hoje a principal promessa de estouro do meio independente no mainstream (mais ou menos o que o Cachorro Grande era em 2005). Representando o "novo rock" no cenário brasileiro (é impossível não compará-los ao Strokes, mesmo que em alguns momentos a voz de Gabriel Marques lembre bastante a de Rodrigo Amarante, do Los Hermanos), os cariocas fizeram um show bem mais solto do que o do dia anterior. O baterista Mario Mamede não economizou no peso e desceu lenha na bateria com as baquetas viradas ao contrário, comandando os pulos da platéia que se aglomerava em frente ao palco. E, em termos de comparação com o Strokes, músicas como O Rock Acabou, Moonrock e Sempre Assim não deixam nada a desejar. O único pecado foi o excesso de covers no show (quatro, entre elas Seven Nation Army, do White Stripes), que tirou um pouco do brilho da apresentação.
O domingo, último dia de festival, teve escalação 100% caseira, além do início mais cedo (afinal, segunda é dia de labuta...). Perto das 21h30, o guitarrista André Ramiro sobe ao palco e começa a mexer nos mais de 10 pedais que estão dispostos no chão. Sons estranhos enchem o ambiente e surpreendem os presentes. Depois de cerca de cinco minutos de distorções e sons diferentes, os outros quatro membros do Ruídos/MM sobem ao palco. Mas o show já havia começado. A banda honra seu nome, apresentando um show instrumental recheado de rock progressivo e experimentalismos, utilizando múltiplas afinações e texturas sonoras, numa apresentação intimista.
Na seqüência, para manter o clima, o OAOEZ apresentou sua mistura de progressivo, hard rock e psicodelia. Destaque para a ótima balada Dizem, reflexiva, pungente e direta ("Dizem também que mantenho uma certa distância que dura mais ou menos dois copos, mas que depois me solto") e para o som crescente da banda, que preenchia aos poucos cada centímetro do Motorrad.
Para fechar a noite, e o festival, Bangalô. A banda aproveitou o momento para fazer o lançamento de seu primeiro CD, Feito à Mão. O pop-rock da banda contagiou o público, fazendo os familiares e amigos cantarem juntos.
Quase uma hora da manhã de segunda-feira, final de festival, é hora de pegar o caminho da rodoviária. O som redondo e a qualidade dos shows deixam a certeza de que a viagem valeu. O Tinidos cresceu não só em dias nessa segunda edição, mas também em organização. Um bom incentivo e impulso para uma cena borbulhante, que cresce a cada ano, mas que soa ainda um pouco desorganizada, como a de Curitiba. No final, nem importou perder alguns jogos do Mundial da Alemanha por causa do sono. A boa música venceu.
6/25/2006
Videomaker "publica" mais de 100 vídeos de bandas curitibanas

(a Gazeta publicou hoje texto sobre os vídeos do Marcelinho no You Tube. Como o conteúdo da Gazeta na internet só pode ser acessado por quem é assinante, não tive como reproduzir aqui o texto na íntegra. Aí embaixo vai então o texto resumido publicado pelo site Tudo Paraná, da mesma Gazeta)
Marcelo Borges registrou os últimos 15 anos do rock curitibano
A cena rock da capital paranaense ganhou espaço na rede mundial de computadores. O site You Tube (http://www.youtube.com/) oferece 101 vídeos feitos pelo videomaker Marcelo Borges, atualmente radicado em Londres. São registros de shows, clipes e exemplares de sua produção como videoartista, que compõem um panonarama do underground curitibano dos últimos 15 anos.A banda Jully et Joe, por exemplo, aparece com seu primeiro vídeo, datado de 1991. Mas há também trabalhos mais recentes, como os produzidos para os grupos Poléxia, Sofia, Íris, Limbonautas, OAEOZ e Magnéticoss. Porém, o grosso da coleção são os registros do festival anual Rock de Inverno, que desde 2000 escala bandas de vários estilos para as noites de apresentações. Com isso a lista de artistas fica maior: Relespública, Cores D Flores, Plêiade, Loxoscelle, Trio Quintina, Zaius, Svetlana, Pelebrói Não Sei?, Magog, Excelsior, AAAAAA Malencarada, Quisto, Zeitgeist Co., Loaded, Criaturas, Zigurate, entre outros.Criado em 2005 pela empresa americana PayPal, o You Tube recebe e disponibiliza todo o tipo de conteúdo audiovisual. Em março deste ano, o site atingiu a marca de 20 mil novos vídeos cadastrados diariamente por internautas de todos os cantos do planeta. A busca é fácil e não é preciso fazer download.
Gazeta do Povo Online com informações do repórter Omar Godoy - Gazeta do Povo
6/06/2006
E lá vamos nós...

Depois de 8 meses escondidos, trabalhando, o ruído surgirá completo e pretende mostrar as novas tendências de estudo no domingo, dia 11 de junho no motorrad. Uma nave pronta para o ataque. Aqueles que lá estiverem, fechem os olhos e aguardem o contato para a transcendência. Será a estreia do piloto Giva na bateria...Somas são aceitos....
Oaeoz vai estar mostrando suas novas tendências também, uma apresentação recheada de canções que deverão compor o próximo disco. A nave quinteto prepara o ataque logo após da apresentação ruidosa, ou seja, continue de olhos fechados, mesmo no intervalo.... bons sonhos....
André Ramiro
Novos tinidos que se espalham pela cidade
OAEOZ é atração do último dia da mostra, domingo.Jornal do Estado hoje
Começa amanhã a segunda edição do festival independente curitibano Tinidos, que vai se espalhar por três lugares este ano. Amanhã, a festa de lançamento será no korova, mas antes tem pocket show na Fnac, com entrada franca, da banda carioca Rock Ted, no lugar da Polar, ao lado de grupos do interior do Estado, da capital, de Brasília e Rio de Janeiro. Os shows completos serão no Motorrad, noite adentro.
Era para ser mais fácil esta segunda edição, mas como a vida de independente exige sempre um plano b na manga, com o Tinidos não está sendo diferente. A programação que segue até domingo não conseguiu um patrocinador e conta com apoios em forma de permutas - e as bandas convidadas de outros lugares estão pagando a viagem. Os apoios ajudaram na estadia dos músicos e aluguel de som. Mas faltam “detalhes” que não interessam para platéia e maioria das bandas, mas deveriam, no mínimo, porque provocam algumas reflexões - e também refletem a falta de incentivo e a tão discutida inexistência de uma política cultural. Não bastasse isso, ainda tem banda local que nem ajuda na divulgação. Mas, não é o caso de chorar as pitangas, pois se assim fosse, não teria Tinidos este ano – e ele taí.

De Umuarama vem a a Superlego, que toca na quinta-feira
“Achamos que por estar maior estaríamos mais sossegados. Mas não foi o que aconteceu, não estamos conseguindo nem pagar as passagens dos grupos convidados”, diz Fernando Souza, da produção.
É impossível negar que isso é sintoma de um retrocesso que agora parece engrossado até por bandas locais cansadas de “vestir a camisa”. “E da iniciativa privada que não vê no meio independente um potencial, não percebe que neste circuito tem um um público fiel e tem trabalhos bem feitos, coisa séria”, pondera Souza. As leis de incentivo, no caso de festivais anuais, se tornam quase inviáveis pelo tempo de trâmite que exigem. “Dá uma desanimada, porque a gente esperava ter patrocínio. Mas, também estávamos preparados para o que está acontecendo, já sabemos como é ser produtor de música aqui”, diz Souza.
Mas, não tem nada não, emenda. O segundo Festival Tinidos já está fazendo a trilha sonora da semana e o som vai rolar na Fnac e no Motorrad até o próximo domingo. O Projeto Tinidos também mantém um site (www.tinidos.com.br), com entrevistas, coberturas de shows e viagens, resenhas, agenda, rádio online e um guia de casas de shows, imprensa, bandas, selos e gravadoras. Somente em 2005, com apenas 6 meses de existência, o Projeto realizou 15 shows. (AP)
Programação Festival Tinidos
Dia 7
a 19h — Pocket-show com Rock Ted (RJ) e coquetel para a imprensa na Fnac (R. Viriato Parigot de Souza, 5000), sempre com entrada franca.
a 22h — Festa de lançamento do festival com discotecagem Tinidos no Korova Bar
Dia 8
a 19h — Pocket-show com a brasiliense Phonopop e debate sobre o rock independente nacional com a participação de Emanuel Moon (Relespública), Fernando Brasil (Phonopop),
Adriane Perin (Jornal do Estado), Getulio Guerra (PrasBandas) na Fnac.
a 23h — Shows: Mordida, Superlego (Umuarama) e Pelebrói Não Sei, no Motorrad Bar (R. Trajano Reis, 418), sempre com ingressos a R$10.
Dia 9
a 19h — Pocket-show com a carioca Moptot e debate com a participação de Marielle Loyola (Cores d´Flores), Abonico Smith (TV Educativa), Álvaro Jr. (Movimento Música Curitibana), Gabriel Marques (Moptop) na Fnac.
a 23h — Shows com Impar (BH), Phonopop, e Os Dissonantes, Motorrad Bar
Dia 10
a 23h — Shows com Imperdíveis (SP), Poléxia e Moptop, no Motorrad Bar
Dia 11
a20h — Shows com Ruído/MM, OAEOZ e Bangalô, no Motorrad Bar
Site do Festival - www.tinidos.com.br/festival
Contato - contato@tinidos.com.br
6/05/2006
Notícias do outro lado do Atlântico
Marcelo Borges está em Londres desde 2003 se dividindo entre a marcenaria e a produção de vídeosJornal do Estado hoje
O fotógrafo e vídeomaker Marcelo Borges completou a marca de 100 vídeos no You Tube, a maioria de bandas curitibanas
Adriane Perin
A história de brasileiros que vão tentar a vida em outros países não é nenhuma novidade. Alguns vão compelidos por afinidades estéticas e por considerarem que suas propostas artísticas terão mais abertura, além, principalmente, de mercado de trabalho. Foi essa combinação que moveu o fotógrafo e videomaker Marcelo Borges para Londres. A razão que o levou a tentar pela terceira vez - a menos aventureira, digamos assim, mas sem deixar o clima de mochila nas costas totalmente de lado – foi o fato de que em sua cidade natal era difícil manter em dia as contas mais corriqueiras. E se é para ir para outra cidade que seja um bem longe, nada de São Paulo ou Rio de Janeiro.
A jogada deu muito certo e ele passa bem, produzindo seus vídeos, trabalhando com gente que lança moda na música pop. Seu mais mais recente aliado para dar vazão as criações é o site You Tube, que permite a disponibilização de produções audiovisuais na rede mundial de computadores.
Na semana passada Borges atingiu a marca de 100 vídeos, vistos por mais de seis mil pessoas. Além de clipes de várias bandas brasileiras, tem as propostas mais conceituais de Borges, algumas inéditas outras já conhecidas como o Única Coisa. Aos poucos sua intenção é colocar no site tudo o que produziu.
Entre os clipes já disponíveis estão os da paulista Hurtmold, os da carioca Casino, além de vários de grupos curitibanos de diferentes épocas: Trio Quintina, Zeitgeist, Cores d Flores, OAEOZ, Poléxia, Charme Chulo, Ruído MM, Svetlana, Sofia, Eletric Haven, aaaaaamalencarada, Plêiade, Magnéticoss. Entre os inéditos estão os clipes que são trechos do DVD Rock de Inverno 5, com a performance de bandas como a inglesa Transcargo, na quinta edição do festival curitibano, cujo material completo está previsto para o segundo semestre.
Em Curitiba, Borges também foi dono de bar, dos históricos Poeta Maldito e The Hole e tem em seu acervo imagens, em vídeo e fotografias, do nascimento da cena curitibana de música que se formou em torno do 92 Graus, no começo dos anos 90. São mais 1, 5 mil negativos e acima de 150 horas de imagens em vhs – preciosidade que aguarda atenção para não perder o registro desse pedaço da história da música curitibana contemporânea.
Marcelo Borges está num momento muito interessante e produtivo em Londres. Se das outras vezes entrou driblando as autoridades britânicas e conheceu de perto as artimanhas que permitem a sobrevivência num ambiente underground de verdade, desta vez ele está com tudo nos conformes da lei. De quebra, faz viagens que são valiosas experiências de vida, como a de bicicleta pelo Reino Unido, ele e a namorada. decididos a entender quem são os ingleses no meio de tanta gente de outros lugares do mundo. Ele também tem outros projetos interessantes de documentários comportamentais em curso.
Ele também se garante com a marcenaria, ófício que sempre lhe deu prazer e lá rende uma grana. Isso entre um convite e outro para filmar festivais como o Glastonbury ou para fazer luz em algum clube que irradia música alternativa para o mundo, como o Neighbourhood. “È do Bem Watt, do Everything But The Girl. Fiz um dia de bobeira, a luz ao vivo para uns djs e era o cara quem estava tocando, gostou e me contratou”, contou ele. “O lugar é fresco e só tem gente famosa com suas garrafas de champagne”, conta sobre o lugar onde, há um ano, apareceu o vocalista do Blur para dar uma palhinha, curtiu o trabalho do curitibano e pagou os drinks. “Thanks, Damon”.
Agora, os próximos planos são ir para Polônia e Russia, de onde, com certeza, sairão novos documentários sempre com esse olhar de andarilho de Borges, que segue deixando pegadas fortes lá do outro lado e aqui. “São muitos projetos a vida ta boa, não dá mais pra reclamar’, diz.
Serviço
Para conhecer o trabalho de Marcelo Borges é só acessar:
http://www.youtube.com/profile?user=marceloborges
6/03/2006
lembranças

e aqui, De inverno, demo de 1999
nessa versão, além das cinco faixas da original
tem várias outtakes, de shows, jams, etc
tosqueira
DOWNLOAD
AUTOPIRATARIA
é isso
dois discos do OAEOZ agora estão disponíveis para serem baixados, completos, no rapidshare e megaupload. Dias (2001) e Às vezes céu (2005). Com capa e tudo
é só clicar nos links abaixo
dois discos do OAEOZ agora estão disponíveis para serem baixados, completos, no rapidshare e megaupload. Dias (2001) e Às vezes céu (2005). Com capa e tudo
é só clicar nos links abaixo

6/02/2006
Tateando em busca do elo perdido...
Paulo Barnabé
Cada vez mais me convenço de um dos grandes problemas da cultura paranaense não é a falta de identidade cultural do Estado, mas a falta de consciência dessa identidade, por absoluto desconhecimento sobre a nossa história e sobre a história de nossa produção cultural. É o velho clichê de quem não conhece o seu passado não tem futuro. E um dos motivos para esse desconhecimento é justamente a dificuldade de acesso as informações sobre essa história, seus personagens e realizações. Por isso, quando acontece da gente topar com um livro como “Na boca do bode – entidades musicais em trânsito”, de Fabio Henriques Giorgio, é inevitável ser assaltado pela sensação de descoberta e revelação de algo que ao mesmo tempo está tão próximo, e tão obscurecido pela desinformação. O livro se propõe a contar a história da geração que ficou conhecida como “Vanguarda Paulista”, mas que na verdade foi gestada aqui no Norte do Paraná, tendo Londrina como epicentro. Geração essa que deu ao Brasil nomes como os irmãos Arrigo e Paulo Barnabé e o “Nego Dito” Itamar Assumpção – responsáveis por uma verdadeira revolução na música brasileira, ao desafiar os grilhões dos formatos tradicionais de canção, injetando atonalismo e experimentalismo na música popular, chocando tanto acadêmicos quanto o público médio, e deixando a mídia desconcertada. O marco inicial é o show realizado por eles, tendo como produtor o hoje escritor Domingos Pelegrini, em março de 1973, no Teatro Universitário de Londrina, e que já trazia em seu repertório a versão inicial de Clara Crocodilo. 
Arrigo, com a camisa do LEC, no festival da Tupi, em SP, 1979
Mas o livro faz um panorama extenso e ramificado de toda o contexto social, político e cultural que fez essa geração germinar e aparecer para o Brasil e o mundo. Desde que o livro chegou as minhas mãos ontem à noite, através da Adri, que não consigo desgrudar dele, e mesmo só tendo dado uma passada superficial a cada página que abro é uma descoberta e uma surpresa. Uma delas, por exemplo, foi saber que o Nego Dito, antes de se radicar em Arapongas, de onde seguiria para Londrina após iniciar seu envolvimento com teatro e música, teve como primeira morada no Norte do Paraná, para onde veio depois que sua avô, com quem ele morava no interior de São Paulo, morreu, nada mais nada menos que minha cidade natal, Paranavaí, onde o pai de Itamar trabalhava como fiscal do IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Benedito Santos Silva Beleléu vulgo Nego Dito cascavé
Também é interessante saber que um dos gurus desse pessoal todo foi o maestro tropicalista Rogério Duprat, de quem partiu a primeira proposta para que eles fossem pra São Paulo, onde gravariam seus primeiros discos. E foi por isso que eles acabaram taxados de “Vanguarda Paulista”. Porque foi lá que eles se tornaram conhecidos do Brasil. Mas toda a gestação do “projeto musical” desse pessoal na verdade se deu no Norte do Paraná. Tanto que o Arrigo fez questão de em um festival da extinta TV Tupi de São Paulo, tocar com a camiseta do Londrina Esporte Clube (LEC), como aparece em uma das fotos do livro. E é muito legal perceber que muito daquilo que a gente pensa, sonha, luta, persegue já tinha um paralelo nessa geração, que por sua vez tinha na geração do Duprat, que desafiou as fronteiras do erudito/popular, do bom/mau gosto, do cafona/sofisticado, da caretice/maluquice, também uma referência básica.
“O paranaense Arrigo Barnabé, então obscuro estudante de música da USP não vacilou. Mesmo sob o ardil da vaia. Sua participação no 1º Festival Universitário da Música Brasileira promovido em São Paulo pela TV Cultura, causou espécie. Bombástico no palco, desconhecido no vídeo (ainda) inédito em disco. Entrava para a história arrombando a festa e a casa grande do latifúndio MPB. Saíam os repertórios redundantes, as melodias com intervalos regulares, a reprodução deliberada das técnicas usuais, dos jeitos e trejeitos do cancioneiro. A histórica e nacionalmente desgastada “fórmula festival” renovada em TV pública. Nada dos óbvios e abomináveis refrões, do instrumental previsível e da simpatia mecânica, característicos nesse tipo de disputa. A aparição de Arrigo e seu arsenal sonoro, pelo contrário, beirou o insólito, o imprevisível, a polêmica. Inventor de uma nova sintaxe musical acabou esgrimindo com a preguiça mental da platéia: “O público quanto tem que pensar estranha”.
(trecho do livro Na boca do Bode)
“Fizemos um grande manifesto, etc. Mas aí foi na volta, exatamente, na volta desse trabalho em que fui lá, "mamar" nas tetas culturais, é que a gente viu lá os "cagistas", aqueles caras ligados ao John Cage (músico concrestista americano). E descobrimos, então, toda uma fatia de produção ligada ao acaso, ao happening, essa coisa, e começamos a fazer isso aqui. Eu, o Júlio Medaglia, o Damiano Cozzela, o pessoal que assinou aquele tal manifesto. Esse manifesto dizia exatamente isto: "chega desse negócio de coisinha da música erudita enfiada só dentro do teatro, pra meia dúzia de milionários e tal. A gente tem é que sair para a rua, fazer música na rua com os meios que houver; se forem bons ou maus, isso é outra coisa. Mas fazer o que for possível". E aí que me aproximei deliberadamente da música popular”.(...)Eu tenha uma composição que se chama "Organismo", que vai ser gravada provavelmente nos próximos meses. Era nesse tipo aí, bouleziana, tudo era seriado, estruturação dos sons, a reunião dos sons, a reunião dos grupos, o jeito de cantar, porque também tinha canto. E, aí, o Zappa passou lá e botou, jogou merda no ventilador. O Zappa e outros amigos deles. Ninguém conhecia o Frank Zappa, ele não fazia, não tinha formado os Mothers of Invention, uma coisa caralhal... Não sei se já se já chegaram a ouvir... espetacular. Mas ele estava prestes a fazer isso, mais tarde, às... . Quando nós chegamos, mais tarde, em 69, que eu fui vê-lo em Nova York, já era 69. Enfim, essa geração, aí, que está hoje beirando os 70 anos, como eu, 68 anos, é que fez essa mistura toda. Então, tudo virou uma coisa só. Não tem esse negócio que tem música erudita, tem música popular; não sei o que, é som aí.
Rogério Duprat em entrevista ao Trabalho Sujo
Outra história legal do livro é sobre o festival “Colher de Chá”, que levou para Cambé, cidade próxima a Londrina, nada mais nada menos que os Mutantes, já sem Rita Lee mas ainda com a formação básica, Arnaldo, Sérgio, Liminha e Dinho.
Arnaldo Baptista, com os Mutantes, em Cambé (1973), no festival "Colher de Chá"
Enfim, ao descobrir tanta coisa que está aí, tão próxima da gente e tão escondida me vem a mente muitas outras coisas. Como a gente teima em estar tão preocupado com o que anda rolando em Londres, sem enxergar aquilo que está acontecendo ao nosso lado, no nosso quintal, no nosso vizinho, no nosso bairro, cidade, estado, País. Essa inconsciência e alienação é um freio invisível em nossa evolução. Afinal, se não desvendamos nem o Leminski, ícone máximo da cultura paranaense, como esperar que as pessoas hoje (sejam os mass média ou o público médio) dêem atenção ao ruído/mm, ou ao Terminal Guadalupe, ou ao OAEOZ?Quantos de nós lemos de verdade um livro inteiro do cara? Quantos já ouviram uma composição do Waltel Branco, que de Paranaguá correu o mundo como maestro, arranjador dos discos do João Gilberto, trabalhou com Henri Mancini e Stravinski, produziu discos de novela, da jovem guarda ou de ídolos populares como Odair José? Quem é Inami Custódio Pinto? E Anatilde Julião? Alguém já ouviu falar do professor Heriberto Ivan Machado e do livro “Futebol do Paraná” - 100 anos de História? Alguém lembra que os Mutantes tocaram em Curitiba ainda com a formação original nos anos 60? E que o Beijo AA Força dividia palcos com a Legião Urbana, o Fellini e o Sexo Explícito nos anos 80? Contrabanda? Opinião Pública? Carne Podre? Fumou um na casa branca da “Chave”? Tomou umas com o Marcos Prado?
Mas uma coisa nisso tudo me anima. É imaginar que de alguma forma a gente tá ajudando ou pelo menos tentando ajudar a mudar um pouquinho essa mentalidade vira-lata, coitadística. E perceber como é importante a gente também contar e registrar as nossas histórias. Seja com os vídeos do Rock de Inverno, as fotos dos shows, as gravações, os discos, os textos, as poesias. A gente vai passar, mas todo esse material vai ficar pra quem quiser descobrir, no futuro, o que um grupo de malucos dessa cidade tava fazendo pra passar o tempo e tornar a vida menos árida, menos medíocre e modorrenta. Estamos vivos e isso é bom, e eu quero descobrir mais, conhecer mais, produzir mais, registrar mais, e viver mais. Porque parodiando o Chacal, o tempo é curto, mas a vida não pode ser pequena.
Cada vez mais me convenço de um dos grandes problemas da cultura paranaense não é a falta de identidade cultural do Estado, mas a falta de consciência dessa identidade, por absoluto desconhecimento sobre a nossa história e sobre a história de nossa produção cultural. É o velho clichê de quem não conhece o seu passado não tem futuro. E um dos motivos para esse desconhecimento é justamente a dificuldade de acesso as informações sobre essa história, seus personagens e realizações. Por isso, quando acontece da gente topar com um livro como “Na boca do bode – entidades musicais em trânsito”, de Fabio Henriques Giorgio, é inevitável ser assaltado pela sensação de descoberta e revelação de algo que ao mesmo tempo está tão próximo, e tão obscurecido pela desinformação. O livro se propõe a contar a história da geração que ficou conhecida como “Vanguarda Paulista”, mas que na verdade foi gestada aqui no Norte do Paraná, tendo Londrina como epicentro. Geração essa que deu ao Brasil nomes como os irmãos Arrigo e Paulo Barnabé e o “Nego Dito” Itamar Assumpção – responsáveis por uma verdadeira revolução na música brasileira, ao desafiar os grilhões dos formatos tradicionais de canção, injetando atonalismo e experimentalismo na música popular, chocando tanto acadêmicos quanto o público médio, e deixando a mídia desconcertada. O marco inicial é o show realizado por eles, tendo como produtor o hoje escritor Domingos Pelegrini, em março de 1973, no Teatro Universitário de Londrina, e que já trazia em seu repertório a versão inicial de Clara Crocodilo. 
Arrigo, com a camisa do LEC, no festival da Tupi, em SP, 1979
Mas o livro faz um panorama extenso e ramificado de toda o contexto social, político e cultural que fez essa geração germinar e aparecer para o Brasil e o mundo. Desde que o livro chegou as minhas mãos ontem à noite, através da Adri, que não consigo desgrudar dele, e mesmo só tendo dado uma passada superficial a cada página que abro é uma descoberta e uma surpresa. Uma delas, por exemplo, foi saber que o Nego Dito, antes de se radicar em Arapongas, de onde seguiria para Londrina após iniciar seu envolvimento com teatro e música, teve como primeira morada no Norte do Paraná, para onde veio depois que sua avô, com quem ele morava no interior de São Paulo, morreu, nada mais nada menos que minha cidade natal, Paranavaí, onde o pai de Itamar trabalhava como fiscal do IBC (Instituto Brasileiro do Café).
Benedito Santos Silva Beleléu vulgo Nego Dito cascavéTambém é interessante saber que um dos gurus desse pessoal todo foi o maestro tropicalista Rogério Duprat, de quem partiu a primeira proposta para que eles fossem pra São Paulo, onde gravariam seus primeiros discos. E foi por isso que eles acabaram taxados de “Vanguarda Paulista”. Porque foi lá que eles se tornaram conhecidos do Brasil. Mas toda a gestação do “projeto musical” desse pessoal na verdade se deu no Norte do Paraná. Tanto que o Arrigo fez questão de em um festival da extinta TV Tupi de São Paulo, tocar com a camiseta do Londrina Esporte Clube (LEC), como aparece em uma das fotos do livro. E é muito legal perceber que muito daquilo que a gente pensa, sonha, luta, persegue já tinha um paralelo nessa geração, que por sua vez tinha na geração do Duprat, que desafiou as fronteiras do erudito/popular, do bom/mau gosto, do cafona/sofisticado, da caretice/maluquice, também uma referência básica.
“O paranaense Arrigo Barnabé, então obscuro estudante de música da USP não vacilou. Mesmo sob o ardil da vaia. Sua participação no 1º Festival Universitário da Música Brasileira promovido em São Paulo pela TV Cultura, causou espécie. Bombástico no palco, desconhecido no vídeo (ainda) inédito em disco. Entrava para a história arrombando a festa e a casa grande do latifúndio MPB. Saíam os repertórios redundantes, as melodias com intervalos regulares, a reprodução deliberada das técnicas usuais, dos jeitos e trejeitos do cancioneiro. A histórica e nacionalmente desgastada “fórmula festival” renovada em TV pública. Nada dos óbvios e abomináveis refrões, do instrumental previsível e da simpatia mecânica, característicos nesse tipo de disputa. A aparição de Arrigo e seu arsenal sonoro, pelo contrário, beirou o insólito, o imprevisível, a polêmica. Inventor de uma nova sintaxe musical acabou esgrimindo com a preguiça mental da platéia: “O público quanto tem que pensar estranha”.
(trecho do livro Na boca do Bode)
“Fizemos um grande manifesto, etc. Mas aí foi na volta, exatamente, na volta desse trabalho em que fui lá, "mamar" nas tetas culturais, é que a gente viu lá os "cagistas", aqueles caras ligados ao John Cage (músico concrestista americano). E descobrimos, então, toda uma fatia de produção ligada ao acaso, ao happening, essa coisa, e começamos a fazer isso aqui. Eu, o Júlio Medaglia, o Damiano Cozzela, o pessoal que assinou aquele tal manifesto. Esse manifesto dizia exatamente isto: "chega desse negócio de coisinha da música erudita enfiada só dentro do teatro, pra meia dúzia de milionários e tal. A gente tem é que sair para a rua, fazer música na rua com os meios que houver; se forem bons ou maus, isso é outra coisa. Mas fazer o que for possível". E aí que me aproximei deliberadamente da música popular”.(...)Eu tenha uma composição que se chama "Organismo", que vai ser gravada provavelmente nos próximos meses. Era nesse tipo aí, bouleziana, tudo era seriado, estruturação dos sons, a reunião dos sons, a reunião dos grupos, o jeito de cantar, porque também tinha canto. E, aí, o Zappa passou lá e botou, jogou merda no ventilador. O Zappa e outros amigos deles. Ninguém conhecia o Frank Zappa, ele não fazia, não tinha formado os Mothers of Invention, uma coisa caralhal... Não sei se já se já chegaram a ouvir... espetacular. Mas ele estava prestes a fazer isso, mais tarde, às... . Quando nós chegamos, mais tarde, em 69, que eu fui vê-lo em Nova York, já era 69. Enfim, essa geração, aí, que está hoje beirando os 70 anos, como eu, 68 anos, é que fez essa mistura toda. Então, tudo virou uma coisa só. Não tem esse negócio que tem música erudita, tem música popular; não sei o que, é som aí.
Rogério Duprat em entrevista ao Trabalho Sujo
Outra história legal do livro é sobre o festival “Colher de Chá”, que levou para Cambé, cidade próxima a Londrina, nada mais nada menos que os Mutantes, já sem Rita Lee mas ainda com a formação básica, Arnaldo, Sérgio, Liminha e Dinho.Arnaldo Baptista, com os Mutantes, em Cambé (1973), no festival "Colher de Chá"
Enfim, ao descobrir tanta coisa que está aí, tão próxima da gente e tão escondida me vem a mente muitas outras coisas. Como a gente teima em estar tão preocupado com o que anda rolando em Londres, sem enxergar aquilo que está acontecendo ao nosso lado, no nosso quintal, no nosso vizinho, no nosso bairro, cidade, estado, País. Essa inconsciência e alienação é um freio invisível em nossa evolução. Afinal, se não desvendamos nem o Leminski, ícone máximo da cultura paranaense, como esperar que as pessoas hoje (sejam os mass média ou o público médio) dêem atenção ao ruído/mm, ou ao Terminal Guadalupe, ou ao OAEOZ?Quantos de nós lemos de verdade um livro inteiro do cara? Quantos já ouviram uma composição do Waltel Branco, que de Paranaguá correu o mundo como maestro, arranjador dos discos do João Gilberto, trabalhou com Henri Mancini e Stravinski, produziu discos de novela, da jovem guarda ou de ídolos populares como Odair José? Quem é Inami Custódio Pinto? E Anatilde Julião? Alguém já ouviu falar do professor Heriberto Ivan Machado e do livro “Futebol do Paraná” - 100 anos de História? Alguém lembra que os Mutantes tocaram em Curitiba ainda com a formação original nos anos 60? E que o Beijo AA Força dividia palcos com a Legião Urbana, o Fellini e o Sexo Explícito nos anos 80? Contrabanda? Opinião Pública? Carne Podre? Fumou um na casa branca da “Chave”? Tomou umas com o Marcos Prado?
Mas uma coisa nisso tudo me anima. É imaginar que de alguma forma a gente tá ajudando ou pelo menos tentando ajudar a mudar um pouquinho essa mentalidade vira-lata, coitadística. E perceber como é importante a gente também contar e registrar as nossas histórias. Seja com os vídeos do Rock de Inverno, as fotos dos shows, as gravações, os discos, os textos, as poesias. A gente vai passar, mas todo esse material vai ficar pra quem quiser descobrir, no futuro, o que um grupo de malucos dessa cidade tava fazendo pra passar o tempo e tornar a vida menos árida, menos medíocre e modorrenta. Estamos vivos e isso é bom, e eu quero descobrir mais, conhecer mais, produzir mais, registrar mais, e viver mais. Porque parodiando o Chacal, o tempo é curto, mas a vida não pode ser pequena.
5/26/2006
Que voz bonita é essa que sussurra em meu ouvido, que me ajuda a acordar para um dia que, assim, até parece envolto em magia? Que diz sobre ausência e me faz lembrar que nem sempre as noites são de risos e que tenho de aprender a não querer sempre assim, e a me aquietar quando ao redor o dia está nublado. Entender os dias nublados dos outros e não querer que tudo seja perfeito, e aceitar que teus dias não são sempre ....
Que acordes são estes que recobrem suas declarações de amor, sem jeito de querer ser,
nada,
nascendo ao meu lado, durmo em teus braços mais um sono de anjo. Nem sonhei esta noite, mas sei que tive teu calor envolvendo meu corpo e agora quando acordo quase junto com o dia guardo na boca o gosto bom de saber que tenho você
procurei um presente pra te dar ontem, mas acabo sempre achando que não sei do que gostas. Até sei, mas não sei, me entendes? Porque no fim das contas nunca entendemos nada, não é possível saber tudo ao certo e as nuvens tremem e ganham outras formas que a gente não reconhece igual.
E as palavras que saem da boca, chegam outras aos ouvidos e a gente vai levando
mesmo sabendo que 'o que você quer eu não posso dar'
e nem eu posso e também não quero, não quero querer, às vezes, e quero não querer em outras
no final, outra noite cai e sabemos que nos temos, mais do que a qualquer outra coisa no mundo. Mesmo desse jeito que as vezes parece confuso
e é por isso que não me canso de olhar pra você dormindo, quando perco o sono no escuro da madrugada; é por isso que não canso de lembrar as lindas histórias adolescentes que vivemos e me fizeram perceber o que se espalhava, mesmo que nem sempre eu quisesse, mesmo que eu muitas vezes não quisesse
por isso que adoro ainda mais a chegada da noite, mesmo as de insonia, porque daí posso te olhar nesse silêncio, lembrar as primeiras vezes que vi tua boca linda se abrir nesse sorriso que vc teima em guardar para poucos momentos.
Que voz bonita é essa que sussurra em meu ouvido essa canção tão sentida e me deixa com mais vontade ainda de viver tudo que aparecer pela frente....
Adri.
Que acordes são estes que recobrem suas declarações de amor, sem jeito de querer ser,
nada,
nascendo ao meu lado, durmo em teus braços mais um sono de anjo. Nem sonhei esta noite, mas sei que tive teu calor envolvendo meu corpo e agora quando acordo quase junto com o dia guardo na boca o gosto bom de saber que tenho você
procurei um presente pra te dar ontem, mas acabo sempre achando que não sei do que gostas. Até sei, mas não sei, me entendes? Porque no fim das contas nunca entendemos nada, não é possível saber tudo ao certo e as nuvens tremem e ganham outras formas que a gente não reconhece igual.
E as palavras que saem da boca, chegam outras aos ouvidos e a gente vai levando
mesmo sabendo que 'o que você quer eu não posso dar'
e nem eu posso e também não quero, não quero querer, às vezes, e quero não querer em outras
no final, outra noite cai e sabemos que nos temos, mais do que a qualquer outra coisa no mundo. Mesmo desse jeito que as vezes parece confuso
e é por isso que não me canso de olhar pra você dormindo, quando perco o sono no escuro da madrugada; é por isso que não canso de lembrar as lindas histórias adolescentes que vivemos e me fizeram perceber o que se espalhava, mesmo que nem sempre eu quisesse, mesmo que eu muitas vezes não quisesse
por isso que adoro ainda mais a chegada da noite, mesmo as de insonia, porque daí posso te olhar nesse silêncio, lembrar as primeiras vezes que vi tua boca linda se abrir nesse sorriso que vc teima em guardar para poucos momentos.
Que voz bonita é essa que sussurra em meu ouvido essa canção tão sentida e me deixa com mais vontade ainda de viver tudo que aparecer pela frente....
Adri.
5/19/2006
A próxima onda
Minha alma é uma janela de espelhos distorcidos carregados de culpa e sombras a espera de uma iluminação tentando entender até quando valerá a pena repetir os mesmos erros. Cada passo um alvo serpenteando em falso crescendo desespero até explodir em milhões de cores translúcidas. Caminhando no vazio do amanhecer elevado enquanto o céu se fantasia de oceano em direção ao infinito. A estrada íngreme e tortuosa alterada no redemoinho caleidoscópico de sons e rostos apagados no sonho esquecido do tempo. Intoxicado pelos enigmas da ambição em desertos povoados de respiração febril no limiar do crepúsculo da inconsciência percebo que viver é estar cego. A solidão da noite intemporal se estende a espreita de algum gesto de paixão e nos mergulha alegremente no caos da loucura embriagada para acordar a besta fera da ilusão animada em extase sórdido e silencioso. Tudo está calmo. Até a próxima onda. Enquanto o sono não vem, planejamos crimes delicados. Assassinatos caridosos. Genocídios sagrados. Horrores rituais. Estenda a sua mão. Não tenha medo. É apenas a vida.
5/16/2006
Histórias da vida de um rapaz em forma de belas canções
foto: Rafael DabulJornal do Estado de hoje
Adriane Perin
O disco começa com um jazz bem intimista, com os primeiros acordes de trumpetes que começam bem baixinho e vão gradativamente ocupando os espaços em companhia de outros instrumentos, para já no meio da música formar um conjunto jazzístico do qual o trumpete segue sendo a estrela máxima. É quase uma vinheta, o jazz que abre o disco Insomnica, do curitibano Igor Ribeiro. O que vem depois é uma chapuletada atrás da outra em um repertório de 15 canções que foram buriladas por quase três anos. Insomnica começou a ser gerado como o segundo disco da banda Iris, uma das que Ribeiro integra. Mas, na verdade foi produzido na quase solidão completa do estúdio caseiro do músico, com participações de Rubens K, Rodrigo Lemos, Mariele Loyola e Marco Mackoy. É mesmo a viagem bem pessoal do compositor e, portanto, o primeiro disco solo desse rapaz que é um dos artistas mais talentosos do circuito local, com direito a figurar como tal também no âmbito nacional. A carga emocional deste trabalho transborda desde a primeira faixa. Tem nas entrelinhas de canções carregadas de sentimentos, as cores de relações intensas, em escritos confessionais, que soam como acertos e erros de um romance que está no caminho para o fim, mas não sem deixar marcas fundas. Pianos, violões, trumpetes, teclados, guitarras, barulhos. Nada de mais, aparentemente, mas vai ouvir o resultado... Se nota ali algumas influências/referências de Ribeiro. Embora as letras sejam um dos pontos altos do trabalho, não é só elas que calam fundo, provocando até uma zonzeira pela força que mostram. As combinações instrumentais escolhidas por ele captam a tristeza das letras. Ao longo da existência de sua banda, Ribeiro construiu uma sonoridade peculiar na qual é possível identificar claramente o “som da Íris” - e é também a marca do Igor Ribeiro, que, no entanto, consegue em outros projetos se misturar mais aos parceiros. Na Íris, no entanto, parece estar a essência do artista inquieto que nunca fica satisfeito com o que fez. São timbres, arranjos instrumentais e vocais de cores sentimentais que servem de cama para letras pessoais e formam um conjunto de fazer doer o coração, äs vezes, de fazer pensar na vida, de fazer lembrar e sentir tudo de novo.Solidão, saudade, tristeza, busca, tentativa de (se) compreender, um tumulto de sensações que ficam entre o querer largar e não conseguir. Sentimentos que escapam desse álbum, lançado independente. Não é um disco fácil - é de uma beleza doída. Tem seus momentos pop, mas a densidade e tensões musicais dão o tom das 15 faixas.A primeira parte é a mais soturna do disco, com passagens intensas pelos machucados provocados pela vida, como “Meia Noite” (“Se Você acha que a gente deve seguir nossos destinos separados/ é melhor então deixar as lembranças de lado/ é melhor então deixar alguns sentimentos de lado/ Te reencontrei num quarto chorando sozinha/ num quarto escuro meia noite”).Ou “Tuas Mentiras” (“Eu te dei meu coração/você me disse não vale a pena/ Eu te dei meu coração/você me deu os teus problemas. Eu te dei meu coração/ você me disse não gosto de você/ como você gosta de mim/O Amor sempre tem fim”).Cortando as faixas com letra, estão outras igualmente belas, instrumentais. O disco de Ribeiro, que também toca na ESS, tem momentos pinkfloydianos, tem elementos eletrônicos e até uma desconstrução a la Gengivas Negras, mas na maior parte do tempo é Íris/Igor Ribeiro, até a medula. A partir de “O que é que Você vai Fazer”, parceria com Rubens K (Íris e Terminal Guadalupe) Insomnica parece a janela aberta em um dia bonito, para o até então clima sombrio predominante no disco. A partir daí, o álbum tem um som mais aberto, com cores mais pop que o deixam menos introspectivo. Entre estas, duas versões de “Certas Manhãs”, com vocal do Poléxia Rodrigo Lemos (“Lembra de certas manhãs, em que a vida, você eu/ ficavamos leves/ Depois no final da noite a gente se abraçava e tentava descobrir novas maneiras de ser feliz/A gente quase consegui/ foi por um triz”).
NÃO VOU MORRER NA MINHA KITCHENETE
O texto mais interessante sobre o que aconteceu nos últimos dias em SP saiu hoje na Folha. Taí. Mais uma vez o Mário disse tudo. assino embaixo. os caras só lembram da violência quando ela atinge a classe média ou quando acontece algum evento desse. no dia a dia, a bala come solta por aí e ninguém tá ligando. se quisessem mesmo resolver, já teriam feito. Acontece que como bem diz aquele ex-chefe de Polícia do RJ naquele documentário notícias de uma guerra particular, do João Salles, a classe média quer essa polícia (ou política, ou justiça) corrupta que está aí. Porque o dia que a polícia não for corrupta, e para de matar apenas pobre, preto e favelado, são os bacanas engravatados que vão ter que começar a dançar. e aí eles não vão querer. Por isso, as leis são feitas pra protegê-los. Pro resto, tem as armas.
O curioso é que o texto do Mário saiu justamente na página ao lado da que tem como destaque uma matéria intitulada "Está inaugurado o terror nos Jardins". Ou seja o problema, todo dia morre gente no Capão Redondo, mas neguinho que tá lá na Daslu não tá nem aí. Entenderam o que eu disse...
Não vou morrer na minha quitinete
MÁRIO BORTOLOTTO ESPECIAL PARA A FOLHA
A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcaram nas últimas semanas foi justamente a frase dita por Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: "O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários em um país como o Brasil".Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas, com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir a um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve.E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os busões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma.E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido?Faz a autópsia da situação, brother. Com atitudes meia-boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo, meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e ser o dono de suas próprias vidas.Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada?Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso. Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não existe nada de que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca.
Mário Bortolotto é dramaturgo, diretor de teatro e ator
O curioso é que o texto do Mário saiu justamente na página ao lado da que tem como destaque uma matéria intitulada "Está inaugurado o terror nos Jardins". Ou seja o problema, todo dia morre gente no Capão Redondo, mas neguinho que tá lá na Daslu não tá nem aí. Entenderam o que eu disse...
Não vou morrer na minha quitinete
MÁRIO BORTOLOTTO ESPECIAL PARA A FOLHA
A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcaram nas últimas semanas foi justamente a frase dita por Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: "O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários em um país como o Brasil".Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas, com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir a um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve.E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os busões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma.E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido?Faz a autópsia da situação, brother. Com atitudes meia-boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo, meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e ser o dono de suas próprias vidas.Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada?Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso. Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não existe nada de que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca.
Mário Bortolotto é dramaturgo, diretor de teatro e ator
5/10/2006
Essas recordações me aquecem
Meu sono me largou cedo hoje, nem tinha o dia clareado ainda e já estava eu abraçada com o travesseiro ouvindo o piar dos pássaros madrugueiros. Até lembrei de repente, dos tempos de pular ainda noite da cama pra abrir o bar, junto com minha doce e companheira vozinha. Éramos nós duas começando o dia no bar do ‘seu Perin’, o meu amado avô.
Posso me sentir lá outra vez, o cheiro da lenha começando a queimar no fogão, a chapa limpa, fumaça discreta fumegando; o calor começando a aquecer e se espalhando pela casa ao som de uma música caipira que saia do radinho de pilha ligado na tomada, sintonizado na rádio Coroado (que ainda ta lá, mas agora é FM, se não me engano) em cima da geladeira. Era uma cônsul vermelha a geladeira da casa onde cresci.
Dali a pouco o cheio do café é que tomaria conta, enquanto os primeiros ruídos dos caminhões chegando para levar o povo pras lavouras de alho (é difícil esquecer aquele cheiro – o do alho, to falando agora).
Eu já estava com a porta do bar aberta. Nem sempre era eu quem o abria, mas sempre que abri tive que controlar um certo medo do que havia depois da porta. Coisa de criança ter medo assim – mas desde pequena não me dei outra chance que não a de encara-lo. (Lembro muito bem, que via “fantasmas” no trajeto entre o bar e a cozinha de casa – eles eram juntos, mas se passava por um corredor entre um e outro. E eu me obrigava: vai lá e olha atrás da porta pra vê como num tem nada ali. Antes um pouco de abrir o bar pedia a proteção das ‘entidades do bem’, que foi como aprendi, de seu ‘destranca rua’ –quem sempre ganhava uns goles de pinga pra melhor cuidar da gente - do meu querido ‘preto velho’. Foi as bênçãos de algumas “entidades” que vivi a primeira etapa da minha vida).
Voltando ao café, o café com mistura ficava pra depois, antes era preciso preparar as marmitas de quem pegaria no batente sob o ar gelado em cima de uma caçamba, os bóia-frias, com suas cadernetas de contas anotadas. Eles levavam na bolsa café com leite, pão com salame, lembro bem.
O meu lanche favorito era o bauru, que minha vozinha fazia com pão de leite e queijo da roça (eu não tinha idéia de que é algo sofisticado com tantas variações!), feito direto na chapa do fogão a lenha, prensado por uma chaleira que sempre tinha água quente. Na mesma chapa que fazia um gostoso pinhão, deixando marcas do seu calor na casca e espalhando aquele cheiro que aqui no Paraná o povo também conhece muito bem.
O café para acompanhar vinha com graspa para esquentar o corpo pequeno que logo encararia o horário escolar subindo um imenso morro, não raras vezes, coberto pela geada que fazia deslizar de volta três passos em cada um que se conseguia dar.
Era mais ou menos assim que meus dias começavam e foi deles que senti saudades hoje, meio dormindo ainda. Quis outra vez minha Vó Ina ao meu lado ou me esperando na cozinha com seu avental e vestido florido, fazendo tudo por mim – inclusive não me deixando ver televisão. Ou levando uma porção de brasa num panelão para aquecer meus pés gelados desde criança, preu não ficar tão gelada no bar nos dias mais frios.
Fui de volta praquele quarto que dividia com eles, parede na parede do bar e o barulho dos homens jogando sinuca, ou cartas: pife ou canastra, não truco, que aquele povo era muito brabo e esse jogo era briga quase certa e as brigas lá eram sempre muito feias de se ver e eu vi algumas...
Essas recordações me matam, canta o Rei – e tantas vezes ouvi essa triste música pensando nisso tudo, depois que vim pra Curitiba. Mas, fazia tempo que elas não me acertavam assim. Claro que não dormi, pulei da cama e rabisquei algo parecido com o que você ta lendo. Mesmo agora, dois dias depois desse despertar, é impressionante, como tudo volta a tona, só que de manhã, no silêncio do dia que ainda não começou pra maioria, é tudo tão mais forte. E o mais incrível de tudo é a nitidez das sensações, das lembranças, dos cheiros, dos medos, dos barulhos, do amor e do carinho que recebi, e, principalmente, dessa saudade tão monstruosa que nunca mais vai passar.
Adri Perin
Posso me sentir lá outra vez, o cheiro da lenha começando a queimar no fogão, a chapa limpa, fumaça discreta fumegando; o calor começando a aquecer e se espalhando pela casa ao som de uma música caipira que saia do radinho de pilha ligado na tomada, sintonizado na rádio Coroado (que ainda ta lá, mas agora é FM, se não me engano) em cima da geladeira. Era uma cônsul vermelha a geladeira da casa onde cresci.
Dali a pouco o cheio do café é que tomaria conta, enquanto os primeiros ruídos dos caminhões chegando para levar o povo pras lavouras de alho (é difícil esquecer aquele cheiro – o do alho, to falando agora).
Eu já estava com a porta do bar aberta. Nem sempre era eu quem o abria, mas sempre que abri tive que controlar um certo medo do que havia depois da porta. Coisa de criança ter medo assim – mas desde pequena não me dei outra chance que não a de encara-lo. (Lembro muito bem, que via “fantasmas” no trajeto entre o bar e a cozinha de casa – eles eram juntos, mas se passava por um corredor entre um e outro. E eu me obrigava: vai lá e olha atrás da porta pra vê como num tem nada ali. Antes um pouco de abrir o bar pedia a proteção das ‘entidades do bem’, que foi como aprendi, de seu ‘destranca rua’ –quem sempre ganhava uns goles de pinga pra melhor cuidar da gente - do meu querido ‘preto velho’. Foi as bênçãos de algumas “entidades” que vivi a primeira etapa da minha vida).
Voltando ao café, o café com mistura ficava pra depois, antes era preciso preparar as marmitas de quem pegaria no batente sob o ar gelado em cima de uma caçamba, os bóia-frias, com suas cadernetas de contas anotadas. Eles levavam na bolsa café com leite, pão com salame, lembro bem.
O meu lanche favorito era o bauru, que minha vozinha fazia com pão de leite e queijo da roça (eu não tinha idéia de que é algo sofisticado com tantas variações!), feito direto na chapa do fogão a lenha, prensado por uma chaleira que sempre tinha água quente. Na mesma chapa que fazia um gostoso pinhão, deixando marcas do seu calor na casca e espalhando aquele cheiro que aqui no Paraná o povo também conhece muito bem.
O café para acompanhar vinha com graspa para esquentar o corpo pequeno que logo encararia o horário escolar subindo um imenso morro, não raras vezes, coberto pela geada que fazia deslizar de volta três passos em cada um que se conseguia dar.
Era mais ou menos assim que meus dias começavam e foi deles que senti saudades hoje, meio dormindo ainda. Quis outra vez minha Vó Ina ao meu lado ou me esperando na cozinha com seu avental e vestido florido, fazendo tudo por mim – inclusive não me deixando ver televisão. Ou levando uma porção de brasa num panelão para aquecer meus pés gelados desde criança, preu não ficar tão gelada no bar nos dias mais frios.
Fui de volta praquele quarto que dividia com eles, parede na parede do bar e o barulho dos homens jogando sinuca, ou cartas: pife ou canastra, não truco, que aquele povo era muito brabo e esse jogo era briga quase certa e as brigas lá eram sempre muito feias de se ver e eu vi algumas...
Essas recordações me matam, canta o Rei – e tantas vezes ouvi essa triste música pensando nisso tudo, depois que vim pra Curitiba. Mas, fazia tempo que elas não me acertavam assim. Claro que não dormi, pulei da cama e rabisquei algo parecido com o que você ta lendo. Mesmo agora, dois dias depois desse despertar, é impressionante, como tudo volta a tona, só que de manhã, no silêncio do dia que ainda não começou pra maioria, é tudo tão mais forte. E o mais incrível de tudo é a nitidez das sensações, das lembranças, dos cheiros, dos medos, dos barulhos, do amor e do carinho que recebi, e, principalmente, dessa saudade tão monstruosa que nunca mais vai passar.
Adri Perin
5/05/2006
Réquiem por um sonho alquebrado
Porque será que eu tenho que me sentir culpado por sonhar, acreditar no sonho e lutar por ele? Será que é pecado ter paixão por aquilo que se gosta e querer muito, e não só querer, mas vibrar por isso e sofrer quando as coisas não acontecem? Será que estou condenado a passar o resto da vida pedindo desculpas por querer fazer mais do que apenas esperar? É triste perceber que tudo aquilo em que você mais apostou não passa de uma miragem, um castelo de cartas que pode ruir na primeira brisa. E todas aquelas promessas e tapinhas nas costas não significavam nada. Estou cansado. Ficando velho e ranzinza. E acreditando cada vez menos. E sonhando cada vez menos. E sinto que o tempo está se esgotando. E que nada pode me salvar. Me sinto como aquela pessoa que está se afogando, e quanto mais se debate, mais afunda. Talvez tenha chegado a hora de fechar a porta, apagar a luz e ficar em silêncio. Mesmo que pra mim isso signifique algo parecido à morte. Mas quem se importa? Afinal, “ninguém sai vivo daqui” mesmo.
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